As boas coisas

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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Uma proposta irrecusável

"Dar-te-ei o que queres, mas pagarás o preço justo, indubitavelmente!!"
Contou-me um amigo que a cobiça é uma coisa terrível, pois ele mesmo que se acreditava vacinado contra os males desta vilã do velho testamento, viu-se enredado por suas pegajosas teias quando menos esperava.
Conta o eloquente parceiro, que diante dos desejos incontroláveis de alargar a vastidão de sua propriedade, apresentou ao proprietário do terreno ao lado de sua casa, uma modesta e calculada proposta de R$15.000,00 para compra do referido.
Este por sua vez torceu o nariz insultado e alegou que por menos de vinte, sequer tiraria as pantufas dos pés.
- Ah, o tempo irá passa e ele mudará de ideia, e virá desconsolado bater à minha porta, basta esperar. Pensou este meu amigo.
E assim o tempo se fez acontecer e numa raiosa manhã de domingo, eis que soa-lhe o sino indicando visita à porta.
Nem bem se abre o umbral, e se desvela vigorosa e opulenta mulher que de olhos semicerrados, mede-o da cabeça aos pés enquanto lança olhares por cima dos ombros em busca de novos alvos para seu excrutínio.
- Bom dia, meu nome é Florisbela de-Chartre, sou a nova proprietária do terreno ao lado, podemos ter um minuto de mútuo confábulo?
Fascinado e curioso, meu amigo a conduziu para dentro de seus domínios, já que quem em seus domínios está, sob seus poderes também estará, bem, era o que ele acreditava até então...
Ela por sua vez, deslizava quase que magicamente pelo gramado enquanto seus olhos percorriam tudo ao redor.
- Sua esposa esta simpática senhora? Disparou.
- Oh, ho ho ho... minha mãe... Enquanto aquela exibia o sorriso triunfante de quem rejuvenescera trinta anos em dois segundos.
- Ah, verdade? E como seu filho a mantém prisioneira neste fim de mundo, adorável senhora?
Sem permitir-lhe tempo hábil para uma resposta a altura, ela disparou a queima-roupa:
- Sabe este terreno aqui ao lado? Agora ele me pertence e vim vendê-lo ao senhor, por R$30.000,00, já que por ele eu paguei justos vinte mil sendo que pretendo lucrar dez mil com o fechamento da escritura que o senhor está para assinar.
Meu amigo sorriu maliciosamente enquanto escondia o espanto diante de tamanha cara de pau e soltou:
- E o que a faz acreditar que eu, por ventura teria algum tipo de interesse na compra deste pântano inútil, adorável senhora?
- Ah, eu lhe explico, seu vizinho, me confessou que o senhor lhe oferecera quinze mil, e que ele não aceitaria menos de 20. Paguei-lhe então os vinte e aqui está a escritura para que o senhor a assine logo após assinar o cheque de trinta com o qual comprarei uma viagem de volta ao mundo.
- Confesso que na ocasião, manifestei um leve interesse, mas isso foi em outros tempos, não o desejo mais....
- Que pena, nesse caso terei de prosseguir com meu projeto de construção e abertura de um clube de funk no local, sabe como é isso não? Os funkeiros são um pouco barulhentos, urinam em sua calçada, brigam na rua, bloqueiam sua garagem, atiram objetos por cima do muro... isso sem contar no gosto duvidoso do referido gênero musical que só encontra par entre as mais questionáveis parcelas da sociedade além do consumo desenfreado de substâncias entorpecentes que costumam vir acompanhadas de seus comerciantes pouco profissionais.

Sua percepção lhe apresentara invariavelmente a parede dura de um beco sem saída... então meu amigo secou a gota de suor que lhe começara a descer pela sobrancelha direita fazendo-lhe arder o olho e dirigiu-se à dona Florisbela dizendo:
- ME DÁ AQUI ESSE MALDITO CONTRATO! ONDE É QUE EU ASSINO?

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Um Guia Gay para Amigos Héteros (e gays também)

Um Guia Gay para Amigos Héteros (e gays também)

Tenho muitos amigos, eleitos ao longo de meus agora cinquenta e três anos de vida. Muitos são heterossexuais, muitos parecem ser heterossexuais, alguns parecem gays mas dizem que não são, alguns são claramente gays e nem imaginam e outros são declaradamente gays. Digo isso porque já passei por algumas dessas fases e só lá pelo meu 18º aniversário é que comecei a juntar as peças para começar a entender melhor afinal qual era minha sexualidade. Esse processo se consolidou quando eu tinha cerca de 23 anos e aí ficou claro que eu de fato preferia os meninos, embora as meninas continuassem ainda tendo algo de interessante, talvez mais pelo meu interesse em admirar as coisas belas.

Introdução

Antes de ir ao assunto, gostaria de lembrar que não sou especialista em nenhum desses assuntos, não sou antropólogo, nem psicólogo ou sexólogo e muito menos cientista político. Não escrevo aqui desejoso de impor minhas ideias, mas sim apenas dividi-las com vocês, afinal estas ideias se baseiam apenas na minha experiência de vida e na satisfação que sinto em observar e refletir sobre o comportamento das pessoas ao meu redor.

O ser humano é pura diversidade, nossa inteligência nos capacita a definir quem somos. Ter liberdade para decidir isso é um direito que considero essencial, afinal uma pessoa tem o direito de ser quem e o que ela desejar ser. Este direito está acima do contexto moral e cultural das sociedades, estes são relativos ao espaço e ao tempo, o que faz de algo inaceitável em uma parte do mundo, perfeitamente plausível em outra, assim como algo que foi tido como razoável, tornou-se abominável com o passar dos anos e vice-versa. De fato as ideias de moralidade e muito do que é certo ou do que é errado vem com uma carga de interpretações que variam de acordo com a "seita" que as pessoas acharam por bem, permitir que regesse suas vidas.

Basta lembrar que comercializar e ter seus próprios escravos era não apenas normal, como "indispensável" em várias sociedades do mundo, inclusive no Brasil até pouco tempo atrás. Atirar homossexuais de cima de prédios ainda hoje é aceitável pelo EI e a seus hipnotizados seguidores. Durante a segunda guerra mundial, assassinar judeus foi considerado uma solução para "o problema que eles representavam" como acreditava o regime nazista. Na mesma época, uma criança com síndrome de Down ou qualquer outra deficiência, poderia ser morta ou entregue em um orfanato, pois ela representava no mínimo, além de um incômodo, uma vergonha para qualquer família "respeitável", afinal até a década de 50, o nascimento de uma criança deficiente era basicamente culpa da mãe que era provavelmente uma devassa.

Algumas pessoas alegam que hoje existe uma "invasão gay", alegando que antigamente essas coisas não eram assim. Estou certo de que no antigamente as pessoas homossexuais mantinham-se no armário, por mais que isso provocasse seu sofrimento, uma vez que o comportamento que saísse da heteronormatividade poderia significar o fim de sua vida. Eu mencionei a palavra "Heteronormatividade". Esta palavra descreve as situações nas quais um comportamento diferente do heterossexual passa a ser marginalizado, ignorado ou perseguido. Não é uma delícia? Cuspa no chão, coce o saco, arrote, vista a camisa do avesso, e aproveite para dar um tapa na orelha na namorada e você estará em dia com os preceitos da heteronormatividade, além de não correr o risco de tomar porrada na Paulista quando resolver dar uma volta com seu short curto.

Classificações e rótulos

De fato, acho que qualquer tentativa de classificar ou rotular será sempre malsucedida. O problema é que as pessoas sentem-se mais seguras quando podem definir categorias para o que está ao seu redor, é a ânsia de inventariar, classificar e rotular para conseguir tornar mais previsível o que está por vir dá a nossa vida, um grau a mais de segurança.

Como é descobrir-se gay

Resultado de imagem para picole de mangaImagina essa cena: você foi feliz chupando sorvete de manga durante a vida toda, saía para comprar sorvete de manga com os amigos, conversava sobre sorvete de manga e até usava camiseta amarela da cor de sorvete de manga. Andava de bike, praticava esportes, ia para a balada, enfim... você era uma "pessoa normal". Então um dia, um amigo que você nunca imaginou, oferece pra você um sorvete de morango. Você fica nervoso, já tinha reparado que existia sorvete de morango, mas na balada da adolescência, você andou com a galera e pegou o sorvete de manga, fato é que você nunca tinha experimentado sorvete de morango na vida. Mas você gosta bastante de seu amigo e numa mistura de curiosidade e interesse inconsciente, experimenta o tal sorvete de morango. Seus olhos se fecham para sentir melhor o sabor, seu coração começa a saltar no peito enquanto um uníssono de orquestra ecoa em seus ouvidos, soam as trombetas, fogos de artifício, chuva de serpentina e finalmente você descobre que aquilo sim é que é sorvete. Putaquepariu, que sorvete gostoso, e eu que tinha chupado manga a vida inteira e nunca tinha me dado conta que morango é muito melhor?! Ah váááá pa..!

Puxa vida, o de manga até que era gostosinho, mas na real... sorvete mesmo tem que ser de morango. Você olha pra cara de seu amigo e ele parece um morango com olhos.
E agora? Você sai para uma vida paralela? Separa-se de seus amigos? Joga fora suas camisetas amarelas e troca tudo por cor de moranguinho? Desiste do surf, do parapente, da escalada, da cultura nerd, da bike, do futebol e tudo mais que você fazia até então e vai correndo pra Marquês de Sapucaí tentar o miss carnaval? Também existe a opção de você tentar se afastar de qualquer elemento que te exponha a sua realidade interior. Então se um casal de meninas passar de mãos dadas na sua frente ou se dois rapazes decidirem se beijar, você pode gritar com eles a quem sabe até dar umas porradas, afinal, vai que dá um revertério na sua cabeça e a vontade de chupar sorvete de morango volta?

Aceitação

Os caminhos são muitos e ainda por cima, entre o sorvete de manga e o de morango, existem vários sabores, cada um deles com sua particularidade e sua atratividade. A questão está relacionada apenas um elemento: Aceitação. Pessoalmente, nunca fui fanático por coisa alguma, sempre fui meio generalista, sabendo um pouco de vários assuntos. Fui de vendedor de relógios a motorista de caminhão, de vendedor de kit gás a diretor de criação, passando por professor de inglês, instrutor de parapente e até escrevi um livro e plantei uma árvore. Encontrei meu companheiro de vida aos 36 anos, me casei e tive uma filha linda que amamos e curtimos a cada segundo.

Hoje, com 53 anos, sinto-me muito tranquilo e relaxado a respeito de minha vida pessoal e também sexual. Não consigo enxergar algo que de fato faça de mim, exceto pelo sorvete que eu gosto, diferente de qualquer chupador de sorvete de manga por aí.

Mas, o que para mim parece claro e simples, pode ser sinistramente complexo para muita gente e é por isso que escrevo este "Guia Gay" para tentar ao menos dar uma mãozinha para deleite geral da nação e é claro, para quem lá no fundo ainda acha que sorvete de morango é coisa do demônio ou de doido, ou de gente de quem é melhor manter distância.

Opção sexual ou orientação sexual?

Resultado de imagem para menino brincando de bonecaVou começar pela expressão que me inspirou a escrever este texto. Gente, de uma vez por todas, não existe "opção sexual", o termo certo é "orientação sexual". Eu explico. Ninguém decide tornar-se gay e muito menos consegue influenciar alguém para que esta pessoa se torne gay. Então, brincar de boneca, vestir rosa ou colocar um vestido não "transforma" nenhum menino em gay, da mesma forma que meninas podem ter o direito de rodar pião, empinar pipa ou trepar em muros, inclusive vestindo azul. Pode ficar tranquilo, papai. Por isso, se alguma mente maligna um dia planejou converter crianças em gays dando a elas a tal mamadeira de piroca (e me contem qual seria a finalidade desse plano estrambótico, porque não consigo vislumbrar o que ganharíamos com um jardim de infância inteiro convertido em sauna gay lotada), lamento informar que não vai dar certo. Inclusive uma professora disse outro dia: Se eu não consigo convencer um moleque a sentar na bendita cadeira da sala de aula, como é que acham que vou convencê-lo a sentar numa rola? Amei.

Não é opção, é fato

É preciso compreender que a sexualidade não é uma escolha, ela faz parte da pessoa desde o dia em que ela nasce. Ninguém decide virar gay, a pessoa nasce preferindo mais ou menos estar com pessoas do mesmo sexo, inclusive são inúmeras possibilidades que vão de um extremo até o outro. Existem então pessoas que se relacionam exclusivamente com pessoas de outro sexo assim como pessoas que se relacionam exclusivamente com pessoas do mesmo sexo e todas as graduações possíveis entre os dois lados. É claro que uma coisa é aquilo que está dentro de seu inconsciente e outra é aquilo que você pratica no seu dia a dia, sendo assim, o planeta está cheio de gente que se casou com alguém do outro sexo, se relaciona com o cônjuge, mas no fundo, no fundo, bem lá no fundo... ficaria muito mais satisfeito se fosse alguém do mesmo sexo e por aí vai.

A decisão de viver na prática sua orientação sexual, invariavelmente sofre influência cultural que pode vir da família, do trabalho, da escola, dos amigos. Alguém como eu, por exemplo, que foi criado em família tradicional e aprendeu a cultivar preconceito contra homossexuais passa por grandes dificuldades em compreender sua própria sexualidade, já que justamente aquilo que você mais quer ser, é precisamente aquilo que as pessoas lhe disseram que é feio e proibido. De qualquer forma, nunca existiu aquele momento em minha vida em que eu pensei em opção. Ao contrário, foi sim uma descoberta, uma constatação pura, simples e irrevogável.
É como quando você vira a esquina e vê um cachorro. Ele está lá, não há nada para optar, apenas reconhecer que lá está o cão. é preciso então decidir o que fazer, se você desvia, sai correndo, enfrenta o bicho na porrada ou tenta se aproximar com um gesto carinhoso. O que é que você vai fazer?
Da minha parte, sou um privilegiado, pois minha família sempre me deu claros sinais de compreensão e respeito. Não deve ter sido nada fácil para meu pai que foi criado em um ambiente machista, ficar sabendo que o filho é gay. Lembro-me da pergunta: "mas... não tem cura?"... e a resposta: Fica tranquilo pai, seu filho não está doente, nada vai mudar e eu continuarei sendo o mesmo de sempre para sempre.
Com minha mãe, foi mais peculiar: "Ai meu filho, e agora você não vai ficar saindo por aí a noite?" e a resposta: Mãe, eu sempre saí a noite...

De qualquer forma por mais que o meio social possa de uma maneira ou de outra, abominar a homossexualidade, isto não irá mudar o curso do desenvolvimento da sexualidade de uma pessoa, o que significa que não existe forma de um gay deixar de sê-lo. Qualquer tentativa nesse sentido, poderá sim transformar a vida de sua linda menina que quer usar coturnos e namorar meninas em um tormento infernal, inclusive levando-a à destruição. A verdade é que você não precisa entender sua filha ou seu filho, basta respeitá-la(o).


Identidade de gênero

Imagem relacionadaTotalmente diferente da orientação sexual, a identidade de gênero é tão simples quanto diz o nome, é o gênero com o qual a pessoa se identifica, se reconhece. Então, existem meninos que se reconhecem como meninas e vice versa. A identidade não possui  relação direta com a sexualidade, ou seja, um rapaz pode se identificar e sentir-se mulher e gostar de transar com mulheres e vice-versa. Então gay não tem relação com trans. Uma coisa é uma coisa... a outra coisa é outra coisa.

Pelo que aprendi, isso pode acontecer desde cedo, quando a criança começa a desenvolver sua personalidade, seu ego, ou pode ficar latente a vida toda.

Bem, quando uma pessoa de um sexo decide transformar sua aparência no outro sexo, esta pessoa costuma dizer-se Trans. Existem homens e mulheres trans. A cartunista Laerte, por exemplo, nasceu homem, viveu mais de 50 anos como tal e só recentemente assumiu sua transexualidade. Laerte é uma pessoa trans. Thammy Miranda nasceu mulher, sente-se identificado com uma aparência masculina, Thammy é homem trans. Usei exemplos de pessoas famosas para evocar suas imagens mais facilmente. De fato, você encontrará infindáveis possibilidades de combinações de sexualidades e identidades e cabe a você respeitar que o desejo de cada um deve ser soberano a qualquer padrão pré-estabelecido.

Claro que as perguntas emergem, muita gente alega que quem nasceu homem, será homem para sempre, entretanto não podemos nos esquecer que o corpo difere da mente. Existem homens que se sentem felizes voando de parapente, ao passo que existem homens que não podem sequer imaginar a possibilidade de se afastar do chão. Nenhum dos dois é mais ou menos homem, pois o que está entre as pernas não tem relação direta com o que está dentre da cabeça. É muito complicado e inimaginável para quem tem terror de altura, sair por aí voando, assim como é também quase impossível para quem está feliz com sua identidade sexual, imaginar-se em outra. Esta é uma excelente oportunidade para um exercício de empatia, que consiste em tentar se colocar no lugar da outra pessoa. Então coloque-se por um instante na pele desta moça que se olha no espelho e sente uma tristeza tremenda ao ver um corpo de mulher. Dentro de sua mente, você se reconhece como homem, embora você tenha nascido mulher. O que fazer? Ignorar e mascarar o que é claramente a maior verdade do universo para você porque isso não é bem visto e aceito por alguns setores da sociedade ou mandar todos se foderem e fazer de sua vida o que você bem entende? Se sua resposta for a primeira, das duas uma, ou você simplesmente não consegue se colocar no lugar de outra pessoa, ou seus conceitos mais básicos de liberdade individual necessitam urgentemente de uma revisão.

Homofobia

A homofobia é qualquer ação violenta contra o homossexual, seja violência verbal, física ou social, como impedir alguém de entrar num clube ou perder o emprego por conta disso. É triste e lamentável o comportamento homofóbico, já que o homossexual é uma pessoa como qualquer outra. Então agredir, insultar ou praticar maldades contra gays é um comportamento horroroso mesmo. Espero que torne-se crime, como já é em vários países do mundo.

Mas aparentemente existe alguma motivação mais específica por trás do comportamento homofóbico. Eu tenho notado que assim como para algumas pessoas, o fato de eu ser gay é completamente irrelevante, em outras parece haver uma espécie de fascínio. De fato, algumas pessoas parecem se interessar pelo tema mais do que outras, qual seu caso?

O que será que existe por trás disso? Na minha forma de ver, gays vivem suas vidas de diferentes formas. Existem aqueles que são tranquilos com sua sexualidade e levam sua vida numa boa fora do armário. Existem aqueles que estão no armário, talvez por uma soma de fatores psicossociais mas levam uma vida de mini-fugas para saunas e escurinhos, voltando para o armário logo depois. Alguns deles casaram-se cedo, constituíram família e só depois compreenderam sua sexualidade mais profundamente. Algumas delas são apenas bissexuais que eventualmente se interessariam por transar com pessoas do mesmo sexo, mas como estão tranquilas em seus casamentos e suas famílias, não há muito com que se preocupar. Eventualmente, quando se aproximam de pessoas gays, sentem-se mais fascinadas por elas e tentam descobrir como poderiam ter sido suas vidas, ao constatar que é perfeitamente possível viver feliz independentemente da sexualidade, basta abrir a porta do armário.

Finalmente existem aqueles gays que se odeiam. Famílias machistas têm uma parcela de culpa na construção um processo de autorrejeição, mas mentes fracas e mal informadas também pouco fazem ou conseguem fazer para se aceitar, talvez por não conseguirem enxergar a sexualidade como algo normal. A influência da igreja pode ser muito negativa nessa hora, já que toda a construção da igreja vem de épocas em que a sexualidade era violentamente reprimida.
Enfim, estamos diante de um triste quadro, pois quando essas pessoas se deparam com gays fora do armário, um alarme toca em suas cabeças dizendo "Olha, como esse viado ousa ser tão feliz enquanto eu sou tão fudido? Vai lá e quebra a cara da bicha!"

Então aí está, a homofobia é provavelmente a válvula de escape do gay preso num armário muito dolorido.

Sair do armário

Assumir a homossexualidade pode ser uma coisa tranquila, que a partir de uma simples constatação, passa a valer, ou pode ser um processo que toma a vida inteira da pessoa sem nunca se consumar. Tudo depende de autoaceitação. Aceitar quem você é, é o passo essencial e isso depende de como você construiu sua opinião sobre a sexualidade.
Lembro-me da primeira vez que fui a uma balada gay (na época a palavra era boate). Eu tinha 18 anos e um professor (querido Geraldo) me levou. Foi um alívio inexplicável descobrir que todos aqueles caras dançando e se divertindo vestiam-se como eu, ou seja, o mais casual possível. Com raríssimas exceções, todos ali poderiam ser qualquer um do seu Manuel da padaria, passando pelo borracheiro Zé e indo até o diretor industrial da empresa.

Então eu não precisaria sair por aí de vestidinho vermelho? Ufa! Que alívio! Imaginem o que significou para um rapaz de 18 anos que achava que todos gays eram super afeminados e se depara com uma surpresa dessas... Posteriormente compreendi que (chutando um número) de cada 10 gays, 1 dá pinta, os outros 9 ninguém nem imagina. Com o tempo cheguei a proferir a reprovável frase: "Gay sim, bicha não..."... só mais recentemente que deixei de ser um gay preconceituoso e passei a aceitar a presença de pessoas afeminadas sem torcer a sobrancelha. Veja só... não é tão difícil assim, é só uma questão de respeitar as pessoas como elas são.

Algumas pessoas apenas toleram gays que se comportam dentro da heteronormatividade, e reagem violentamente quando algum movimento mais delicado aparece. Isso é aceitação? Acho que não, pois aceitar o invisível é muito fácil, qualquer pessoa consegue fazer isso. Aceitar a diversidade como realidade é outra história. Vejo algumas pessoas criticando Pablo Vittar, por exemplo. "Afinal ele é o quê?" algumas perguntam. A resposta é Pablo é uma pessoa. Você não é uma pessoa também? Você não considera essencial ser respeitado pelo que você é? Pois é, Pablo também. Pablo está influenciando as crianças e tornarem-se gays? Acho que não, gays saem do forno prontos, assim como não gays vêm para o mundo como tal. Seu filho resolveu brincar de boneca vestido de princesa depois de ver o Pablo dançando? Tudo bem, a criança está se descobrindo, deixe-a experimentar e viver sua fantasia, pois daqui a pouco tudo o que é fantasia nesse seu lindo filho irá morrer e ele será um adulto sem graça, com calça de tergal e gravata como qualquer um de nós.

Pedofilia

Que merda ter de escrever sobre isso, mas vá lá. Apesar de não ter nenhuma relação com a sexualidade, já que pedofilia é uma doença psicológica que consiste na atração sexual por crianças, que pode ser por este ou aquele sexo, muita gente ainda infelizmente insiste em associar este triste e lamentável transtorno psicológico à homossexualidade. De fato não tem nada a ver uma coisa com a outra e muito menos que o fato de a pessoa ser homossexual implique em qualquer possibilidade de ela querer transar com crianças. Realmente essa ideia é um disparate absurdo e completo e tenho certeza que também vem com um recheio sólido de rancor, maldade e preconceito contra os homossexuais.
O infeliz que se descobre pedófilo deve agir para controlar sua doença, tratando-se e fazendo acompanhamento constante para garantir que apesar de sentir-se atraído por crianças, ele não cometerá o crime. Existem inclusive grupos de pedófilos anônimos que suponho, são frequentados por pessoas que convivem com o transtorno e lutam para mantê-lo sob controle.

Respeito

Acho que a base de tudo é o respeito pelas pessoas, independentemente de como elas fazem para gozar.
Todas as pessoas são iguais e todas devem ter os mesmos direitos. Casar, ter família, ir ao parque, à praia, à escola, ao cinema, viajar, enfim... viver.
Gastar energia fiscalizando o cu dos outros é no mínimo doentio para dizer o mínimo. Então, se a homossexualidade é tão fascinante para você, procure descobrir o que está por trás, pesquise, pergunte, informe-se; mas, acima de tudo, respeite.

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Assista sem medo, são bons, alguns maravilhosos filmes sobre o assunto:

Hoje eu quero voltar para casa sozinho
O segredo de Brokeback Mountain
Tomboy
Tudo sobre minha mãe
A garota dinamarquesa
Laerte-se
Clube de compras Dallas
Meninos não choram
Flawless (ninguém é perfeito)
Direito de amar
Transamerica
Minhas mães e meu pai
Plata quemada
Cazuza
Queda livre
Priscila a rainha do deserto

E séries também:
Six feet under
Transparent
Will e Grace
Modern Family
Orange is the new black
Sense 8
Grace and Frankie

E por aí vai. Não esqueça de contar para seus amigos(as)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Sublime Sertão

Sublime sertão

Estive voando de parapente no sertão do Ceará em 1999. Foi a última de uma sequência de três anos quase seguidos voando em Quixadá. Naquela época, as casas não tinham cisternas, os açudes tinham mais água e o mais longo dos voos dificilmente se aproximava muito dos 200 km. Experimentávamos o sertão de uma forma muito breve, apenas raspando em qualquer significância que ele pudesse nos mostrar. Não havia tempo para imersão. Acordávamos tarde, pousávamos cedo e nos dedicávamos a risadas e cerveja. Era como ver um filme, ou folhear um álbum de fotografias.

Mas depois de 17 anos, a experiência de voltar a voar no sertão nordestino me surpreendeu completamente. Constatei o quanto somos pequenos diante da natureza. Veja só, voar sobre florestas cultivadas, plantações, campos floridos, estradas, ruas e cidades nos garante uma importante, embora talvez inconsciente conexão com nossa humanidade. Se o vento arrancar aquelas flores, novas irão nascer ou serão plantadas, se a chuva estragar a estrada, o departamento de trânsito poderá consertar cedo ou tarde e se as cidades forem varridas do mapa, novas cidades serão construídas em seu lugar. Então, diante da segurança de estar tão pertinho daquilo que nós mesmos somos capazes de construir, podemos nos afastar da segurança do chão e olhar tudo de lá de cima com um pé ainda fincado em algum resquício de nossa civilidade, se é que podemos chamar nossa presença na Terra de verdadeira acepção de civilidade, é claro, mas isso é outro assunto para outra hora.

Bem, a minha verdade é que essa segurança se desfez no sertão. Ali, a terra seguiu indiferente a minha presença, implacável em tudo que ela me impõe. Os dezessete anos que passei longe do sertão não significaram absolutamente nada para a paisagem que impera perene, sublime e avassaladora debaixo de mim. As enormes rochas que pontuam um dos mais antigos terrenos da nossa mãe-Terra não tomam conhecimento de minha presença e não será o vento de 30 ou mais quilômetros por hora que farão alguma diferença para elas. Embora seres vivos como eu, os intermináveis juremais lá embaixo renovam-se em sua promessa de eternidade, por mais seca, rígida e impiedosa que a paisagem possa ser.

Longe da segurança da minha pseudo-civilidade, o sertão lá embaixo me cobra atenção dedicada, interesse absoluto em minha própria continuidade. Ele faz isso com total indiferença e sou eu quem tem de lidar com a assustadoramente surpreendente sensação de solidão que me aterroriza apesar dos colegas que voam ao meu redor.

Voar no sertão vai muito além daquilo que estamos acostumados ao fazer nossos simpáticos e divertidos quilômetros sobre estradas marcadas por pneus. Eu poderia comparar com uma travessia de natação a mar aberto. Longe das beiradas das piscinas ou das areias das praias civilizadas com seus salva-vidas com seus apitos e boias.

Adicione a este encontro completamente solitário com você mesmo, um período indebitamente longo de horas a fio, voando e administrando suas decisões. Não vejo como terminar uma longa jornada nessa solidão absoluta sem ter um colega para abraçar ao final. É por isso que encontro no voo do sertão uma importância inadiável sobre voar em equipe. Aqui, insistindo em dividir as térmicas com seus amigos, forçando-se a respeitar suas decisões e empreender pelos seus caminhos, dividimos também uma parcela da enorme responsabilidade que a solidão dos céus do sertão nos impõe. Ao longo de nove ou dez horas de voo, posso em alguns momentos relaxar um pouco, pois sei que alguém está momentaneamente decidindo qual será o próximo passo.

Aprendi várias coisas nestes dias voando em Quixadá e posso dizer que somos apresentados a nós mesmos de uma maneira tão verdadeira que chega a ser maldosa. Estamos pendurados no céu, largados,  deixados praticamente nus, a milhares de metros de distância de qualquer superfície ou objeto e a mínima conexão com algo mais humano que minha selete ou meu variômetro adquire uma preciosidade inédita. Aprendi a lição dos grandes mestres recordistas do sertão e em especial Rafael Saladini a quem devo tantos conhecimentos. Aprendi que no sertão somos literalmente reduzidos a um mero ponto no espaço, incapazes de alterar ou provocar qualquer influência em tudo que nos rodeia. Somos meros, passageiros, curtos e pequenos. Nossa pequenice aumenta ironicamente diante da grandiosidade do sertão, que de tão lindo, e ao mesmo tempo tão assustador, não se importa conosco nem por uma fração de segundo que seja.


Eu, sozinho com meus pensamentos encontro meu caminho nesse mar solitário até o almejado encontro com os resultados que tanto desejo.

Aprendi que o voo em equipe é absolutamente essencial, não apenas pela pura banalidade de voarmos mais longe e batermos nossos recordes, mas por algo que vai muito, muito além: voamos em equipe para não nos distanciar de nossa natureza humana, de nossa própria civilidade. Voamos em equipe porque somos humanos!

A volta para casa é densa e as vezes assustadora. Algumas coisas perdem o sentido ou parte dele, outras adquirem novos sentidos e diante da nossa normalidade e banalidade, tento encontrar um lugar para me encaixar. É uma tarefa difícil, mas essencial, gradual, mas vale a pena.

Pretendo voltar para o sertão, mais consciente do que encontrarei durante aquelas horas pendurado no céu, menos assustado e mais preparado para não apenas enfrentar tudo aquilo outra vez...
...mas voltarei ao sertão principalmente... para voltar para casa.

Sivuca

Sivuca

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Pedal Assistido, como é?

Como é pedalar uma bike com pedal assistido?

Nada como a experiência para nos dar a verdadeira sensação do que significa o pedal assistido.

Fiz um teste drive numa bike com um motor de 250W, equipada com um cassete de 10 marchas, sendo que o maior, tinha 42 dentes, ou seja, bastante reduzido para aguentar as muitas subidas do passeio.

Como foi
Estive na Alemanha em setembro de 2018 para visitar a maior feira de mecânica do mundo, a Automechanika em Frankfurt, depois parti junto com meus sócios e amigos Cesar e Denis, para os alpes até Garmish-Partenkirchen onde alugamos três bikes Cube com motor de 250W. Essas bikes já vêm com o motor incorporado no quadro, mas isso não as difere do kit que adapta o motor numa bike tradicional.

Como se vê nas fotos, o quadro é projetado para disfarçar o volume da bateria, enquanto que o motor mid-drive completa seu desenho dando um lindo acabamento.
Rodando
No lado esquerdo do guidão há uma caixinha com um botão liga-desliga, um botãozinho para caminhada (para empurrar a bike escada acima, por exemplo) e duas teclas muito fáceis de alcançar com os sinais de mais e menos que regulam a potência do motor.

As regulagens vão de OFF, passando por ECO, passeio e Turbo, sendo que cada posição dá um pouco mais de potência no motor.

Coloquei em Turbo, sentei na bike e pisei no pedal que respondeu com um coice silencioso para frente, quase uma possessão demoníaca.. tudo bem, não precisa tanto, mudei para Eco e iniciei o passeio.

Começamos por trilhas planas no asfalto, afinal estávamos no centro de Garmish e queríamos ir até o lago Eibsee que fica aos pés do Zugspitze, a montanha mais alta da alemanha.

Estas bikes atendem a legislação, que proíbe ultrapassar os 25km/h. De cara achei chato, mas quem anda mais rápido que isso de bicicleta? A gente tem uma falsa sensação que vai andar em uma espécie de motocicleta elétrica, não é nada disso, é bike, bicicleta, a magrela sim. Na prática, os 25km/h são uma velocidade ótima para passear rápido, já que sem motor, dificilmente chegamos nessa velocidade a não ser em ladeiras. O caso é que ao ultrapassar os 25, o motor para de fornecer força, então se você quer correr mais, é só pedalar como faria com qualquer bike. A diferença de peso é pouco relevante, já que o conjunto pesa cerca de 5kg a mais, então não é nada que possa arruinar a bike com a bateria arriada, por exemplo.

Naturalmente estes kits permitem que você altere isso no setup, mas aí cai fora da lei, o que não significa que você esteja proibido de beirar os 70 por hora numa estrada de terra (!)

O motor te ajuda quando você pedala, isso significa que se você para de pedalar, a força desaparece e você está só deslizando. Se você pedala mais rápido, o motor entrega mais força. A força que você faz é regulada para o tanto que é necessário para uma bike normal rodar no asfalto plano, tanto no plano quanto na subida quando o motor compensa o ângulo com mais potência.

Isso significa que você não deixa de fazer exercício, apenas soma mais quilômetros à experiência. Quando chegam as ladeiras, vejo que fica mais divertido usar o modo passeio, sendo que em raríssimas ocasiões o Turbo se fez necessário. Considerando que essa bike tem 250W e existem motores comercializados de até 500W, eu diria que nossa versão de 350W já faz a alegria da grande maioria da população de bikers, sendo que o motor de 500W fica reservado para quem tem bike muito pesada, como fat bikes ou para os maluquinhos que pegam muito sério no MTB. Meus sócios, por exemplo, possuem bikes com motor de 1000W, mas são uns meninos completamente fora da curva, especialistas em estripulias pelas trilhas mais monstras de montanhas e Mairporã e Atibaia. Um simples mortal como eu, certamente não ficaria triste a humildes, mas eficiente versão de 350W para subir todas as ladeiras de Sampa dando risada de quem fica para trás.
Aliás, em vários momentos, cruzei com casais de velhinhos usando essas bikes no mesmo cenário. Imagine sua avó de 70 anos de idade subindo ladeira de bike com as compras do mercado no cestinho... entende o que quero dizer?  Estamos falando de INCLUSÃO.

Ao final, eu olhava para a bike e pensava: Gézuz! que maravilha é isso!! Afinal foram 43 quilômetros rodados, com 750 metros de desnível em cerca de 5 horas de passeio, tendo gastado apenas 50% da bateria de 500Wh. Eu tenho 53 anos de idade e não sou nenhum atleta, apesar de pilotar parapentes e praticar CrossFit.

Agora eu pergunto, o que é que você está esperando?

Veja no vídeo abaixo, como foi o passeio capturado pelo aplicativo 



​Aproveite para conferir o site da ipedal que traz os kits Bafang Mid Drive para nosso promissor país. 
Sivuca

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Tentando entender as emoções humanas e suas escolhas...




No final dos anos 30, o povo alemão estava sofrendo. O pós 1ª guerra era um tempo de miséria e a promessa de progresso e dias melhores colocou Adolf Hitler no poder. Junto com a ideia de colocar ordem na casa, Hitler culpou os judeus por tudo que tinha dado errado na Alemanha. Aquilo foi perfeito! Todos tinham a quem culpar, afinal é muito mais fácil quando a culpa não é nossa.

Hoje o alemão médio ainda tem dificuldade em conviver com a vergonha do que aconteceu naquele tempo, tanto que ainda há quem negue tudo aquilo e pior, quem ainda ache que o que ele fez com o povo judeu não foi tão relevante assim.

Em uma entrevista recente com Yuval Harari, que é autor da dobradinha imperdível de livros: Homo Sapiens e Homo Deus, ele disse mais ou menos a seguinte frase: "Você não consegue convencer as multidões apelando para a inteligência. Isso só funciona se você apela para a emoção, pois é assim que é o homem, governado pelas emoções."


Eu me lembro de ter me arrepiado de emoção por um político, uma única vez em minha vida, foi em 1989, quando eu e você elegemos Fernando Collor presidente e ele fez aquele discurso de posse. Ah, aquilo foi muito emocionante, lembro daquele dia até hoje, como o dia em que tive a sensação que o Brasil passaria a ser um país melhor. Não lembro se de fato eu votei nele, nem lembro contra quem ele concorria, mas lembro que se tivesse de votar naquela era, o nome seria Collor. Claro que naquela época eu era outra pessoa, talvez mais emotivo que hoje, mas posso também estar enganado.


Gurdjieff, que foi um filósofo do autoconhecimento e viveu no início do século passado, dizia que o homem dotado de consciência ou livre arbítrio é algo raro. Ele fazia uma analogia muito interessante com a figura simbólica de uma carruagem. Esta é o corpo físico, sendo que os cavalos são nossas emoções. O cocheiro por sua vez, é nossa mente e lá dentro da carruagem está o passageiro, que é nosso EU interior. Acontece que tudo está dissociado, o cocheiro, nas raras vezes que é capaz de escutar os gritos do passageiro, não consegue transmitir estas ordens aos cavalos que correm motivados por tudo aquilo que lhes chama a atenção, sejam os odores das éguas, dos queijos ou a simples delícia de correr pelas estradas como bons cavalos sabem fazer. Ainda por cima a carruagem não está lá em grandes condições o que invariavelmente termina com a morte (do passageiro) nalgum precipício não muito distante.

É fácil numerar atos e decisões que tomamos (e depois nos arrependemos) que foram motivadas por nossa emoções. Acontece que as emoções parecem agir mais rapidamente do que nosso intelecto. Um exemplo: você recebe uma notícia preocupante. Antes de formular qualquer pensamento e tomar qualquer decisão, você sente um arrepio percorrendo seu corpo. Seu corpo já agiu antes de qualquer coisa. Só depois de alguns segundos é que você decidirá o que fazer. Muitas vezes, a decisão se baseará exclusivamente nas emoções que você sentiu, sendo que muitas vezes também, você considera que agiu impensadamente movido por suas emoções. Esse tipo de justificativa costuma inclusive ser bastante usada na delegacia, não é verdade?

As vezes é difícil distinguir quando tomamos uma decisão motivados pelas emoções de outras motivadas por reflexão cognitiva, afinal basta algum grau de deficiência de empatia para tomarmos nosso ponto de vista como certo se olhar ao redor.

Acho que não é muito difícil entender por que muitas pessoas estão encontrando no Bolsonaro, uma possibilidade. Por mais incoerente, limitado, preconceituoso, racista, homofóbico, fascista, machista, misógino, xenófobo, pró golpe militar, grosseiro, extremista de direita, péssimo parlamentar, contra direitos humanos, contra índios, pró tortura... enfim... é uma pena que para muitas pessoas isso parece pouco relevante.

O Jair consegue tocar nos corações de muitas pessoas. Ainda bem que ainda dá tempo de pensar e escolher...


quarta-feira, 18 de julho de 2018

A entrega do voo em equipe


A entrega do voo em equipe

Os recordistas mundiais de voo em parapente, Fleury, Cecéu, Frank Brown, Samuca, Saladini, Bigode... têm uma receita que eles construíram e que invariavelmente dá certo para se conseguir conquistar um voo incrível:
A receita é voar em equipe.

Ah tá... lá vem o Sivuca outra vez com essa conversa... eu já faço isso, diz o Joãozinho. Será?
Nos últimos anos tenho nas raras oportunidades que arrumo para voar, experimentado me esforçar ao máximo para conseguir voar junto com outro(s) piloto(s), juntos de verdade. Mas tenho encontrado uma impressionante dificuldade em fazer isso acontecer. Eu tive a honra de ter sido convidado pelos cariocas da equipe Guaratiba Fly para voar com eles e temos feito algumas experiências formidáveis juntos.

Mesmo assim, depois de algum tempo, olho ao redor e posso concluir que são poucas as pessoas que realmente praticam o voo em equipe de forma completa, sendo que uma parte sequer sabe como funciona e uma outra simplesmente não consegue aderir às pequenas e simples regras que são essenciais para que o voo em equipe aconteça.

Contando para vocês o que aprendi com Rafael Saladini, mesmo que, lamentavelmente sem nunca ter tido o privilégio de voar junto com ele, gostaria de chamar a atenção dos pilotos para algumas vantagens que fazem do voo em equipe, na minha forma de ver, muito mais que uma evolução de nosso esporte, mas uma necessidade essencial para quem quer voar mais tempo e mais longe.
Vou contar o que acontece comigo e suponho que seja o que possivelmente terminará acontecendo com muitos de vocês.

Eu voo de parapente há 28 anos, já tenho 52 anos de idade, voo com equipamento CCC até hoje porque é onde me sinto mais confortável, ao menos por enquanto. Quando vou voar, sinto uma necessidade muito grande de me concentrar no exclusivamente no voo, fazendo um esforço especial para dirigir todas as energias para um voo seguro e de alto rendimento. A verdade é que nosso esporte é muito perigoso e o nível de risco é muito alto, por isso considero que temos de tomar muito cuidado para que o ato de voar nunca se transforme numa coisa banal, onde você vai lá apenas por ir, porque não tem outra coisa para fazer ou porque não está a fim de ficar lavando o carro no sábado. Para reduzir o nível de risco, transformo minhas excursões de voo num ritual, voltado inteiramente para o ato de voar. É por isso que hoje em dia você quase nunca me encontra em uma rampa para apenas “um voozinho”.

Levando isso em conta, percebo que a energia gasta em um voo é bastante alta, onde um voo de cinco, seis, ou mais horas, pode ser tão cansativo quanto insustentável. Provavelmente você não verá mais o Sivuca fazendo grandes voos sozinho simplesmente porque eu acho muito chato e cansativo ficar sozinho com toda aquela imensidão ao meu redor e ter de tomar todas aquelas decisões por tanto tempo sem descanso. Quando eu consigo dividir isso tudo com outra pessoa, passo para outro estado, encontro novas motivações e me sinto preparado para enfrentar voos enormes, como os que fiz em Quixadá com cerca de 10 horas de duração. O que acontece é que durante um voo em equipe, as várias tarefas que você tem de dar conta quando está voando sozinho se dividem entre os membros do grupo.

Então, posso listar algumas tarefas que somos obrigados a assumir na íntegra, durante o voo inteiro, quando fazemos voos longos e que podemos ao menos durante vários momentos, dividir entre os membros do grupo:

1.       Fazer contato com o resgate pelo rádio.
2.       Manter-se atualizado sobre dados de planeio, distâncias, rotas, velocidades e direção do vento, estradas e locais de pouso. (sempre tem um nerd que adora isso)
3.       Escolha de mini-rotas (vou pra baixo daquela nuvem ou pra cima daquela cordilheira?).
4.       Lembrar dos horários de hidratação, alimentação e necessidades (xixi).
5.       Triangular a próxima térmica.
6.       Encontrar um núcleo mais favorável na térmica atual.

Ninguém vai fazer xixi por você, mas muita gente se esquece de beber água, se alimentar e fazer xixi. Ter alguém para te lembrar disso durante o voo, assim como poder deixar a decisão da mini-rota daquele momento para outro piloto ou ficar falando com o resgate no rádio, é uma forma de relaxar um pouco a tensão. Isso tem um efeito muito importante, especialmente se levarmos em conta que várias vezes eu estava muito cansado e pronto para me preparar para o pouso quando um colega do grupo localizou uma nova ascendente e lá fomos nós para a base outra vez. Enquanto no dia anterior fizemos juntos um voo fantástico com um quase triângulo FAI de 150km, o meu penúltimo voo foi feito sozinho. Meu companheiro de voo, o André Abrantes fez uma saída ruim e terminou na frente da rampa e eu, sozinho. Tentei sinalizar e “arrastar” alguns colegas que cruzei pelo caminho, mas ninguém atendeu meus apelos, então resolvi pegar pesado e acelerar o voo para relembrar os tempos de competição. Duas horas e meia depois eu estava pousado cansadíssimo, com 110km voados. Poderia ter voado muito mais, ainda havia no mínimo três horas de voo, o que significa que naquele dia eu poderia ter voado mais de 200km... mas onde estava a disposição para fazer isto sozinho? (Pausa para rir do Sivuca dizendo que quase fez um voo de 200km quando fez só 110..).

No voo que fiz na companhia do Grandão e do Fabrício em Quixadá a dois anos, fizemos 300km. No quilômetro 200 eu não aguentava mais, não estava mais com saco de procurar térmica, queria pousar... Grandão achou uma termal e lá fomos nós para a base novamente. Esse cenário se repete com frequência, não é fácil ficar horas e horas pendurado no parapente e ainda tendo que decidir e administrar um monte de coisas simultaneamente. Quando podemos relaxar um pouco e deixar alguém decidir para qual nuvem iremos, ajuda bastante.

É nessa hora que o Joãozinho me pergunta: É, mas e se o cara decidir a nuvem errada? E eu respondo: Joãozinho, você nunca decidiu ir para nuvem errada? Quem disse que suas decisões são sempre certas? Esta é a questão que provavelmente impede algumas pessoas de aceitar o voo em equipe, temos uma opinião muito alta a respeito de nós mesmos, custa-nos a crer que outra pessoa poderia ser capaz de tomar decisões tão acertadas quanto as nossas e daí somos levados a não confiar nos outros pilotos e terminamos voando sozinhos. Triste não é? Até que ponto isso é uma verdade para muitos de nós?

Veja só, existe uma regra essencial para o funcionamento do voo em equipe que é: Quando se aproxima o momento de sair de uma térmica (porque está ficando fraca, ou porque o grupo tem pressa), quem sai primeiro é quem está mais baixo. E Joãozinho desesperado levanta a mão: Mais baixo tio? Então estou me fodendo pra subir, todos estão 100m mais alto que eu e eu é quem tem que sair procurando térmica? Isso mesmo, Joãozinho, você sai e todos saem atrás (e mais alto) que você para te ajudar. Se não for assim, ou seja, se todos esperam quem está mais alto sair, o grupo se fragmenta. Imagine o grupo como um ser alado, uma Quimera voadora onde cada parapente é um membro do corpo da Quimera. Se a Quimera perde um braço, pode morrer... a Quimera precisa manter sua forma para poder voar. Inteira, ela é muito mais eficiente simplesmente porque ela é muito maior e muito mais capaz de encontrar o melhor núcleo da termal, além de ter uma capacidade maior de encontrar a próxima termal, simplesmente devido ao seu tamanho. 

Se voarmos pensando que não podemos nos distanciar do colega, conseguiremos manter a forma da Quimera e ela conseguirá voar mais longe, durante mais tempo. A Quimera abre suas asas ao máximo para fazer a tirada e isso significa que os pilotos voam lado a lado, sempre evitando alinhar em fila com o companheiro da frente. É preciso abrir as asas para cobrir mais espaço, isso facilita muito encontrar a próxima térmica. Ora, se um parapente tem 11m de envergadura, dois parapentes conseguem cobrir no mínimo 30 metros facilmente... o que três parapentes podem fazer, chega a ser covardia.

Enquanto você não pode estar em dois ou três lugares ao mesmo tempo, dois ou três parapentes na mesma térmica conseguem triangular o melhor núcleo com uma eficiência muito superior. Noutro dia, um colega que tentamos trazer para a equipe e não conseguiu passar da primeira térmica alegou que voamos muito baixo. Achei aquilo muito divertido de escutar e até brinquei com ele comparando com o adolescente que fez uma campanha enorme para que seus pais permitissem que ele fosse a uma festa com os colegas à noite e na última hora ele desistiu porque sua calça preferida estava lavando.
Então o voo em equipe é uma verdadeira entrega, em muitos momentos você deixa de fazer aquilo que acreditava para fazer aquilo que o outro acreditou. Isso é uma coisa muito dura para muita gente e volto a afirmar, especialmente aquelas que não são capazes de acreditar que existe alguém na face da terra capaz de tomar decisões tão acertadas quanto elas mesmas. O André Wolf me disse que se para nós parapentelhos, voar em equipe é uma coisa difícil de fazer, para os voadores de asa é ainda mais complicado, pois eles são muito mais antigos no voo e consequentemente carregam uma carga cultural de voo individual muito mais poderosa que nós... vamos então aproveitar nossa posição de vantagem e fazer algo mais bacana, galera?

Voo em equipe não requer parapentes de altíssimo desempenho, nem instrumentos tecnológicos de ponta, a única coisa é que o grupo tenha mais ou menos o mesmo nível técnico e voe parapentes mais ou menos parecidos. Então é perfeitamente possível você ter um ano e meio de voo e juntar-se com dois ou três de seus amigos voando parapente B e conseguirem fazer um voo espetacularmente melhor do que você seria capaz de fazer sozinho.

Ah, Sivuca, você está sendo irônico, pois basicamente você afirma que o voo em equipe não acontece porque as pessoas são arrogantes, não é bem assim.

É mesmo, Joãozinho? Então me explique por que o voo em equipe não acontece.

E Joãozinho me olhou em silêncio...


Sivuca

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Chamaram-me de arrogante, e agora?


Chamaram-me de arrogante, e agora?

Análise e síntese de um mal que atrapalha a vida de alguns professores, instrutores, coaches e afins.

Metido a besta, filha da puta, imbecil... e outros adjetivos podem também ter sido utilizados, ou simplesmente um “depois falamos sobre isso”... mas tudo significa a mesma coisa. Se de alguma forma isto teve alguma importância para você, então já pode ficar tranquilo, você ainda pode ser salvo! Não por Shiva, Buda ou Jesus, mas por suas próprias ações e atenções.

Análise


A arrogância é um mal que assola uma parcela bastante expressiva de pessoas, especialmente aquelas que de alguma forma aprenderam ou estão em processo de aprendizado de alguma faculdade física ou mental. Estas últimas são as maiores vítimas, pois aquelas que realmente já se tornaram verdadeiros mestres, normalmente já passaram pelo estágio de ajustes dos níveis de arrogância pessoal, embora isso não seja uma regra, afinal é possível se encaixar no ditado que meu velho pai nunca deixava de mencionar entre seus ensinamentos “Quanto mais cresce, mais burro fica...”
Percebo que o ápice dos sintomas acontece durante a fase básica ou intermediária, quando o arrogante clássico já conseguiu sua carteirinha nível 1 ou “aprendiz-de-coach” ou algo parecido. Não se espante com eventuais pontuações de ironia, isso faz parte do “processo educacional”.
Nessa fase, o Joãozinho (vamos dar um nome pra ele, né? Fica mais fácil assim) já sabe um monte, já ganhou seus trofeuzinhos, já tem sua carteirinha e já pode tomar conta de um grupinho de alunos. Nessa hora Joãozinho olha em volta e identifica os alunos que se encaixam no seu perfil. Estes são o solo mais fértil para seu progresso, afinal toda a sua dedicação lhe rendeu benefícios justamente por ele ter vivido uma vida assim: dedicado, esforçado, apaixonado e por que não dizer, fanático de carteirinha pela sua atividade. Então os alunos escolhidos são a chance mais visível de deixar claro o quanto Joãozinho domina seus conhecimentos e é a eles que Joãozinho dedica-se com amor e com todos os ingredientes que fizeram dele, o que ele é hoje. Os mesmos ingredientes que trouxeram Joãozinho, até o pedestal que hoje ele ocupa.

Mas... existem os outros... e agora olhando com “olhos de Joãozinho”, os displicentes, os pegadores de bonde-andando, os curiosos, os desinteressados. Todos aqueles outros alunos que “claramente” não demonstram o mesmo amor pela atividade. Alguns desses inclusive, parece que estão na verdade, invejosos das conquistas de Joãozinho e preparados para fazer o que for possível, para derrubá-los de sua merecida e arduamente conquistada posição.

Esta análise é bastante peculiar porque ela pode parecer uma visão muito equivocada da realidade, não é mesmo? Mas é justamente por isto que ela existe. Cada indivíduo tem uma visão diferente da realidade. Cada pessoa tem suas prioridades e constrói sua forma de ver e vivenciar cada experiência. É claro que existe um mínimo, não se pode contar com um aluno de voo livre, por exemplo, que compareça às aulas uma vez por mês, ou com um iniciante de Crossfit que acredite que em duas semanas conseguirá levantar um peso maior que o dele. A verdade é que Joãozinho, tem bastante experiência na atividade. Conhece os meandros técnicos e teóricos como poucos, além de contar com uma habilidade muito diferenciada, fruto evidente de toda sua suada dedicação.
 Na mente de Joãozinho, aqueles alunos “ruins” representam um perigo, um risco de colocar todo um longo processo a perder, pior que isso, um questionamento da possível fragilidade de algo que foi construído no mais sólido dos alicerces. Afinal quem estes alunicos acham que são?
 
Mas, o que é difícil para o Joãozinho enxergar e aceitar, é que sua pouca experiência com seres humanos ainda é flagrante se comparada à de um “mestre de mil almas”, aquele mestre capaz de desentortar galhos, polir pedaços de carvão até que brilhem, fazer concreto nadar borboleta, lançar arames retorcidos para o voo. Joãozinho está então diante de um momento complicado, pois chegou no momento exato em que aparentemente ele poderia relaxar um pouco mais diante do término de um longo processo; e de um momento para outro ele se vê em um terreno inóspito onde tudo aquilo que ele aprendeu, tem pouca ou nenhuma relevância... Sim, acabei de dizer pouca ou nenhuma relevância, porque esta é a dura realidade. A atividade em si não é a chave da compreensão dos meandros das motivações humanas, mas pode sim tornar-se um elemento essencialíssimo no sentido de que é através da atividade, que Joãozinho torna-se capaz de agregar os indivíduos que serão ingredientes inadiáveis para que seu processo interno de estudo e compreensão destas motivações possa ser gerenciado com sucesso.
Síntese

Diante da irrevogabilidade do convívio com estes “seres”, Joãozinho precisa então urgentemente, assumir uma forma de intermediador de universos. De um lado, o universo da atividade, com todas suas complexidades, segredos, manhas, tempos e métodos. De outro, o universo do aluno aprendiz com sua sede, sua pressa, sua volubilidade, seu interesse discutível, sua desconfiança e até mesmo, sua arrogância inerente. Joãozinho está a um passo de se tornar um verdadeiro instrutor, um verdadeiro coach, um mestre de verdade. Joãozinho conseguirá isto quando incorporar a função de veículo facilitador, capaz de interpretar a complexidade da atividade, traduzindo-a no idioma do leigo e sendo capaz de através de um processo coerente de aprendizado de tarefas intermediárias, conduzir seu aprendiz até as profundidades do core da atividade.

A linguagem é a chave, a empatia é essencial. Aproximar-se da língua do aluno significa que é preciso eliminar qualquer possibilidade que paire no horizonte e signifique que o aluno precisa subir em algum degrau para conseguir fechar um canal de comunicação com o instrutor, ou seja, o instrutor deve literalmente descer das tamancas... vestir a sandaliazinha da humildade do Vesgo e traduzir em as complexidades do vernáculo da atividade em língua de aluno. Isto começa com o bom dia, o aperto de mãos, o sorriso, o carinho, a impressão (mesmo que seja só isso) que Joãozinho demonstra algum tipo de interesse pela vida de seu aluno. Pode parecer impressionante, mas Joãozinho as vezes não consegue esconder sua falta de interesse nas vidinhas terrenas de seus alunos e isto é um problema grave, pois esse desinteresse flagrante se transforma em um muro eventualmente intransponível entre o aluno e o instrutor.

Joãozinho perde o aluno, este posta críticas ácidas nas redes sociais e as vezes dá até briga no estacionamento. Que feio, não é mesmo?

É duro pensar que cabe ao instrutor a tarefa de garantir esta aproximação e que Joãozinho é na maior parte das vezes, o único responsável pela dissidência de alunos em sua academia, sua escola, seu meio social. É claro que haverá seres irremediáveis nos meandros do processo, afinal nada na vida é 100%, mas todos devemos estar preparados para frustrações e principalmente, para utiliza-las como degraus de aprendizado para evitar repetições no futuro.