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terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Eu queria acreditar

Eu queria acreditar...


Eu queria acreditar, pedir aos espíritos, aos Deuses e Santos.

Que escutassem meus pedidos, minhas rezas, meus Cantos

E olha que não são poucos, a lista é grande, são tantos.


Mas meu pai foi-se embora, me deixou sozinho em casa.

Lembro dele ainda agora, batendo seu par de asas

Agora sou eu e meus desejos, minhas vontades e anseios.

Resolvendo meus problemas, preparando meus esquemas.

Estou sozinho, é o que vejo


Já perdi a esperança, de que uma fada apareça.

E faça assim com a mão, realize meus caprichos.

Escute meus cochichos, e com a varinha de condão, 

gentil e delicada me toque a cabeça.


Ou talvez um pai de santo, me traga essa alegria.

O mesmo alguém morto, me mande a psicografia.

O mulá, o rabino, ou Meca, e me curvo para Alá

E me dê o que eu preciso, para eu trazer para cá.


O tempo vai passando e me diz "você perdeu"

Descobriu que não tem santo, não tem fada não tem Deus

Levanta do chão e sacode a poeira

Pega a sacola de abre um sorriso e vai pra feira

Sai pra rua e grita bem alto: eu sou mais eu.


Pois não basta querer para acreditar, é preciso perceber, ver, analisar

E entender a física, a química, a primeira e a última

E repetir mais de mil vezes, eu queria acreditar.


 

sexta-feira, 24 de abril de 2020

A perda do pai
























A Perda do Pai
Ou "Como me descobri ateu e segui vivendo... em paz"

Às vezes me perguntam como foi que “me tornei ateu”...
A verdade é que não escolhi. Não me tornei — me descobri ateu.
E não foi fácil. Foi, antes, doloroso.
Para ilustrar, compartilho esta pequena odisseia:

A perda do Pai

Naquele dia chuvoso, o menino, todo molhado, depois de tomar o ônibus errado e voltar para casa muito atrasado, entrou pela sala procurando o aconchego do pai.


Encontrou a casa vazia. Chamou. Repetiu...

Nada. Procurou, mas não encontrou.

O pai não estava.


Passaram-se dias, semanas, meses.

O pai não voltou.

No silêncio da casa e nos dias arrastados, o menino começou a entender.

Nas tarefas que preenchiam o tempo — preparar comida, lavar pratos, varrer o chão, arrumar a cama, cuidar do cachorro, pendurar roupas — cuidar de si era o que restava.

Pedir ajuda já não fazia sentido. Aquele que costumava orientar, aliviar, acolher, simplesmente não estava mais ali.

As coisas do pai pareciam também ter parado. As roupas na gaveta, imóveis. Papéis na mesa, intactos. Tudo esperava por alguém que não voltaria.

O menino percebeu que estava só com suas possibilidades. E que, a depender dos seus passos, poderia tanto acertar quanto se perder.

Viu que ajudar alguém lhe dava certa paz. E que isso, por si só, bastava.

Notou que a vergonha e a culpa vinham quando causava sofrimento. E que ninguém o puniria — apenas ele saberia o que havia feito. 

O menino se alegrou ao entender que felicidade e infelicidade não dependiam da cor da pele, da fé, da ausência dela, nem de quem se ama, nem do que se faz, mas da maneira como se vive. Aceitou que não tinha controle sobre o mundo. E que muitas coisas simplesmente aconteciam, sem propósito nem justiça.

A ausência não fazia escolhas. Não era contra ninguém — apenas era.

Diante disso, o menino entendeu que podia recuar ou seguir. E que, talvez, pudesse reconstruir algo com o que lhe restasse.

Um dia, percebeu que não havia sorte à espreita. Aquilo que chamavam de sorte era só o acaso — o mesmo que cruza o caminho de qualquer um, sem aviso nem critério.

Viu que não havia plano. Mas havia chão. E, a cada passo, um rastro. Depois, talvez chamasse esse rastro de destino. 

Percebeu que tudo o que se escreve nasce de alguém que quis escrever. Que imaginou, inventou, ouviu. E decidiu contar. Só isso.

O tempo passou.

O menino cresceu.

Do pai que se fora, restou uma lembrança tênue — vaga como sonho.

Ele sentiu o calor do fim da tarde, a água fria da manhã, o tempo passando em seu corpo. E a lembrança do pai — já distante — era só isso: um vestígio entre tantos. 

O mundo ao redor seguia, alheio. Vivendo, morrendo, sem se dar conta de si. 

O menino voltou à igreja. Apreciou a beleza, os ritos, a música. Aprendeu a meditar — e viu nisso um momento de escuta, consigo mesmo. E gostou.

Percebeu que não precisava pedir. As coisas viriam, ou não. Agir era o que cabia.

Sentiu-se tranquilo. Ao pensar na morte, soube que não iria a outro lugar. Mas poderia permanecer na memória de quem o conheceu. E isso lhe pareceu suficiente.

Quis, então, viver de forma a deixar significado. Talvez uma vida que fosse pelo menos... interessante.

Entendeu que pecado não é aquilo que lhe ensinaram. Pecado é ferir, desumanizar, desprezar. Viver, ele entendeu, era mudar o que se pode, tocar quem está perto, amar — da maneira que for possível. 

E então, certa vez, percebeu o que de fato desejava. E reconheceu que esse desejo era seu.

Não herdado, não imposto, não esperado. Seu. E que não precisava desaparecer para caber na vontade de ninguém. Havia lugar para ele.

E isso bastava.

Por isso, correu. Correu enquanto pôde. Queria deixar um traço, um gesto, uma lembrança.

Mas logo percebeu: corria não por medo, nem por dever. Corria porque desejava.

Corre, menino.


texto: Silvio Ambrosini
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terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

O poder do amor



Então descobri-me ateu.

Mas suponho que posso chamar de Deus a esta angústia que sinto no coração diante da inexorabilidade do universo. Esse universo, tão cego e surdo a tudo ao seu redor. Universo que se expande, cresce, roda e recicla. Esse universo que não tem preconceito, não faz distinção entre quem merece ou quem não merece estar no caminho de suas decisões, sejam elas as mais assustadoramente arbitrárias ou aquelas mais cabalmente justas. A verdade é que não há justiça, tampouco injustiça, apenas o haver, apenas o acontecer.

Em duas decisões, esse universo que não faz esforço algum para agradar ou desagradar,
Punir nem recompensar,
Perdoar ou agradecer,
Escutar ou ignorar.

Universo esse que impõe sua aparente invencibilidade aos fracos e fortes, brancos e pretos, crentes e descrentes, ricos e pobres, presentes ou ausentes, estúpidos ou inteligentes.

É angústia que abre espaço no peito, se acotovelando entre assombro e terror, entre deslumbramento e indignação, entre medo e desejo.
É angústia que não pode ser ouvida porque emana de lá de dentro, cuja voz bem conheço.

É angústia de estar em meio a tanta vida e tanta morte, tanta beleza e tanta tragédia; tanto amor e tanto ódio.

É o belo que dói,
O feliz que aflige,
O ínfimo que oprime,
O gigante que definha.

É angústia por não poder estar em todos lugares ao mesmo tempo, por saber que não há tempo sobrando para se sentir cada dia que passa nessa vida com a intensidade que acho que estar vivo merece.

É por isso que recomendo gastar seu tempo do lado de quem você ama, pois sei que de tudo aquilo que sinto e não posso provar que existe, só uma coisa merece minha atenção, só uma coisa vale a pena acreditar.

Amor é o nome dessa coisa.
Coisa essa que me mantém vivo
Coisa essa que me permite acreditar no dia de amanhã.

Adeus a Roberto Simon

  Cemitério Israelita do Butantã - um lindo lugar. Fui até o cemitério hoje me despedir de meu amigo Roberto Simon. Fazia um bom tempo que e...