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segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Sublime Sertão

Sublime sertão

Estive voando de parapente no sertão do Ceará em 1999. Foi a última de uma sequência de três anos quase seguidos voando em Quixadá. Naquela época, as casas não tinham cisternas, os açudes tinham mais água e o mais longo dos voos dificilmente se aproximava muito dos 200 km. Experimentávamos o sertão de uma forma muito breve, apenas tangenciando aquele mar de significados. Não havia tempo para imersão, éramos muito jovens, acordávamos tarde, pousávamos cedo e nos dedicávamos a risadas e cerveja. Era como ver um filme, ou folhear um álbum de fotografias.

Mas depois de 17 anos, a experiência de voltar a voar no sertão nordestino me surpreendeu completamente. Constatei o quanto somos pequenos diante da natureza. Veja só, voar sobre florestas cultivadas, plantações, campos floridos, estradas, ruas e cidades nos garante uma importante, embora talvez inconsciente conexão com nossa humanidade. Se o vento arrancar aquelas flores, novas irão nascer ou serão plantadas, se a chuva estragar a estrada, o departamento de trânsito poderá consertar cedo ou tarde e se as cidades forem varridas do mapa, novas cidades serão construídas em seu lugar. Então, diante da segurança de estar tão pertinho daquilo que nós mesmos somos capazes de construir, podemos nos afastar da segurança do chão e olhar tudo de lá de cima com um pé ainda fincado em algum resquício de nossa civilidade, se é que podemos chamar nossa presença na Terra de verdadeira acepção de civilidade, é claro, mas isso é outro assunto para outra hora.

Bem, a minha verdade é que essa segurança se desfez no sertão. Ali, a terra seguiu indiferente a minha presença, implacável em tudo que ela me impõe. Os dezessete anos que passei longe do sertão não significaram absolutamente nada para a paisagem que impera perene, sublime e avassaladora debaixo de mim. As enormes rochas que pontuam um dos mais antigos terrenos da nossa mãe-Terra não tomam conhecimento de minha presença e não será o vento de 30 ou mais quilômetros por hora que farão alguma diferença para elas. Embora seres vivos como eu, os intermináveis juremais lá embaixo renovam-se em sua promessa de eternidade, por mais seca, rígida e impiedosa que a paisagem possa ser.

Longe da segurança da minha pseudo-civilidade, o sertão lá embaixo me cobra atenção dedicada, interesse absoluto em minha própria continuidade. Ele faz isso com total indiferença e sou eu quem tem de lidar com a assustadoramente surpreendente sensação de solidão que me aterroriza apesar dos colegas que voam ao meu redor.

Voar no sertão vai muito além daquilo que estamos acostumados ao fazer nossos simpáticos e divertidos quilômetros sobre estradas marcadas por pneus. Eu poderia comparar com uma travessia de natação a mar aberto. Longe das beiradas das piscinas ou das areias das praias civilizadas com seus salva-vidas com seus apitos e boias.

Adicione a este encontro completamente solitário com você mesmo, um período indebitamente longo de horas a fio, voando e administrando suas decisões. Não vejo como terminar uma longa jornada nessa solidão absoluta sem ter um colega para abraçar ao final. É por isso que encontro no voo do sertão uma importância inadiável sobre voar em equipe. Aqui, insistindo em dividir as térmicas com seus amigos, forçando-se a respeitar suas decisões e empreender pelos seus caminhos, dividimos também uma parcela da enorme responsabilidade que a solidão dos céus do sertão nos impõe. Ao longo de nove ou dez horas de voo, posso em alguns momentos relaxar um pouco, pois sei que alguém está momentaneamente decidindo qual será o próximo passo.

Aprendi várias coisas nestes dias voando em Quixadá e posso dizer que somos apresentados a nós mesmos de uma maneira tão verdadeira que chega a ser maldosa. Estamos pendurados no céu, largados,  deixados praticamente nus, a milhares de metros de distância de qualquer superfície ou objeto e a mínima conexão com algo mais humano que minha selete ou meu variômetro adquire uma preciosidade inédita. Aprendi a lição dos grandes mestres recordistas do sertão e em especial Rafael Saladini a quem devo tantos conhecimentos. Aprendi que no sertão somos literalmente reduzidos a um mero ponto no espaço, incapazes de alterar ou provocar qualquer influência em tudo que nos rodeia. Somos meros, passageiros, curtos e pequenos. Nossa pequenice aumenta ironicamente diante da grandiosidade do sertão, que de tão lindo, e ao mesmo tempo tão assustador, não se importa conosco nem por uma fração de segundo que seja.


Eu, sozinho com meus pensamentos encontro meu caminho nesse mar solitário até o almejado encontro com os resultados que tanto desejo.

Aprendi que o voo em equipe é absolutamente essencial, não apenas pela pura banalidade de voarmos mais longe e batermos nossos recordes, mas por algo que vai muito, muito além: voamos em equipe para não nos distanciar de nossa natureza humana, de nossa própria civilidade. Voamos em equipe porque somos humanos!

A volta para casa é densa e as vezes assustadora. Algumas coisas perdem o sentido ou parte dele, outras adquirem novos sentidos e diante da nossa normalidade e banalidade, tento encontrar um lugar para me encaixar. É uma tarefa difícil, mas essencial, gradual, mas vale a pena.

Pretendo voltar para o sertão, mais consciente do que encontrarei durante aquelas horas pendurado no céu, menos assustado e mais preparado para não apenas enfrentar tudo aquilo outra vez...
...mas voltarei ao sertão principalmente... para voltar para casa.

Sivuca

Sivuca

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Voando feliz


Ah, estive também neste fim de semana no Pico do Gavião em Andradas. O tempo estava ótimo e a galera voou bastante. Eu fiz um voo modesto no sábado e acabei pousando antes da hora por culpa do xixi.. rsrs... foram só 50km, mas novos dias virão.
Muito legal foi encontrar a galera! O Mexicano voou 100km, foi pousar em Campinas.

Na foto ao lado, o Fabinho e logo abaixo, eu com meu amigão Decio, o Homem Pedra.



O Alê foi junto, foi me resgatar em Mogi Mirim e de lá fomos até Poços de Caldas jantar na cantina do Araújo.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Por uma vida menos banal


Meu eterno amigo Arthur Lewis é um cara admirável, ele tem a capacidade de manter-se presente 24h por dia. Pode contar que ele não move um dedo no automático.
Gurdjieff diz que um homem deve ter um amigo confidente no raio de 100km, fico imaginando que chato se um dia um de nós se mudar...
Veja sua resposta a minha pressão para sua participação em uma trip:

Intão...

Caro cabra careca
agora prestatenção
pois vou contar nestes verso
o causo de enrrolação

Bahia e terra de cross
onde é bom os avuáá
eu muito queria ir
Nessa trip de preá

Porém estou enrrolado
e agora não posso sabê
Se consigo um espaço
Pra vuáá com vosmiçê

Mas tenha certa amigo
Que força hei de fazê
Pra mi juntá a você
Nestes voo de perigo
nas terra de Zabelê.

Beijo forte na careca
Um abraço pro Alê
Pois agora to na roça
pra modi podê cumê


Abraço!
Tuzinho.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Ficando velho ou ficando bem?


Quando chega um momento da vida da gente em que nos convidam para aniversários e percebemos que iríamos mais para não fazer feio do que pelo prazer de ir até lá, somos levados a nos questionar... "será que estou ficando velho e chato?".
Acho que isto é sintoma de outra coisa: "Estou ficando bem comigo mesmo!!"
Isso é confirmado quando percebemos que os verdadeiros amigos não ficam bravos quando furamos suas festas... Parabéns querido Denis, mas eu não fui na sua festa porque preferi ir para a praia relaxar, mas te amo mesmo assim!

Adeus a Roberto Simon

  Cemitério Israelita do Butantã - um lindo lugar. Fui até o cemitério hoje me despedir de meu amigo Roberto Simon. Fazia um bom tempo que e...