domingo, 24 de abril de 2016

A perda do pai e outras dores e amores ou "como tornei-me ateu e segui a vida feliz"

Naquele dia chuvoso, este menino todo molhado, depois de tomar o ônibus errado e voltar para casa muito atrasado, procurou o aconchego do pai quando em sua casa entrou.
Encontrou a casa vazia. Chamou, repetiu, não era o que ele queria. Procurou, mas não encontrou. O pai sumido havia...
Passou um dia, passaram dois, passaram três, uma semana, um mês, um ano se passou... o pai nunca mais retornou.
Na solidão de sua responsabilidade, entendeu que a partir dali, teria de tomar conta de si.
Ficou claro que não adiantava mais pedir ajuda ao pai, que este não viria mais.
Percebeu que não adiantava correr para o pai e se desculpar pelos erros, pedir conselhos, agradecer pelos acertos, pedir ajuda.

Na solidão de seu novo dia, descobriu que era o único responsável pelo seu sucesso, descobriu que sozinho poderia muito facilmente, fazer acontecer o pior de seus fracassos.
Entendeu que se mantivesse o foco e se esforçasse muito, o sucesso poderia acontecer, viu também que se não ficasse atento e alerta, o fracasso viria correndo interceder.
Descobriu também que a não ser pelo prazer e pela alegria de sentir o alivio que trouxesse até alguém que precisasse de sua ajuda, ninguém mais lhe recompensaria pelo seu ato de bondade. Não se importou com isso, achou que não fazia diferença, afinal bastaria o prazer e alegria de fazer algo de bom.
Também entendeu que a não ser pela vergonha e pela culpa em trazer dor e sofrimento para outro alguém, este menino não seria punido mais tarde. Também não achou que isso fizesse alguma diferença, afinal a vergonha e a culpa continuariam ali.

Este menino ficou feliz ao perceber que quando alguma coisa dava errado, ele não estava sendo punido por ser negro, ou crente, por ser ateu ou doente, ou rico ou branco, ou gay ou santo; estava cada vez mais claro que ele não tinha como ter controle sobre as outras pessoas e que o acaso era o motor do mundo.
Este menino entendeu que as desgraças não escolhiam a cor das pessoas, nem aquilo que elas acreditavam ou deixavam de acreditar. As desgraças também não escolhiam as pessoas, não se importavam com elas. Apesar de não querer que alguma desgraça o atingisse, isso o fez de alívio respirar. Ele poderia escolher entre ficar desesperado ou refazer-se de força para enfrentar a vida com vontade de reconstruir aquilo que fora destruído.

Este menino também entendeu que um golpe de sorte não era um golpe de sorte, mas sim puro acaso que pegava quem estava passando como o vento que leva as folhas sabe-se lá para onde. Entendeu nada daquilo estava escrito e o que eventualmente estava escrito, alguém tinha escrito, só isso. Este menino poderia ser alvo de alegrias ou de tristezas e também entendeu que ele poderia escolher entre olhar para uma e outra coisa com serenidade e sabedoria ou então polarizar suas emoções explodindo sem controle diante das alegrias ou então saltando no mergulho trágico da depressão diante das tristezas.

Este menino cresceu, tornou-se adulto e entendeu que o pai que sumira tinha sido apenas uma ilusão. Sim, menino, criança do pai precisa, mas já adulto, é hora de crescer. Refeito do medo e da dor da separação, passou a se amar mais. Passou a sentir mais as pessoas e o mundo pulsando ao seu redor. Começou a sentir o calor do fim do dia ou dos primeiros raios de sol. O arrepio da água fria, o brilho das estrelas no céu, o acariciar da brisa. Entendeu que era nuvem passageira, quase irrelevante, pequeno diante do mundo gigante acelerando ao seu redor. Mundo que corre solto, que nasce, vive, morre sem se dar conta de si, sem perceber sua grandeza, imensidão e até sua própria efemeridade.

Esse menino aprendeu várias coisas durante esse tempo, que rezar significava meditar e que meditar significava dar um tempo para poder escutar seu próprio coração e que isso era muito bom.

Aprendeu que por mais que pedisse, o universo só conspiraria a seu favor se ele agisse, o que significaria que ele teria conspirado a seu favor, e não o tal universo, mas os resultados eram ótimos.

Descobriu que depois que ele morresse, poderia continuar vivendo nas mentes e corações das pessoas para quem ele tivesse tido algum significado, então passou a tentar criar esse significado enquanto vivesse.

Descobriu que tudo aquilo que estava escrito nas páginas que os homens chamavam de sagradas, tinha sido escrito pelos mesmos homens que tinham dito que suas páginas eram sagradas, portanto.. bastante questionável, apesar das eventuais boas intenções que pudesse motiva-los.

Percebeu também que a maior parte dos homens que gastavam a maior parte da energia de seu dia defendendo as tais palavras sagradas que os outros homens tinham escrito, tinham na maior parte das vezes, interesse em tornar-se sagrado, transcendendo assim, as tais palavras.

Entendeu que o pecado está dentro da cabeça dos homens e que aquilo que foi pecado um dia, poderá se tornar várias outras coisas, inclusive virtude no dia seguinte e vice versa.

Esse menino aprendeu que é bom consolar as pessoas que sofrem com uma colherada de mel bem doce, mas que mais tarde é importante também que estas pessoas compreendam que aquilo é apenas mel bem doce e nada mais que mel bem doce.

Sentiu que era preciso permanecer ali, no mundo, no universo... vivendo, sentindo, ouvindo, observando, entendendo, amando enquanto fosse possível. Pois logo, muito logo, quando ele menos pudesse esperar, ele desapareceria do mundo e tudo aquilo continuaria exatamente da mesma maneira, apenas sem ele para viver, sentir, ouvir, observar e amar. Seu único consolo seria seguir vivo na memória das pessoas com quem ele tivesse vivido, as pessoas que ele tivesse sentido, ouvido, observado e amado.

texto: Silvio Ambrosini
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3 comentários:

Unknown disse...

Muito lindo como sempre, inteligente e verdadeiro. Voce é muito bom no que escreve. Parabens

Ademir Luiz Ruschel disse...

Muito bom Sivuca, como sempre.

Joe Ferreira disse...

Muito bom.