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segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Sublime Sertão

Sublime sertão

Estive voando de parapente no sertão do Ceará em 1999. Foi a última de uma sequência de três anos quase seguidos voando em Quixadá. Naquela época, as casas não tinham cisternas, os açudes tinham mais água e o mais longo dos voos dificilmente se aproximava muito dos 200 km. Experimentávamos o sertão de uma forma muito breve, apenas tangenciando aquele mar de significados. Não havia tempo para imersão, éramos muito jovens, acordávamos tarde, pousávamos cedo e nos dedicávamos a risadas e cerveja. Era como ver um filme, ou folhear um álbum de fotografias.

Mas depois de 17 anos, a experiência de voltar a voar no sertão nordestino me surpreendeu completamente. Constatei o quanto somos pequenos diante da natureza. Veja só, voar sobre florestas cultivadas, plantações, campos floridos, estradas, ruas e cidades nos garante uma importante, embora talvez inconsciente conexão com nossa humanidade. Se o vento arrancar aquelas flores, novas irão nascer ou serão plantadas, se a chuva estragar a estrada, o departamento de trânsito poderá consertar cedo ou tarde e se as cidades forem varridas do mapa, novas cidades serão construídas em seu lugar. Então, diante da segurança de estar tão pertinho daquilo que nós mesmos somos capazes de construir, podemos nos afastar da segurança do chão e olhar tudo de lá de cima com um pé ainda fincado em algum resquício de nossa civilidade, se é que podemos chamar nossa presença na Terra de verdadeira acepção de civilidade, é claro, mas isso é outro assunto para outra hora.

Bem, a minha verdade é que essa segurança se desfez no sertão. Ali, a terra seguiu indiferente a minha presença, implacável em tudo que ela me impõe. Os dezessete anos que passei longe do sertão não significaram absolutamente nada para a paisagem que impera perene, sublime e avassaladora debaixo de mim. As enormes rochas que pontuam um dos mais antigos terrenos da nossa mãe-Terra não tomam conhecimento de minha presença e não será o vento de 30 ou mais quilômetros por hora que farão alguma diferença para elas. Embora seres vivos como eu, os intermináveis juremais lá embaixo renovam-se em sua promessa de eternidade, por mais seca, rígida e impiedosa que a paisagem possa ser.

Longe da segurança da minha pseudo-civilidade, o sertão lá embaixo me cobra atenção dedicada, interesse absoluto em minha própria continuidade. Ele faz isso com total indiferença e sou eu quem tem de lidar com a assustadoramente surpreendente sensação de solidão que me aterroriza apesar dos colegas que voam ao meu redor.

Voar no sertão vai muito além daquilo que estamos acostumados ao fazer nossos simpáticos e divertidos quilômetros sobre estradas marcadas por pneus. Eu poderia comparar com uma travessia de natação a mar aberto. Longe das beiradas das piscinas ou das areias das praias civilizadas com seus salva-vidas com seus apitos e boias.

Adicione a este encontro completamente solitário com você mesmo, um período indebitamente longo de horas a fio, voando e administrando suas decisões. Não vejo como terminar uma longa jornada nessa solidão absoluta sem ter um colega para abraçar ao final. É por isso que encontro no voo do sertão uma importância inadiável sobre voar em equipe. Aqui, insistindo em dividir as térmicas com seus amigos, forçando-se a respeitar suas decisões e empreender pelos seus caminhos, dividimos também uma parcela da enorme responsabilidade que a solidão dos céus do sertão nos impõe. Ao longo de nove ou dez horas de voo, posso em alguns momentos relaxar um pouco, pois sei que alguém está momentaneamente decidindo qual será o próximo passo.

Aprendi várias coisas nestes dias voando em Quixadá e posso dizer que somos apresentados a nós mesmos de uma maneira tão verdadeira que chega a ser maldosa. Estamos pendurados no céu, largados,  deixados praticamente nus, a milhares de metros de distância de qualquer superfície ou objeto e a mínima conexão com algo mais humano que minha selete ou meu variômetro adquire uma preciosidade inédita. Aprendi a lição dos grandes mestres recordistas do sertão e em especial Rafael Saladini a quem devo tantos conhecimentos. Aprendi que no sertão somos literalmente reduzidos a um mero ponto no espaço, incapazes de alterar ou provocar qualquer influência em tudo que nos rodeia. Somos meros, passageiros, curtos e pequenos. Nossa pequenice aumenta ironicamente diante da grandiosidade do sertão, que de tão lindo, e ao mesmo tempo tão assustador, não se importa conosco nem por uma fração de segundo que seja.


Eu, sozinho com meus pensamentos encontro meu caminho nesse mar solitário até o almejado encontro com os resultados que tanto desejo.

Aprendi que o voo em equipe é absolutamente essencial, não apenas pela pura banalidade de voarmos mais longe e batermos nossos recordes, mas por algo que vai muito, muito além: voamos em equipe para não nos distanciar de nossa natureza humana, de nossa própria civilidade. Voamos em equipe porque somos humanos!

A volta para casa é densa e as vezes assustadora. Algumas coisas perdem o sentido ou parte dele, outras adquirem novos sentidos e diante da nossa normalidade e banalidade, tento encontrar um lugar para me encaixar. É uma tarefa difícil, mas essencial, gradual, mas vale a pena.

Pretendo voltar para o sertão, mais consciente do que encontrarei durante aquelas horas pendurado no céu, menos assustado e mais preparado para não apenas enfrentar tudo aquilo outra vez...
...mas voltarei ao sertão principalmente... para voltar para casa.

Sivuca

Sivuca

quarta-feira, 18 de julho de 2018

A entrega do voo em equipe


A entrega do voo em equipe

Os recordistas mundiais de voo em parapente, Fleury, Cecéu, Frank Brown, Samuca, Saladini, Bigode... têm uma receita que eles construíram e que invariavelmente dá certo para se conseguir conquistar um voo incrível:
A receita é voar em equipe.

Ah tá... lá vem o Sivuca outra vez com essa conversa... eu já faço isso, diz o Joãozinho. Será?
Nos últimos anos tenho nas raras oportunidades que arrumo para voar, experimentado me esforçar ao máximo para conseguir voar junto com outro(s) piloto(s), juntos de verdade. Mas tenho encontrado uma impressionante dificuldade em fazer isso acontecer. Eu tive a honra de ter sido convidado pelos cariocas da equipe Guaratiba Fly para voar com eles e temos feito algumas experiências formidáveis juntos.

Mesmo assim, depois de algum tempo, olho ao redor e posso concluir que são poucas as pessoas que realmente praticam o voo em equipe de forma completa, sendo que uma parte sequer sabe como funciona e uma outra simplesmente não consegue aderir às pequenas e simples regras que são essenciais para que o voo em equipe aconteça.

Contando para vocês o que aprendi com Rafael Saladini, mesmo que, lamentavelmente sem nunca ter tido o privilégio de voar junto com ele, gostaria de chamar a atenção dos pilotos para algumas vantagens que fazem do voo em equipe, na minha forma de ver, muito mais que uma evolução de nosso esporte, mas uma necessidade essencial para quem quer voar mais tempo e mais longe.
Vou contar o que acontece comigo e suponho que seja o que possivelmente terminará acontecendo com muitos de vocês.

Eu voo de parapente há 28 anos, já tenho 52 anos de idade, voo com equipamento CCC até hoje porque é onde me sinto mais confortável, ao menos por enquanto. Quando vou voar, sinto uma necessidade muito grande de me concentrar no exclusivamente no voo, fazendo um esforço especial para dirigir todas as energias para um voo seguro e de alto rendimento. A verdade é que nosso esporte é muito perigoso e o nível de risco é muito alto, por isso considero que temos de tomar muito cuidado para que o ato de voar nunca se transforme numa coisa banal, onde você vai lá apenas por ir, porque não tem outra coisa para fazer ou porque não está a fim de ficar lavando o carro no sábado. Para reduzir o nível de risco, transformo minhas excursões de voo num ritual, voltado inteiramente para o ato de voar. É por isso que hoje em dia você quase nunca me encontra em uma rampa para apenas “um voozinho”.

Levando isso em conta, percebo que a energia gasta em um voo é bastante alta, onde um voo de cinco, seis, ou mais horas, pode ser tão cansativo quanto insustentável. Provavelmente você não verá mais o Sivuca fazendo grandes voos sozinho simplesmente porque eu acho muito chato e cansativo ficar sozinho com toda aquela imensidão ao meu redor e ter de tomar todas aquelas decisões por tanto tempo sem descanso. Quando eu consigo dividir isso tudo com outra pessoa, passo para outro estado, encontro novas motivações e me sinto preparado para enfrentar voos enormes, como os que fiz em Quixadá com cerca de 10 horas de duração. O que acontece é que durante um voo em equipe, as várias tarefas que você tem de dar conta quando está voando sozinho se dividem entre os membros do grupo.

Então, posso listar algumas tarefas que somos obrigados a assumir na íntegra, durante o voo inteiro, quando fazemos voos longos e que podemos ao menos durante vários momentos, dividir entre os membros do grupo:

1.       Fazer contato com o resgate pelo rádio.
2.       Manter-se atualizado sobre dados de planeio, distâncias, rotas, velocidades e direção do vento, estradas e locais de pouso. (sempre tem um nerd que adora isso)
3.       Escolha de mini-rotas (vou pra baixo daquela nuvem ou pra cima daquela cordilheira?).
4.       Lembrar dos horários de hidratação, alimentação e necessidades (xixi).
5.       Triangular a próxima térmica.
6.       Encontrar um núcleo mais favorável na térmica atual.

Ninguém vai fazer xixi por você, mas muita gente se esquece de beber água, se alimentar e fazer xixi. Ter alguém para te lembrar disso durante o voo, assim como poder deixar a decisão da mini-rota daquele momento para outro piloto ou ficar falando com o resgate no rádio, é uma forma de relaxar um pouco a tensão. Isso tem um efeito muito importante, especialmente se levarmos em conta que várias vezes eu estava muito cansado e pronto para me preparar para o pouso quando um colega do grupo localizou uma nova ascendente e lá fomos nós para a base outra vez. Enquanto no dia anterior fizemos juntos um voo fantástico com um quase triângulo FAI de 150km, o meu penúltimo voo foi feito sozinho. Meu companheiro de voo, o André Abrantes fez uma saída ruim e terminou na frente da rampa e eu, sozinho. Tentei sinalizar e “arrastar” alguns colegas que cruzei pelo caminho, mas ninguém atendeu meus apelos, então resolvi pegar pesado e acelerar o voo para relembrar os tempos de competição. Duas horas e meia depois eu estava pousado cansadíssimo, com 110km voados. Poderia ter voado muito mais, ainda havia no mínimo três horas de voo, o que significa que naquele dia eu poderia ter voado mais de 200km... mas onde estava a disposição para fazer isto sozinho? (Pausa para rir do Sivuca dizendo que quase fez um voo de 200km quando fez só 110..).

No voo que fiz na companhia do Grandão e do Fabrício em Quixadá a dois anos, fizemos 300km. No quilômetro 200 eu não aguentava mais, não estava mais com saco de procurar térmica, queria pousar... Grandão achou uma termal e lá fomos nós para a base novamente. Esse cenário se repete com frequência, não é fácil ficar horas e horas pendurado no parapente e ainda tendo que decidir e administrar um monte de coisas simultaneamente. Quando podemos relaxar um pouco e deixar alguém decidir para qual nuvem iremos, ajuda bastante.

É nessa hora que o Joãozinho me pergunta: É, mas e se o cara decidir a nuvem errada? E eu respondo: Joãozinho, você nunca decidiu ir para nuvem errada? Quem disse que suas decisões são sempre certas? Esta é a questão que provavelmente impede algumas pessoas de aceitar o voo em equipe, temos uma opinião muito alta a respeito de nós mesmos, custa-nos a crer que outra pessoa poderia ser capaz de tomar decisões tão acertadas quanto as nossas e daí somos levados a não confiar nos outros pilotos e terminamos voando sozinhos. Triste não é? Até que ponto isso é uma verdade para muitos de nós?

Veja só, existe uma regra essencial para o funcionamento do voo em equipe que é: Quando se aproxima o momento de sair de uma térmica (porque está ficando fraca, ou porque o grupo tem pressa), quem sai primeiro é quem está mais baixo. E Joãozinho desesperado levanta a mão: Mais baixo tio? Então estou me fodendo pra subir, todos estão 100m mais alto que eu e eu é quem tem que sair procurando térmica? Isso mesmo, Joãozinho, você sai e todos saem atrás (e mais alto) que você para te ajudar. Se não for assim, ou seja, se todos esperam quem está mais alto sair, o grupo se fragmenta. Imagine o grupo como um ser alado, uma Quimera voadora onde cada parapente é um membro do corpo da Quimera. Se a Quimera perde um braço, pode morrer... a Quimera precisa manter sua forma para poder voar. Inteira, ela é muito mais eficiente simplesmente porque ela é muito maior e muito mais capaz de encontrar o melhor núcleo da termal, além de ter uma capacidade maior de encontrar a próxima termal, simplesmente devido ao seu tamanho. 

Se voarmos pensando que não podemos nos distanciar do colega, conseguiremos manter a forma da Quimera e ela conseguirá voar mais longe, durante mais tempo. A Quimera abre suas asas ao máximo para fazer a tirada e isso significa que os pilotos voam lado a lado, sempre evitando alinhar em fila com o companheiro da frente. É preciso abrir as asas para cobrir mais espaço, isso facilita muito encontrar a próxima térmica. Ora, se um parapente tem 11m de envergadura, dois parapentes conseguem cobrir no mínimo 30 metros facilmente... o que três parapentes podem fazer, chega a ser covardia.

Enquanto você não pode estar em dois ou três lugares ao mesmo tempo, dois ou três parapentes na mesma térmica conseguem triangular o melhor núcleo com uma eficiência muito superior. Noutro dia, um colega que tentamos trazer para a equipe e não conseguiu passar da primeira térmica alegou que voamos muito baixo. Achei aquilo muito divertido de escutar e até brinquei com ele comparando com o adolescente que fez uma campanha enorme para que seus pais permitissem que ele fosse a uma festa com os colegas à noite e na última hora ele desistiu porque sua calça preferida estava lavando.
Então o voo em equipe é uma verdadeira entrega, em muitos momentos você deixa de fazer aquilo que acreditava para fazer aquilo que o outro acreditou. Isso é uma coisa muito dura para muita gente e volto a afirmar, especialmente aquelas que não são capazes de acreditar que existe alguém na face da terra capaz de tomar decisões tão acertadas quanto elas mesmas. O André Wolf me disse que se para nós parapentelhos, voar em equipe é uma coisa difícil de fazer, para os voadores de asa é ainda mais complicado, pois eles são muito mais antigos no voo e consequentemente carregam uma carga cultural de voo individual muito mais poderosa que nós... vamos então aproveitar nossa posição de vantagem e fazer algo mais bacana, galera?

Voo em equipe não requer parapentes de altíssimo desempenho, nem instrumentos tecnológicos de ponta, a única coisa é que o grupo tenha mais ou menos o mesmo nível técnico e voe parapentes mais ou menos parecidos. Então é perfeitamente possível você ter um ano e meio de voo e juntar-se com dois ou três de seus amigos voando parapente B e conseguirem fazer um voo espetacularmente melhor do que você seria capaz de fazer sozinho.

Ah, Sivuca, você está sendo irônico, pois basicamente você afirma que o voo em equipe não acontece porque as pessoas são arrogantes, não é bem assim.

É mesmo, Joãozinho? Então me explique por que o voo em equipe não acontece.

E Joãozinho me olhou em silêncio...


Sivuca

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Chamaram-me de arrogante, e agora?


Chamaram-me de arrogante, e agora?

Análise e síntese de um mal que atrapalha a vida de alguns professores, instrutores, coaches e afins.

Metido a besta, filha da puta, imbecil... e outros adjetivos podem também ter sido utilizados, ou simplesmente um “depois falamos sobre isso”... mas tudo significa a mesma coisa. Se de alguma forma isto teve alguma importância para você, então já pode ficar tranquilo, você ainda pode ser salvo! Não por Shiva, Buda ou Jesus, mas por suas próprias ações e atenções.

Análise


A arrogância é um mal que assola uma parcela bastante expressiva de pessoas, especialmente aquelas que de alguma forma aprenderam ou estão em processo de aprendizado de alguma faculdade física ou mental. Estas últimas são as maiores vítimas, pois aquelas que realmente já se tornaram verdadeiros mestres, normalmente já passaram pelo estágio de ajustes dos níveis de arrogância pessoal, embora isso não seja uma regra, afinal é possível se encaixar no ditado que meu velho pai nunca deixava de mencionar entre seus ensinamentos “Quanto mais cresce, mais burro fica...”
Percebo que o ápice dos sintomas acontece durante a fase básica ou intermediária, quando o arrogante clássico já conseguiu sua carteirinha nível 1 ou “aprendiz-de-coach” ou algo parecido. Não se espante com eventuais pontuações de ironia, isso faz parte do “processo educacional”.
Nessa fase, o Joãozinho (vamos dar um nome pra ele, né? Fica mais fácil assim) já sabe um monte, já ganhou seus trofeuzinhos, já tem sua carteirinha e já pode tomar conta de um grupinho de alunos. Nessa hora Joãozinho olha em volta e identifica os alunos que se encaixam no seu perfil. Estes são o solo mais fértil para seu progresso, afinal toda a sua dedicação lhe rendeu benefícios justamente por ele ter vivido uma vida assim: dedicado, esforçado, apaixonado e por que não dizer, fanático de carteirinha pela sua atividade. Então os alunos escolhidos são a chance mais visível de deixar claro o quanto Joãozinho domina seus conhecimentos e é a eles que Joãozinho dedica-se com amor e com todos os ingredientes que fizeram dele, o que ele é hoje. Os mesmos ingredientes que trouxeram Joãozinho, até o pedestal que hoje ele ocupa.

Mas... existem os outros... e agora olhando com “olhos de Joãozinho”, os displicentes, os pegadores de bonde-andando, os curiosos, os desinteressados. Todos aqueles outros alunos que “claramente” não demonstram o mesmo amor pela atividade. Alguns desses inclusive, parece que estão na verdade, invejosos das conquistas de Joãozinho e preparados para fazer o que for possível, para derrubá-los de sua merecida e arduamente conquistada posição.

Esta análise é bastante peculiar porque ela pode parecer uma visão muito equivocada da realidade, não é mesmo? Mas é justamente por isto que ela existe. Cada indivíduo tem uma visão diferente da realidade. Cada pessoa tem suas prioridades e constrói sua forma de ver e vivenciar cada experiência. É claro que existe um mínimo, não se pode contar com um aluno de voo livre, por exemplo, que compareça às aulas uma vez por mês, ou com um iniciante de Crossfit que acredite que em duas semanas conseguirá levantar um peso maior que o dele. A verdade é que Joãozinho, tem bastante experiência na atividade. Conhece os meandros técnicos e teóricos como poucos, além de contar com uma habilidade muito diferenciada, fruto evidente de toda sua suada dedicação.
 Na mente de Joãozinho, aqueles alunos “ruins” representam um perigo, um risco de colocar todo um longo processo a perder, pior que isso, um questionamento da possível fragilidade de algo que foi construído no mais sólido dos alicerces. Afinal quem estes alunicos acham que são?
 
Mas, o que é difícil para o Joãozinho enxergar e aceitar, é que sua pouca experiência com seres humanos ainda é flagrante se comparada à de um “mestre de mil almas”, aquele mestre capaz de desentortar galhos, polir pedaços de carvão até que brilhem, fazer concreto nadar borboleta, lançar arames retorcidos para o voo. Joãozinho está então diante de um momento complicado, pois chegou no momento exato em que aparentemente ele poderia relaxar um pouco mais diante do término de um longo processo; e de um momento para outro ele se vê em um terreno inóspito onde tudo aquilo que ele aprendeu, tem pouca ou nenhuma relevância... Sim, acabei de dizer pouca ou nenhuma relevância, porque esta é a dura realidade. A atividade em si não é a chave da compreensão dos meandros das motivações humanas, mas pode sim tornar-se um elemento essencialíssimo no sentido de que é através da atividade, que Joãozinho torna-se capaz de agregar os indivíduos que serão ingredientes inadiáveis para que seu processo interno de estudo e compreensão destas motivações possa ser gerenciado com sucesso.
Síntese

Diante da irrevogabilidade do convívio com estes “seres”, Joãozinho precisa então urgentemente, assumir uma forma de intermediador de universos. De um lado, o universo da atividade, com todas suas complexidades, segredos, manhas, tempos e métodos. De outro, o universo do aluno aprendiz com sua sede, sua pressa, sua volubilidade, seu interesse discutível, sua desconfiança e até mesmo, sua arrogância inerente. Joãozinho está a um passo de se tornar um verdadeiro instrutor, um verdadeiro coach, um mestre de verdade. Joãozinho conseguirá isto quando incorporar a função de veículo facilitador, capaz de interpretar a complexidade da atividade, traduzindo-a no idioma do leigo e sendo capaz de através de um processo coerente de aprendizado de tarefas intermediárias, conduzir seu aprendiz até as profundidades do core da atividade.

A linguagem é a chave, a empatia é essencial. Aproximar-se da língua do aluno significa que é preciso eliminar qualquer possibilidade que paire no horizonte e signifique que o aluno precisa subir em algum degrau para conseguir fechar um canal de comunicação com o instrutor, ou seja, o instrutor deve literalmente descer das tamancas... vestir a sandaliazinha da humildade do Vesgo e traduzir em as complexidades do vernáculo da atividade em língua de aluno. Isto começa com o bom dia, o aperto de mãos, o sorriso, o carinho, a impressão (mesmo que seja só isso) que Joãozinho demonstra algum tipo de interesse pela vida de seu aluno. Pode parecer impressionante, mas Joãozinho as vezes não consegue esconder sua falta de interesse nas vidinhas terrenas de seus alunos e isto é um problema grave, pois esse desinteresse flagrante se transforma em um muro eventualmente intransponível entre o aluno e o instrutor.

Joãozinho perde o aluno, este posta críticas ácidas nas redes sociais e as vezes dá até briga no estacionamento. Que feio, não é mesmo?

É duro pensar que cabe ao instrutor a tarefa de garantir esta aproximação e que Joãozinho é na maior parte das vezes, o único responsável pela dissidência de alunos em sua academia, sua escola, seu meio social. É claro que haverá seres irremediáveis nos meandros do processo, afinal nada na vida é 100%, mas todos devemos estar preparados para frustrações e principalmente, para utiliza-las como degraus de aprendizado para evitar repetições no futuro.


terça-feira, 5 de julho de 2011

Ranimiro, o verdadeiro Saci Pererê.

Conheço o Ranimiro Lotufo há muitos anos, voamos juntos de parapente pelos ceus do Brasil várias vezes e passamos alguns momentos muito divertidos juntos. Ranimiro sempre impagável com seu senso de humor infinito ao mesmo tempo em que emana ternura com seu olhar.

Um dia, Rani enroscou num fio de alta tensão, sua perna pegou fogo e a partir de então passou a ser um Saci, um verdadeiro Saci Pererê.
Ranimiro não se fez de rogado e ao invés de se tornar um cara mais comportado, afinal com uma perna só tudo fica mais complicado, ficou muito mais louco, continuou voando e fazendo um montão de outros esportes radicais, sempre com sua simpatia infinita.

Passou a documentar tudo em vídeo e enviar as matérias para os meios de comunicação que adoraram divulgar as aventuras de um cara que mesmo com uma perna só fazia muito mais que a maioria dos caras com duas pernas.
Em 1999, fui piloto integrante do time Brasileiro de parapente e viajei para a Austria para participar do mundial do esporte. Lembro-me que a título de treino e integração da equipe, fomos voar em um lugar no sertão do Espírito Santo chamado Vila Valério e o Ranimiro foi junto conosco pra aproveitar o passeio.
Lembro que o vento estava muito fraco e estávamos todos na rampa esperando uma chance de soprar uma brizinha pra poder decolar. O Ranimiro mais impaciente, decidiu tomar a dianteira e desatou a correr entre os caras para inflar sua vela.

Imagino que vocês não estejam muito acostumados a ver uma pessoa de uma perna só correndo né? Pois a impressão que me dava é que existia sim uma outra perna, esta invisível, ajudando na formidável propulsão que o Rani produziu enquanto seu parapente inflava e é claro, fazendo uma decolagem fantástica. Senti-me humilhado e orgulhoso ao mesmo tempo e soltei: "E aí equipe Salto Alto? A gente amarela na decolagem e o perneta toma a dianteira, né?".
Entre suas conquistas, está esta espetacular escalada no Dedo de Deus, um pico 110% roubada na serra Fluminense que culmina com uma das mais apavorantes decolagens de parapente que tive notícia. Acompanhem e babem.

É isso aí!! O Ranimiro é meu amigo!!

Sivuca
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segunda-feira, 31 de maio de 2010

Curso de segurança de voo de parapente na represa Joanópolis

Dias 22 e 23 de maio foi uma festa no Curso de Segurança. Contamos com uma turminha da hora e nos divertimos demais.

O pessoal abriu o paraquedas de emergência em treinamento e foi todo mundo nadar.

Alberto Hiroshi na lancha com André e o super assistente.
Alexandre Pimentel, logo depois do caldo.
Fabião Pessoa feliz e vitorioso com suas conquistas.

Marcelo Sabatier logo após o mergulho mostra seus dentes.
Marcos Porchat veio do Rio de Janeiro e marcou presença na turma.
Brincadeiras e bom humor, o tio Sivuca não é malvado não!
 Alexandre
 Fabião
 Marcelo
 Alberto

Muito obrigado meus quieridos pelo prazer de sua companhia e pelo prestígio em mais um CSS!!

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Uma semana voando de parapente no sertão da Bahia

Quando uma tremenda virose me fez arrumar as malas e voltar correndo pra casa antecipadamente em 1999 logo após de fazer um voo recorde de 166km no sertão do Ceará, não imaginei que só voltaria para a caatinga após dez anos.

Eu estava seco pra voltar a voar sobre a "terra de Marlboro", como se diz quando você vai sobrevoar lugares onde não vive ninguém ou quase ninguém e comecei a esboçar uma viagem pra Quixadá no Ceará quando meu amigo Arthur me comentou que outros amigos, o Mexicano e o Ailton estavam organizando uma trip para Santa Teresinha na Bahia.
Eu já voei lá, foi em 1998, numa excursão organizada pelo Chico Santos, chamada "Jibóia só para Cobras" porque a decolagem era da serra da Jiboia que nem se escreve mais com acento... Agora a decolagem é da rampa do Boqueirão, bem melhor e de mais fácil acesso.

Adorei a ideia, comprei a passagem e fiquei esperando o dia 2 de outubro chegar. Quando fiquei sabendo que seríamos um grupo de 13 pilotos, confesso que fiquei assustado, talvez seja trauma da equipe "Salto Alto" quando participei do mundial de 99 na Áustria, quando o stress foi maior que as alegrias, mas como já estava tudo pronto lá fui eu.

E foi ótimo! O grupo foi nota DEZ! Uma turma unida, simpática, todos bons pilotos, enfim.. só alegrias. Deixa ver se eu lembro os nomes todos...

Mexicano, Bauru, Sandro, Top, Rafa, Tuzim, Gian, Amilcar, Vovó, Palmito, Sivuca, Baldok e Juninho.
Ficamos hospedados na pousada do top-casal Claudinha e Serjão. A Claudinha é piloto de parapente também e é quem quebrou o recorde mundial de voo duplo junto com André Fleury, a menina está até no Guinness! O Serjão é nosso super resgate, responsável por varar o sertão com sua Toyota, disposto a ir buscar o piloto maluco onde quer que ele pouse. Claro que é preciso um pouco de bom senso, não é mesmo? De preferência pousar em um lugar acessível e na rota combinada.

Bem para quem não é voador, aqui vão algumas informações interessantes. Estamos falando de voo de parapente, que é esse da foto (é só clicar pra ver grandão). O brinquedo é uma modalidade de voo livre, lembra da asa delta? pois é... o parapente é um parente. O Joãozinho senta naquela cadeirinha e ao sabor das ascendentes térmicas, tenta conduzir sua aeronave o mais longe que for possível. Como você vê, não há motor, tudo vai na base da habilidade técnica, capacidade de compreensão, interpretação e decisão sobre o que fazer e como. As térmicas são massas de ar que se deslocam para cima; quando um parapente passa por uma delas, pode subir junto se ele for habilidoso o suficiente.
No sertão, as térmicas são mais fortes, os ventos também e o que tem lá embaixo não é exatamente grama fofa... basicamente você está sobrevoando a caatinga nordestina, ou seja, praticamente um deserto de espinhos, calangos e um calorão de rachar coco. Como as condições de voo são muito mais fortes que aquelas que encontramos aqui pertinho de Sampa, então as possibilidade de voos mais longos são muito maiores e é exatamente atrás disso que nós pilotos estamos.

O que eu sei é que apesar de a princípio parecer uma apavorante roubada, sobrevoar essa terra dá um tesão do cacete nem sei explicar porquê. Talvez uma mistura entre a possibilidade de quebra de recordes com o fato de se colocar a prova numa situação tão singular, longe do conforto e da segurança de um shopping, por exemplo, nos proporcione um recado para lembrarmos que a vida é uma coisa que pode ser um saco ou uma experiência extremamente excitante, é só uma questão de escolha.


Na foto ao lado dá para ter uma ideia de como é a vida dentro da "cabine de comando" do piloto de parapente. 100% de contato com o ar, literalmente pendurado a milhares de metros de altura sobre uma puta terra de ninguém que assusta até carcará.

No meu colo vocês estão vendo um cockpit com os instrumentos de voo, são eles o GPS, a minha inseparável bússola (embora no ano em que estamos já tem gente que tira sarro dizendo que ela é arcaica, mas eu gosto muito dela porque a bicha funciona) e logo mais a direita o variômetro que é o brinquedo que diz qual sua altitude, sua taxa de subida ou descida e mais alguns tralalás. Ainda há o rádio para se comunicar com os outros pilotos e o resgate além de espaço para barrinhas de cereal, banana passa, dois litros de água com maltodextrina pra ficar fortão, e mais algumas bugigangas outras para um mínimo de sobrevivência longe da sala de casa.


O voo é altamente gratificante, não há como não ficar babando em paisagens como essa, no momento em que estou cruzando o Rio Paraguaçú, rumo leste a quase dois mil metros acima do chão ou nessa outra sobrevoando as formas da cidadezinha de Itaberaba no sertão Bahiano.
A paz de estar pendurado no céu, totalmente a mercê de você mesmo, onde somente a sua decisão é o que conta para que as coisas aconteçam, é algo indescritível. Imagino que aquelas pessoas que passam o dia recebendo ordens de chefes vão ficar muito felizes ao descobrir que voar de parapente significa não ter chefe.
Esse voo das fotos foi particularmente especial, já que significou a quebra de meu recorde pessoal conquistado a exatos dez anos quando estive no Ceará em 1999. Na época fiz um voo de 166km, dessa vez foram mais de seis horas voando para conseguir realizar a marca de 187km pousando literalmente no sopé da Chapada Diamantina. Baixei o log do GPS nesse arquivo aqui que você pode abrir no Google Earth e ver direitinho como foi o voo, aliás eu recomendo que faça isso para se ter uma ideia da dimensão da experiência.

Mais fotos e mais histórias você pode ver em meu álbum de fotos, é só clicar aqui Não esqueça de fazer comentários, enviar para os amigos, e se você quiser contribuir com fundos, clique aqui.


terça-feira, 1 de setembro de 2009

A equipe que deu certo

Em 1998, eu participava ativamente do cenário de campeonatos de parapente no Brasil, estava entre os 5 do ranking nacional (se não me engano). A equipe gaucha arrasava com um time muito bom e muita organização. Fazer a equipe Paulista funcionar foi só questão de organizar as coisas.
Em briefings com os pilotos discutíamos quais tinham sido as conquistas do dia, erros e acertos de cada um. Esclarecíamos dúvidas, levantávamos curiosidades. Bolávamos estratégias de uso do rádio. Intensa contribuição de Arthur Lewis, André Abrantes, Rodrigo Guerrero, Jerome Negre, Fernando Abrantes, Alexandre Santos, o Alfredo Milano... O Washington Peruchi e o Albertinho eram preazinhos ainda... Era um time da pesada, foi um tempo de grande progresso para os parapente. O resultado foi evidente, a equipe Paulista se destacou colocando um expressivo número de pilotos no gol.
No tradicionalíssimo campeonato Brasileiro em Governador Valadares, criei esse desenho que imprimimos nas camisetas. Todos os paulistas usavam e eu cheguei a fazer o desenho da bandeira do estado na careca.
Posted by Picasa

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Voando feliz


Ah, estive também neste fim de semana no Pico do Gavião em Andradas. O tempo estava ótimo e a galera voou bastante. Eu fiz um voo modesto no sábado e acabei pousando antes da hora por culpa do xixi.. rsrs... foram só 50km, mas novos dias virão.
Muito legal foi encontrar a galera! O Mexicano voou 100km, foi pousar em Campinas.

Na foto ao lado, o Fabinho e logo abaixo, eu com meu amigão Decio, o Homem Pedra.



O Alê foi junto, foi me resgatar em Mogi Mirim e de lá fomos até Poços de Caldas jantar na cantina do Araújo.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

O simples é tão bom...


Uma coisa muito deliciosa é fazer um "prego" de parapente.
Prego é quando você simplesmente decola e vai direto pro pouso, sem ganhar altura ou conseguir arrumar um jeito de ficar mais tempo voando. Acontece quando não tem vento, ou quando não existe atividade térmica que provoque ascendentes.
O prego é um mega-teleférico, o mínimo do máximo, um voo ridiculamente tranquilo onde você pode fechar os olhos, abrir braços e pernas, fingir de morto, tirar fotos, tomar água num copo, enfim... fazer quase qualquer coisa.

Muita gente pousa reclamando: "bah... fiz um prego". Que desperdício, não é mesmo? É como reclamar de uma praia sem ondas, ou do sol queimando a pele deitado ao lado de uma piscina, ou do vapor de uma sauna, de um sorriso no café da manhã, de uma flor boba amarelando o jardim, ou de um simples copo d'água.

As vezes é tão difícil conseguir o máximo, que tal se começássemos valorizando o mínimo?

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Faxina com amigos


Na semana passada estive em Curitiba ministrando na Clínica de formação de instrutores de parapente da Associação Brasileira de Parapente. Trata-se de uma iniciativa bárbara da associação, no sentido de ajudar a melhorar a formação técnica e didática dos instrutores do esporte, que é muito perigoso. Eu como responsável pela parte de didática, passo bons momentos com a turma e aproveito para encontrar os velhos amigos.
No sábado, o Rodrigo Stulzer me levou para uma trip de bicicleta por um lugar chamado "Estrada da Faxina". Foi muito legal conhecer os irmãos Rodrigo e Marco, que me emprestaram a bicicleta inclusive.
Marco é instrutor de circo para crianças e seu irmão Rodrigo cuida da capoeira. O Rodrigo Stulzer, nem preciso repetir, é um amigão das antigas do parapente, multi-atleta e mantém o bárbaro blog transpirando.com.
Foram 36km de sobe e desce por paisagens bem maneras e com direito a um trecho de subida na BR, bastante calorias queimadas e muitas risadas. Veja mais detalhes da trip no blog do Rodrigo neste link.
O dia seguinte foi tão divertido quanto, mas desta vez a fera dos esportes foi o bombeiro Marcos me me ensinou a surfar, veja só que legal que foi.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

E não é que o livro vende?


Estou particularmente feliz com o sucesso de meu livro, a cada dia que passa mais livros são vendidos. Tudo bem, concordo com você, eu ganho minha parte, afinal escrevi o livro e deu um trabalho danado, não é mesmo? Mas isso é só um detalhe, o que conta mesmo é a possibilidade de transmitir tudo o que levei tanto tempo para aprender, para os pilotos que hoje em dia aprendem tão rápido.
Divulgar o que sei através de meu livro é um prazer muito grande, é como olhar seu filho crescer, é como olhar sua casa se encher de amigos, é como constatar que sua vida não se resume ao mero minuto que passa e sim que ela pode se projetar para frente, para um futuro que pode ir muito além deste mero minuto que levo para escrever este texto.

Adeus a Roberto Simon

  Cemitério Israelita do Butantã - um lindo lugar. Fui até o cemitério hoje me despedir de meu amigo Roberto Simon. Fazia um bom tempo que e...