quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Tentando entender as emoções humanas e suas escolhas...




No final dos anos 30, o povo alemão estava sofrendo. O pós 1ª guerra era um tempo de miséria e a promessa de progresso e dias melhores colocou Adolf Hitler no poder. Junto com a ideia de colocar ordem na casa, Hitler culpou os judeus por tudo que tinha dado errado na Alemanha. Aquilo foi perfeito! Todos tinham a quem culpar, afinal é muito mais fácil quando a culpa não é nossa.

Hoje o alemão médio ainda tem dificuldade em conviver com a vergonha do que aconteceu naquele tempo, tanto que ainda há quem negue tudo aquilo e pior, quem ainda ache que o que ele fez com o povo judeu não foi tão relevante assim.

Em uma entrevista recente com Yuval Harari, que é autor da dobradinha imperdível de livros: Homo Sapiens e Homo Deus, ele disse mais ou menos a seguinte frase: "Você não consegue convencer as multidões apelando para a inteligência. Isso só funciona se você apela para a emoção, pois é assim que é o homem, governado pelas emoções."


Eu me lembro de ter me arrepiado de emoção por um político, uma única vez em minha vida, foi em 1989, quando eu e você elegemos Fernando Collor presidente e ele fez aquele discurso de posse. Ah, aquilo foi muito emocionante, lembro daquele dia até hoje, como o dia em que tive a sensação que o Brasil passaria a ser um país melhor. Não lembro se de fato eu votei nele, nem lembro contra quem ele concorria, mas lembro que se tivesse de votar naquela era, o nome seria Collor. Claro que naquela época eu era outra pessoa, talvez mais emotivo que hoje, mas posso também estar enganado.


Gurdjieff, que foi um filósofo do autoconhecimento e viveu no início do século passado, dizia que o homem dotado de consciência ou livre arbítrio é algo raro. Ele fazia uma analogia muito interessante com a figura simbólica de uma carruagem. Esta é o corpo físico, sendo que os cavalos são nossas emoções. O cocheiro por sua vez, é nossa mente e lá dentro da carruagem está o passageiro, que é nosso EU interior. Acontece que tudo está dissociado, o cocheiro, nas raras vezes que é capaz de escutar os gritos do passageiro, não consegue transmitir estas ordens aos cavalos que correm motivados por tudo aquilo que lhes chama a atenção, sejam os odores das éguas, dos queijos ou a simples delícia de correr pelas estradas como bons cavalos sabem fazer. Ainda por cima a carruagem não está lá em grandes condições o que invariavelmente termina com a morte (do passageiro) nalgum precipício não muito distante.

É fácil numerar atos e decisões que tomamos (e depois nos arrependemos) que foram motivadas por nossa emoções. Acontece que as emoções parecem agir mais rapidamente do que nosso intelecto. Um exemplo: você recebe uma notícia preocupante. Antes de formular qualquer pensamento e tomar qualquer decisão, você sente um arrepio percorrendo seu corpo. Seu corpo já agiu antes de qualquer coisa. Só depois de alguns segundos é que você decidirá o que fazer. Muitas vezes, a decisão se baseará exclusivamente nas emoções que você sentiu, sendo que muitas vezes também, você considera que agiu impensadamente movido por suas emoções. Esse tipo de justificativa costuma inclusive ser bastante usada na delegacia, não é verdade?

As vezes é difícil distinguir quando tomamos uma decisão motivados pelas emoções de outras motivadas por reflexão cognitiva, afinal basta algum grau de deficiência de empatia para tomarmos nosso ponto de vista como certo se olhar ao redor.

Acho que não é muito difícil entender por que muitas pessoas estão encontrando no Bolsonaro, uma possibilidade. Por mais incoerente, limitado, preconceituoso, racista, homofóbico, fascista, machista, misógino, xenófobo, pró golpe militar, grosseiro, extremista de direita, péssimo parlamentar, contra direitos humanos, contra índios, pró tortura... enfim... é uma pena que para muitas pessoas isso parece pouco relevante.

O Jair consegue tocar nos corações de muitas pessoas. Ainda bem que ainda dá tempo de pensar e escolher...


quarta-feira, 18 de julho de 2018

A entrega do voo em equipe


A entrega do voo em equipe

Os recordistas mundiais de voo em parapente, Fleury, Cecéu, Frank Brown, Samuca, Saladini, Bigode... têm uma receita que eles construíram e que invariavelmente dá certo para se conseguir conquistar um voo incrível:
A receita é voar em equipe.

Ah tá... lá vem o Sivuca outra vez com essa conversa... eu já faço isso, diz o Joãozinho. Será?
Nos últimos anos tenho nas raras oportunidades que arrumo para voar, experimentado me esforçar ao máximo para conseguir voar junto com outro(s) piloto(s), juntos de verdade. Mas tenho encontrado uma impressionante dificuldade em fazer isso acontecer. Eu tive a honra de ter sido convidado pelos cariocas da equipe Guaratiba Fly para voar com eles e temos feito algumas experiências formidáveis juntos.

Mesmo assim, depois de algum tempo, olho ao redor e posso concluir que são poucas as pessoas que realmente praticam o voo em equipe de forma completa, sendo que uma parte sequer sabe como funciona e uma outra simplesmente não consegue aderir às pequenas e simples regras que são essenciais para que o voo em equipe aconteça.

Contando para vocês o que aprendi com Rafael Saladini, mesmo que, lamentavelmente sem nunca ter tido o privilégio de voar junto com ele, gostaria de chamar a atenção dos pilotos para algumas vantagens que fazem do voo em equipe, na minha forma de ver, muito mais que uma evolução de nosso esporte, mas uma necessidade essencial para quem quer voar mais tempo e mais longe.
Vou contar o que acontece comigo e suponho que seja o que possivelmente terminará acontecendo com muitos de vocês.

Eu voo de parapente há 28 anos, já tenho 52 anos de idade, voo com equipamento CCC até hoje porque é onde me sinto mais confortável, ao menos por enquanto. Quando vou voar, sinto uma necessidade muito grande de me concentrar no exclusivamente no voo, fazendo um esforço especial para dirigir todas as energias para um voo seguro e de alto rendimento. A verdade é que nosso esporte é muito perigoso e o nível de risco é muito alto, por isso considero que temos de tomar muito cuidado para que o ato de voar nunca se transforme numa coisa banal, onde você vai lá apenas por ir, porque não tem outra coisa para fazer ou porque não está a fim de ficar lavando o carro no sábado. Para reduzir o nível de risco, transformo minhas excursões de voo num ritual, voltado inteiramente para o ato de voar. É por isso que hoje em dia você quase nunca me encontra em uma rampa para apenas “um voozinho”.

Levando isso em conta, percebo que a energia gasta em um voo é bastante alta, onde um voo de cinco, seis, ou mais horas, pode ser tão cansativo quanto insustentável. Provavelmente você não verá mais o Sivuca fazendo grandes voos sozinho simplesmente porque eu acho muito chato e cansativo ficar sozinho com toda aquela imensidão ao meu redor e ter de tomar todas aquelas decisões por tanto tempo sem descanso. Quando eu consigo dividir isso tudo com outra pessoa, passo para outro estado, encontro novas motivações e me sinto preparado para enfrentar voos enormes, como os que fiz em Quixadá com cerca de 10 horas de duração. O que acontece é que durante um voo em equipe, as várias tarefas que você tem de dar conta quando está voando sozinho se dividem entre os membros do grupo.

Então, posso listar algumas tarefas que somos obrigados a assumir na íntegra, durante o voo inteiro, quando fazemos voos longos e que podemos ao menos durante vários momentos, dividir entre os membros do grupo:

1.       Fazer contato com o resgate pelo rádio.
2.       Manter-se atualizado sobre dados de planeio, distâncias, rotas, velocidades e direção do vento, estradas e locais de pouso. (sempre tem um nerd que adora isso)
3.       Escolha de mini-rotas (vou pra baixo daquela nuvem ou pra cima daquela cordilheira?).
4.       Lembrar dos horários de hidratação, alimentação e necessidades (xixi).
5.       Triangular a próxima térmica.
6.       Encontrar um núcleo mais favorável na térmica atual.

Ninguém vai fazer xixi por você, mas muita gente se esquece de beber água, se alimentar e fazer xixi. Ter alguém para te lembrar disso durante o voo, assim como poder deixar a decisão da mini-rota daquele momento para outro piloto ou ficar falando com o resgate no rádio, é uma forma de relaxar um pouco a tensão. Isso tem um efeito muito importante, especialmente se levarmos em conta que várias vezes eu estava muito cansado e pronto para me preparar para o pouso quando um colega do grupo localizou uma nova ascendente e lá fomos nós para a base outra vez. Enquanto no dia anterior fizemos juntos um voo fantástico com um quase triângulo FAI de 150km, o meu penúltimo voo foi feito sozinho. Meu companheiro de voo, o André Abrantes fez uma saída ruim e terminou na frente da rampa e eu, sozinho. Tentei sinalizar e “arrastar” alguns colegas que cruzei pelo caminho, mas ninguém atendeu meus apelos, então resolvi pegar pesado e acelerar o voo para relembrar os tempos de competição. Duas horas e meia depois eu estava pousado cansadíssimo, com 110km voados. Poderia ter voado muito mais, ainda havia no mínimo três horas de voo, o que significa que naquele dia eu poderia ter voado mais de 200km... mas onde estava a disposição para fazer isto sozinho? (Pausa para rir do Sivuca dizendo que quase fez um voo de 200km quando fez só 110..).

No voo que fiz na companhia do Grandão e do Fabrício em Quixadá a dois anos, fizemos 300km. No quilômetro 200 eu não aguentava mais, não estava mais com saco de procurar térmica, queria pousar... Grandão achou uma termal e lá fomos nós para a base novamente. Esse cenário se repete com frequência, não é fácil ficar horas e horas pendurado no parapente e ainda tendo que decidir e administrar um monte de coisas simultaneamente. Quando podemos relaxar um pouco e deixar alguém decidir para qual nuvem iremos, ajuda bastante.

É nessa hora que o Joãozinho me pergunta: É, mas e se o cara decidir a nuvem errada? E eu respondo: Joãozinho, você nunca decidiu ir para nuvem errada? Quem disse que suas decisões são sempre certas? Esta é a questão que provavelmente impede algumas pessoas de aceitar o voo em equipe, temos uma opinião muito alta a respeito de nós mesmos, custa-nos a crer que outra pessoa poderia ser capaz de tomar decisões tão acertadas quanto as nossas e daí somos levados a não confiar nos outros pilotos e terminamos voando sozinhos. Triste não é? Até que ponto isso é uma verdade para muitos de nós?

Veja só, existe uma regra essencial para o funcionamento do voo em equipe que é: Quando se aproxima o momento de sair de uma térmica (porque está ficando fraca, ou porque o grupo tem pressa), quem sai primeiro é quem está mais baixo. E Joãozinho desesperado levanta a mão: Mais baixo tio? Então estou me fodendo pra subir, todos estão 100m mais alto que eu e eu é quem tem que sair procurando térmica? Isso mesmo, Joãozinho, você sai e todos saem atrás (e mais alto) que você para te ajudar. Se não for assim, ou seja, se todos esperam quem está mais alto sair, o grupo se fragmenta. Imagine o grupo como um ser alado, uma Quimera voadora onde cada parapente é um membro do corpo da Quimera. Se a Quimera perde um braço, pode morrer... a Quimera precisa manter sua forma para poder voar. Inteira, ela é muito mais eficiente simplesmente porque ela é muito maior e muito mais capaz de encontrar o melhor núcleo da termal, além de ter uma capacidade maior de encontrar a próxima termal, simplesmente devido ao seu tamanho. 

Se voarmos pensando que não podemos nos distanciar do colega, conseguiremos manter a forma da Quimera e ela conseguirá voar mais longe, durante mais tempo. A Quimera abre suas asas ao máximo para fazer a tirada e isso significa que os pilotos voam lado a lado, sempre evitando alinhar em fila com o companheiro da frente. É preciso abrir as asas para cobrir mais espaço, isso facilita muito encontrar a próxima térmica. Ora, se um parapente tem 11m de envergadura, dois parapentes conseguem cobrir no mínimo 30 metros facilmente... o que três parapentes podem fazer, chega a ser covardia.

Enquanto você não pode estar em dois ou três lugares ao mesmo tempo, dois ou três parapentes na mesma térmica conseguem triangular o melhor núcleo com uma eficiência muito superior. Noutro dia, um colega que tentamos trazer para a equipe e não conseguiu passar da primeira térmica alegou que voamos muito baixo. Achei aquilo muito divertido de escutar e até brinquei com ele comparando com o adolescente que fez uma campanha enorme para que seus pais permitissem que ele fosse a uma festa com os colegas à noite e na última hora ele desistiu porque sua calça preferida estava lavando.
Então o voo em equipe é uma verdadeira entrega, em muitos momentos você deixa de fazer aquilo que acreditava para fazer aquilo que o outro acreditou. Isso é uma coisa muito dura para muita gente e volto a afirmar, especialmente aquelas que não são capazes de acreditar que existe alguém na face da terra capaz de tomar decisões tão acertadas quanto elas mesmas. O André Wolf me disse que se para nós parapentelhos, voar em equipe é uma coisa difícil de fazer, para os voadores de asa é ainda mais complicado, pois eles são muito mais antigos no voo e consequentemente carregam uma carga cultural de voo individual muito mais poderosa que nós... vamos então aproveitar nossa posição de vantagem e fazer algo mais bacana, galera?

Voo em equipe não requer parapentes de altíssimo desempenho, nem instrumentos tecnológicos de ponta, a única coisa é que o grupo tenha mais ou menos o mesmo nível técnico e voe parapentes mais ou menos parecidos. Então é perfeitamente possível você ter um ano e meio de voo e juntar-se com dois ou três de seus amigos voando parapente B e conseguirem fazer um voo espetacularmente melhor do que você seria capaz de fazer sozinho.

Ah, Sivuca, você está sendo irônico, pois basicamente você afirma que o voo em equipe não acontece porque as pessoas são arrogantes, não é bem assim.

É mesmo, Joãozinho? Então me explique por que o voo em equipe não acontece.

E Joãozinho me olhou em silêncio...


Sivuca

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Chamaram-me de arrogante, e agora?


Chamaram-me de arrogante, e agora?

Análise e síntese de um mal que atrapalha a vida de alguns professores, instrutores, coaches e afins.

Metido a besta, filha da puta, imbecil... e outros adjetivos podem também ter sido utilizados, ou simplesmente um “depois falamos sobre isso”... mas tudo significa a mesma coisa. Se de alguma forma isto teve alguma importância para você, então já pode ficar tranquilo, você ainda pode ser salvo! Não por Shiva, Buda ou Jesus, mas por suas próprias ações e atenções.

Análise


A arrogância é um mal que assola uma parcela bastante expressiva de pessoas, especialmente aquelas que de alguma forma aprenderam ou estão em processo de aprendizado de alguma faculdade física ou mental. Estas últimas são as maiores vítimas, pois aquelas que realmente já se tornaram verdadeiros mestres, normalmente já passaram pelo estágio de ajustes dos níveis de arrogância pessoal, embora isso não seja uma regra, afinal é possível se encaixar no ditado que meu velho pai nunca deixava de mencionar entre seus ensinamentos “Quanto mais cresce, mais burro fica...”
Percebo que o ápice dos sintomas acontece durante a fase básica ou intermediária, quando o arrogante clássico já conseguiu sua carteirinha nível 1 ou “aprendiz-de-coach” ou algo parecido. Não se espante com eventuais pontuações de ironia, isso faz parte do “processo educacional”.
Nessa fase, o Joãozinho (vamos dar um nome pra ele, né? Fica mais fácil assim) já sabe um monte, já ganhou seus trofeuzinhos, já tem sua carteirinha e já pode tomar conta de um grupinho de alunos. Nessa hora Joãozinho olha em volta e identifica os alunos que se encaixam no seu perfil. Estes são o solo mais fértil para seu progresso, afinal toda a sua dedicação lhe rendeu benefícios justamente por ele ter vivido uma vida assim: dedicado, esforçado, apaixonado e por que não dizer, fanático de carteirinha pela sua atividade. Então os alunos escolhidos são a chance mais visível de deixar claro o quanto Joãozinho domina seus conhecimentos e é a eles que Joãozinho dedica-se com amor e com todos os ingredientes que fizeram dele, o que ele é hoje. Os mesmos ingredientes que trouxeram Joãozinho, até o pedestal que hoje ele ocupa.

Mas... existem os outros... e agora olhando com “olhos de Joãozinho”, os displicentes, os pegadores de bonde-andando, os curiosos, os desinteressados. Todos aqueles outros alunos que “claramente” não demonstram o mesmo amor pela atividade. Alguns desses inclusive, parece que estão na verdade, invejosos das conquistas de Joãozinho e preparados para fazer o que for possível, para derrubá-los de sua merecida e arduamente conquistada posição.

Esta análise é bastante peculiar porque ela pode parecer uma visão muito equivocada da realidade, não é mesmo? Mas é justamente por isto que ela existe. Cada indivíduo tem uma visão diferente da realidade. Cada pessoa tem suas prioridades e constrói sua forma de ver e vivenciar cada experiência. É claro que existe um mínimo, não se pode contar com um aluno de voo livre, por exemplo, que compareça às aulas uma vez por mês, ou com um iniciante de Crossfit que acredite que em duas semanas conseguirá levantar um peso maior que o dele. A verdade é que Joãozinho, tem bastante experiência na atividade. Conhece os meandros técnicos e teóricos como poucos, além de contar com uma habilidade muito diferenciada, fruto evidente de toda sua suada dedicação.
 Na mente de Joãozinho, aqueles alunos “ruins” representam um perigo, um risco de colocar todo um longo processo a perder, pior que isso, um questionamento da possível fragilidade de algo que foi construído no mais sólido dos alicerces. Afinal quem estes alunicos acham que são?
 
Mas, o que é difícil para o Joãozinho enxergar e aceitar, é que sua pouca experiência com seres humanos ainda é flagrante se comparada à de um “mestre de mil almas”, aquele mestre capaz de desentortar galhos, polir pedaços de carvão até que brilhem, fazer concreto nadar borboleta, lançar arames retorcidos para o voo. Joãozinho está então diante de um momento complicado, pois chegou no momento exato em que aparentemente ele poderia relaxar um pouco mais diante do término de um longo processo; e de um momento para outro ele se vê em um terreno inóspito onde tudo aquilo que ele aprendeu, tem pouca ou nenhuma relevância... Sim, acabei de dizer pouca ou nenhuma relevância, porque esta é a dura realidade. A atividade em si não é a chave da compreensão dos meandros das motivações humanas, mas pode sim tornar-se um elemento essencialíssimo no sentido de que é através da atividade, que Joãozinho torna-se capaz de agregar os indivíduos que serão ingredientes inadiáveis para que seu processo interno de estudo e compreensão destas motivações possa ser gerenciado com sucesso.
Síntese

Diante da irrevogabilidade do convívio com estes “seres”, Joãozinho precisa então urgentemente, assumir uma forma de intermediador de universos. De um lado, o universo da atividade, com todas suas complexidades, segredos, manhas, tempos e métodos. De outro, o universo do aluno aprendiz com sua sede, sua pressa, sua volubilidade, seu interesse discutível, sua desconfiança e até mesmo, sua arrogância inerente. Joãozinho está a um passo de se tornar um verdadeiro instrutor, um verdadeiro coach, um mestre de verdade. Joãozinho conseguirá isto quando incorporar a função de veículo facilitador, capaz de interpretar a complexidade da atividade, traduzindo-a no idioma do leigo e sendo capaz de através de um processo coerente de aprendizado de tarefas intermediárias, conduzir seu aprendiz até as profundidades do core da atividade.

A linguagem é a chave, a empatia é essencial. Aproximar-se da língua do aluno significa que é preciso eliminar qualquer possibilidade que paire no horizonte e signifique que o aluno precisa subir em algum degrau para conseguir fechar um canal de comunicação com o instrutor, ou seja, o instrutor deve literalmente descer das tamancas... vestir a sandaliazinha da humildade do Vesgo e traduzir em as complexidades do vernáculo da atividade em língua de aluno. Isto começa com o bom dia, o aperto de mãos, o sorriso, o carinho, a impressão (mesmo que seja só isso) que Joãozinho demonstra algum tipo de interesse pela vida de seu aluno. Pode parecer impressionante, mas Joãozinho as vezes não consegue esconder sua falta de interesse nas vidinhas terrenas de seus alunos e isto é um problema grave, pois esse desinteresse flagrante se transforma em um muro eventualmente intransponível entre o aluno e o instrutor.

Joãozinho perde o aluno, este posta críticas ácidas nas redes sociais e as vezes dá até briga no estacionamento. Que feio, não é mesmo?

É duro pensar que cabe ao instrutor a tarefa de garantir esta aproximação e que Joãozinho é na maior parte das vezes, o único responsável pela dissidência de alunos em sua academia, sua escola, seu meio social. É claro que haverá seres irremediáveis nos meandros do processo, afinal nada na vida é 100%, mas todos devemos estar preparados para frustrações e principalmente, para utiliza-las como degraus de aprendizado para evitar repetições no futuro.


terça-feira, 11 de julho de 2017

O importante é...

de Fargo S03

Sou ateu.

Mas posso chamar de Deus a esta angústia que sinto no coração diante da inexorabilidade do universo. Universo este, tão cego e surdo a tudo ao seu redor, que não faz nenhuma distinção entre quem merece ou não merece ser agente de suas decisões mais arbitrárias ou das mais justas.

Decisões estas que não fazem esforço algum para agradar ou desagradar,
Punir nem recompensar,
Perdoar ou agradecer,
Escutar ou ignorar.

Elas que impõe sua invencibilidade a fracos, fortes, brancos, pretos, crentes, ou descrentes, ricos ou pobres, presentes ou ausentes, estúpidos ou inteligentes, viados ou héteros, loucos ou sóbrios.

É angústia que se acotovela entre assombro e terror, entre maravilhamento e indignação, entre medo e desejo.
É angústia que não pode ser ouvida porque emana de lá de dentro, cuja voz bem conheço.

É angústia de estar em meio a tanta vida e tanta morte, tanta beleza e tanta tragédia; tanto amor e tanto ódio.

É o belo que dói,
O feliz que aflige,
O ínfimo que oprime,
O gigante que definha.

É angústia por não poder estar em todos lugares ao mesmo tempo, por saber que não há tempo sobrando para se sentir cada dia que passa nessa vida com a intensidade que acho que estar vivo merece.

É por isso que recomendo gastar seu tempo do lado de quem você ama, pois sei que de tudo aquilo que sinto e não posso provar que existe, só uma coisa merece minha atenção, só uma coisa vale a pena acreditar.

Essa coisa é o amor.

Laerte-se, uma aula de humanidade



Sempre curti as tirinhas do Laerte e quando ouvi a notícia de que ele tinha decidido se vestir de mulher, achei que fosse mais uma dessas coisas "modernas"... rápida e bovinamente a gente trata de imaginar um rótulo que encaixe no conteudo; crossdresser? curioso? polêmico? palhaço?

Ontem assisti o documentário protagonizado por ele no Netflix e várias coisas me impressionaram. A confirmação que ele agora é mulher mesmo, no sentido mais humano da palavra é apenas uma informação a mais.

O que mais me chamou a atenção é que o documentário desmistifica e ensina a respeitar algo que nossa cultura nos ensinou a ridicularizar. Laerte, com sua simplicidade, sua doçura, sua inteligência social implícita em um certo desconforto diante da câmera, mostra que ele é tão humano quando eu e você e que uma decisão tomada depois de 60 anos de vida, não deprecia a vida que ele viveu até então, muito pelo contrário, mostra que sempre há tempo para celebrar e viver com muito mais intensidade.

Assista sem medo, aproxime-se desse mundo que ainda é tão complicado quanto assustador para tanta gente. Seu trabalho é um ato de respeito e abertura e principalmente de amor pela vida e por tudo o que ela pode proporcionar, sem censura, sem repressão, sem preconceito. Assim meio sem jeito, ele se revela, se abre, se entrega à opinião que qualquer um quiser dar, sem que qualquer opinião seja necessária, apenas carinho e sem dúvida, respeito e admiração.

Obrigado Laerte, por essa aula de humanidade.


Sivuca

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Muito mais que 13 motivos

Ontem terminei de assistir a série que está no Netflix chamada "13 Reasons Why".

A série, me causou um misto de sensações contraditórias, um passeio ziguezagueante que ia de indignação, passando por raiva, desprezo, decepção, compaixão, e chegando em preocupação real.

É engraçado quando uma simples série de TV consegue ir muito além de apenas entreter e divertir, aliás, de divertido essa série teve muito pouco ou quase nada. Desta vez, uma série de TV cumpriu, ao menos na minha forma de entender as coisas, um papel didático de alerta.

Para quem ainda não assistiu, uma garota de 17 anos, incapaz de administrar as complexidades emocionais de sua adolescência termina tomando a atitude mais drástica possível, dando cabo de sua própria vida.

Em vários momentos eu tentei traçar um paralelo entre tudo aquilo que eu via em minha vida durante a adolescência, na escola. A verdade é que me descobri aliviado, pois aquilo não aconteceu comigo, ao menos não daquela forma e muito menos naquele nível. Para ser sincero, fui um cara privilegiado, tanto que por incrível que pareça, constatar isso em alguns momentos, até me causa certo embaraço.

Fui privilegiado porque eu não posso afirmar que fui vítima séria de bullying, embora tenham havido vários momentos em que as coisas caminharam nessa direção. Houveram sim meninos e até meninas que me olharam como um possível alvo para suas “maldades”, mas acho que terminei me protegendo em um escudo de situação inversa. Não que eu tenha revertido a situação me transformando em um "bully" no sentido verdadeiro da palavra e fazendo o que eu tinha medo que fizessem comigo, escolhendo alvos frágeis para maltrata-los sistematicamente como é infelizmente comum acontecer. Não, não cheguei a agir assim.

Acho sim que meu privilégio foi ter recebido uma educação que, por mais que os métodos não tenham sido exatamente um exemplo de retidão política, me ensinou a me proteger. Eu então, tomei as rédeas da auto confiança e parti para uma jornada segura que consistia em resolver os problemas de forma rápida e ágil. Talvez quem olhasse de fora dissesse: “onde vai esse doido?”, mas dentro de mim, eu era indestrutível. Essa auto opinião, é claro, me causou alguns problemas e entre eles, uma certa dificuldade em manter relacionamentos ou estabilidade no trabalho, coisas que só fui aprender a administrar bem mais tarde. A vida então, se encarregou de me maltratar de outras formas, já que os colegas do colegial não conseguiam dar conta do “Super-Silvio”.

Mas então volto à 13 Reasons Why, onde Hanna, com seus 17 anos, não consegue lidar com o mundo louco ao seu redor. Temos bullying, amores frustrados e até estupro e é claro, suicídio. A entrevista com os produtores ao final da temporada explica que os adolescentes ainda não possuem seu ‘lobo frontal’ plenamente desenvolvido e por isto, encontram uma dificuldade especial em lidar com suas emoções – a “aborrescência” que tanto dizem, é um problema fisiológico e não apenas social. Diante da sensação de que seus problemas perdurassem "para sempre", sua decisão é uma atitude drástica que termina destruindo a si e é claro, atingindo de forma contundente, muita gente ao seu redor.

Eu como pai, apavoro-me. Se em vários momentos da série eu pensava “como pode Hanna ser tão boba, tão ingênua, tão cheia de auto piedade, tão fraca?” Em outros eu pensava que provavelmente aquilo tudo era só um retrato exagerado, uma crítica caricatural de uma sociedade norte-americana que está longe de ter um paralelo com os mano e as mina brasileira. Será que eu me enganei? Não sei, mas não quero testar essa possibilidade em casa. A série é pesada, mas necessária como alerta da necessidade de nos prevenirmos contra a mais remota destas possibilidades, afinal suponho que uma tragédia como essa, acontece de forma mais ou menos imprevisível por parte da maioria dos pais, parentes e amigos dos adolescentes. A sensação de segurança, evidenciada pelas boas notas na escola, pelo crédito nas habilidades emocionais e até mesmo pela nossa própria arrogância que pode nos julgar como pais protegidos contra “esse tipo de bobagem”, pode terminar nos pegando de surpresa diante da fragilidade emocional, social e fisiológica de nossos filhos vagando pelos meandros da fase pré-adulta.

Na série, Hanna é uma moça linda, inteligente. Seus pais são presentes, são compreensivos, são boa gente. Como é possível acontecer isso então? A sensação de que seus problemas durarão para sempre, que pode ser entendida como uma persistência imediatista povoa os pensamentos de Hanna. Ela perde sua identidade e sua humanidade numa mescla de autocrítica e autocomiseração. Uma permanente sensação de "estar sobrando". Tudo isso em meio a um ambiente com uma aparência (apenas isso) saudável. Esse é o paradoxo dos filhos.

Comigo deu certo, meus pais me ensinaram a revidar qualquer porrada direto na orelha de quem pensasse em dar a primeira, e embora seja grato, hoje não concordo com essa abordagem, porque aquilo que funcionou comigo, não irá necessariamente funcionar com meus filhos como um simples manual de instruções. Eu tive a sorte de me encaixar num perfil psicológico capaz de me proporcionar proteção, mas não posso tomar isso como certo para todos. É preciso ir além, oferecendo apoio verdadeiro e compreensão, respeitando o tempo e as diferenças entre meu eu-adulto e nossos filhos adolescentes, seres completamente diferentes, vivendo em tempos diferentes, com meios sociais diferentes, com posições subjetivas completamente diferentes diante dos problemas, das dificuldades e dos imprevistos que a vida nos apresenta.


Sivuca

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Sublime Sertão

Sublime sertão


Estive no sertão do Ceará pela última vez em 1999. Foi a última de uma sequência de três anos quase seguidos voando em Quixadá.

Naquela época, as casas não tinham cisternas, os açudes tinham mais água e o mais longo dos voos dificilmente se aproximava muito dos 200 km. Experimentávamos o sertão de uma forma muito breve, apenas raspando em qualquer significância que ele pudesse nos mostrar. Não havia tempo para imersão. Acordávamos tarde, pousávamos cedo e nos dedicávamos a risadas e cerveja. Era como ver um filme, ou folhear um álbum de fotografias.

Mas depois de 17 anos, a experiência me surpreendeu completamente. Constatei o quanto somos pequenos diante da natureza. Veja só, voar sobre florestas cultivadas, plantações, campos floridos, estradas, ruas e cidades nos garante uma importante, embora talvez inconsciente conexão com nossa humanidade. Se o vento arrancar aquelas flores, novas irão nascer ou serão plantadas, se a chuva estragar a estrada, o departamento de trânsito poderá consertar cedo ou tarde e se as cidades forem varridas do mapa, novas cidades serão construídas em seu lugar. Então, diante da segurança de estar tão pertinho daquilo que nós mesmos somos capazes de construir, podemos nos afastar da segurança do chão e olhar tudo de lá de cima com um pé ainda fincado em algum resquício de nossa civilidade, se é que podemos chamar nossa presença na Terra de verdadeira acepção de civilidade, é claro, mas isso é outro assunto para outra hora.

Bem, a minha verdade é que essa segurança se desfez no sertão. Ali, a terra seguiu indiferente a minha presença, implacável em tudo que ela me impõe. Os dezessete anos que passei longe do sertão não significaram absolutamente nada para a paisagem que impera perene, sublime e avassaladora debaixo de mim. As enormes rochas que pontuam um dos mais antigos terrenos da nossa mãe-Terra não tomam conhecimento de minha presença e não será o vento de 30 ou mais quilômetros por hora que farão alguma diferença para elas. Embora seres vivos como eu, os intermináveis juremais lá embaixo renovam-se em sua promessa de eternidade, por mais seca, rígida e impiedosa que a paisagem possa ser.

Longe da segurança da minha pseudo-civilidade, o sertão lá embaixo me cobra atenção dedicada, interesse absoluto em minha própria continuidade. Ele faz isso com total indiferença e sou eu quem tem de lidar com a assustadoramente surpreendente sensação de solidão que me aterroriza apesar dos colegas que voam ao meu redor.

Voar no sertão vai muito além daquilo que estamos acostumados ao fazer nossos simpáticos e divertidos quilômetros sobre estradas marcadas por pneus. Eu poderia comparar com uma travessia de natação a mar aberto. Longe das beiradas das piscinas ou das areias das praias civilizadas com seus salva-vidas com seus apitos e boias.

Adicione a este encontro completamente solitário com você mesmo, um período indebitamente longo de horas a fio, voando e administrando suas decisões. Não vejo como terminar uma longa jornada nessa solidão absoluta sem ter um colega para abraçar ao final. É por isso que encontro no voo do sertão uma importância inadiável sobre voar em equipe. Aqui, insistindo em dividir as térmicas com seus amigos, forçando-se a respeitar suas decisões e empreender pelos seus caminhos, dividimos também uma parcela da enorme responsabilidade que a solidão dos céus do sertão nos impõe. Ao longo de nove ou dez horas de voo, posso em alguns momentos relaxar um pouco, pois sei que alguém está momentaneamente decidindo qual será o próximo passo.

Aprendi várias coisas nestes dias voando em Quixadá e posso dizer que somos apresentados a nós mesmos de uma maneira tão verdadeira que chega a ser maldosa. Estamos pendurados no céu, largados,  deixados praticamente nus, a milhares de metros de distância de qualquer superfície ou objeto e a mínima conexão com algo mais humano que minha selete ou meu variômetro adquire uma preciosidade inédita. Aprendi a lição dos grandes mestres recordistas do sertão e em especial Rafael Saladini a quem devo tantos conhecimentos. Aprendi que no sertão somos literalmente reduzidos a um mero ponto no espaço, incapazes de alterar ou provocar qualquer influência em tudo que nos rodeia. Somos meros, passageiros, curtos e pequenos. Nossa pequenice aumenta ironicamente diante da grandiosidade do sertão, que de tão lindo, e ao mesmo tempo tão assustador, não se importa conosco nem por uma fração de segundo que seja.

Eu, sozinho com meus pensamentos encontro meu caminho.

Aprendi que o voo em equipe é absolutamente essencial, não apenas pela pura banalidade de voarmos mais longe e batermos nossos recordes, mas por algo que vai muito, muito além: voamos em equipe para não nos distanciar de nossa natureza humana, de nossa própria civilidade. Voamos em equipe porque somos humanos!

A volta para casa é densa e as vezes assustadora. Algumas coisas perdem o sentido ou parte dele, outras adquirem novos sentidos e diante da nossa normalidade e banalidade, tento encontrar um lugar para me encaixar. É uma tarefa difícil, mas essencial, gradual, mas vale a pena.

Pretendo voltar para o sertão, mais consciente do que encontrarei durante aquelas horas pendurado no céu, menos assustado e mais preparado para não apenas enfrentar tudo aquilo outra vez...

...mas voltarei ao sertão principalmente... para voltar para casa.

Sivuca