sexta-feira, 5 de julho de 2013

Morte na fila




No caixa eletrônico, uma longa fila. Tomo meu lugar calmamente, afinal apesar de ser mundialmente, intergalacticamente famoso, eu também pego fila, não é mesmo?

Faltavam apenas duas pessoas para chegar minha vez, quando surge um cidadão pela lateral esquerda armado com seu cartão e posiciona-se criando uma fila "caixa dois"...

Com o canto do olho fiquei observando e como previsto, libera o caixa e ele corre para a máquina para iniciar seu relacionamento com a tela.

Indignado, não me aguento e caminho até ele: "Senhor, senhor, tem uma fila lá atrás, o senhor não viu?". Enfezado, ele responde que quando ele chegara ao banco, não havia ninguém na fila e que ia ficar lá mesmo.
Achei um absurdo, "O senhor está furando a fila, isto está errado, o senhor deve voltar lá para o final, todas essas pessoas estão aqui esperando."
E ele mais enfezado ainda, dizendo que não ia pra fila "coisa nenhuma".

Então eu tinha que escolher entre resignar-me, subir em cima do muro, tomar um posicionamento neutro em um momento de crise e terminar no mais negro buraco do inferno de Dante ou agir. Claro que eu não ia bater no homem, então decidi usar minha ferramenta verborrágica:
"Vejam todos!! Vejam! este cidadão furou a fila, todos os senhores e senhoras estão aqui esperando sua vez e ele ultrapassou a todos. Todos estão aí calados e nada vai ser feito? Que absurdo! Que descalábrio! Provavelmente o senhor deve ser um político, não é mesmo? Onde é que estamos? Quem este homem pensa que é? Ele se acha melhor que todos? Furar a fila é um desrespeito!, uma falta de consideração por todas as pessoas que estão aí esperando a vez. Nada será dito? Nada será feito? Senhorita, senhorita, este homem furou a fila, faça alguma coisa!!"

A tal senhorita de jaqueta laranja lhe passou um pito, mas ele permaneceu incólume virado de costas fazendo suas transações enquanto eu me esvaía no meu texto.

Então, ele foi embora e ninguém mais disse nada, eu também parei de falar e assim terminou mais um momento de ligeira quebra de rotina na vida daquelas pessoas que jaziam mortas fazendo fila ao meu redor.

Eu, em compensação saí do banco vivo, pulsando, com o sangue correndo pelas minhas veias em alta temperatura e pronto para mais um dia não sem antes dividir isto com vocês, que espero profundamente que não estejam mortos como aquelas pessoas da fila.

2 comentários:

Silvio Garber disse...

Pode ser mesmo que ele chegou ao banco, utilizou o caixa, teve problemas, resolveu, e por haver usado o caixa antes se sentiu no direito de ignorar a fila. Pode ser que ele não se importe com o resto da sociedade e anarquicamente se sinta desobrigado a respeitar filas de qualquer natureza. Eu muitas vezes sinto esse tipo de impulso, principalmente no trânsito aonde os espaços alheios estão menos definidos.
De um jeito ou de outro ele merecia algum tipo de agressão, que vc gentilmente lhe proporcionou. A violência da agressão, no entanto, depende muito do quanto a atitude dele te incomodou.
Eu sempre me espantei com o fato de ninguém nunca ter assassinado o Maluf, mas eu mesmo também nunca tomei essa atitude.
Seria o caso de passar a ignorar as filas de maneira similar, até o momento que o banco designe um funcionário para ordenar a fila? Seria o caso de buzinar fortemente quando algum carro toma o espaço que na tua imaginação deveria ser teu? Seria o caso de ignorar tacitamente o ocorrido, já que sempre existirão pessoas ignorando as regras mais básicas da vida em sociedade?
Eu tenho adotado a última opção, que mantém meu nível de adrenalina mais baixo e preserva os dentes de todos.

Silvio Garber disse...

Pode ser mesmo que ele chegou ao banco, utilizou o caixa, teve problemas, resolveu, e por haver usado o caixa antes se sentiu no direito de ignorar a fila. Pode ser que ele não se importe com o resto da sociedade e anarquicamente se sinta desobrigado a respeitar filas de qualquer natureza. Eu muitas vezes sinto esse tipo de impulso, principalmente no trânsito aonde os espaços alheios estão menos definidos.
De um jeito ou de outro ele merecia algum tipo de agressão, que vc gentilmente lhe proporcionou. A violência da agressão, no entanto, depende muito do quanto a atitude dele te incomodou.
Eu sempre me espantei com o fato de ninguém nunca ter assassinado o Maluf, mas eu mesmo também nunca tomei essa atitude.
Seria o caso de passar a ignorar as filas de maneira similar, até o momento que o banco designe um funcionário para ordenar a fila? Seria o caso de buzinar fortemente quando algum carro toma o espaço que na tua imaginação deveria ser teu? Seria o caso de ignorar tacitamente o ocorrido, já que sempre existirão pessoas ignorando as regras mais básicas da vida em sociedade?
Eu tenho adotado a última opção, que mantém meu nível de adrenalina mais baixo e preserva os dentes de todos.