Uma torneirinha de escape para o maravilhoso e o aterrorizante do dia a dia de um cidadão do mundo, pai, voador, LGBT, empresário, meio surdo, que gosta demais de escrever. Aproveite para visitar meu instagram em @sivukus

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

SIVUCA - VENTOMANIA - Uma Vida Voando de Parapente.

 Este texto foi publicado no blog Ser Paizão, um blog voltado para a aviação, de meu amigo Jones Rodrigues. Eu fiz a entrevista por áudio e ele transcreveu o texto que agora colo aqui para vocês.

O texto foi originalmente publicado aqui.

Eu sou o Sivuca, um apelido carinho que meu avô meu deu. Na verdade meu nome é Sílvio. Sou Parapente e Escritor. Meu primeiro livro foi um sucesso, com duas edições totalmente vendidas e o segundo livro é meu xodó. No livro Ventomania o autor narra através de seu personagem João suas histórias repletas de emoções. 

Conta tudo o que aconteceu nos trinta anos de sua vida em contato com o voo de parapente. Aos poucos, o personagem se transforma no próprio autor, reservando para o desfecho da história, surpreendentes revelações.  Cada pedacinho do livro traz uma história. É interessante de ser lido não só por pilotos ou entusiastas da aviação. É um livro voltado para todo o tipo de pessoa.

Eu não posso dizer que tive uma infância voltada a esportes radicais, porque cresci num bairro típico de classe média em São Paulo. Minha infância era de brincar na rua, em lembro que a prefeitura estava canalizando o esgoto na minha rua. Então haviam algumas valas gigantescas que haviam sido escavadas para poder passar a tubulação, e eu passava os dias explorando essas valas. Entrava dentro daqueles buracos e saia do outro lado. 

Gostava muito de simular incêndios e também de subir no telhado e caminhar pela cumeeira. Então eu abria os braços e ia caminhando pela cumeeira de um lado ao outro me equilibrando. Gostava também de saltar do telhado. Saltava com a capa do Super Homem ou do Fantomas, o Guerreiro da Justiça. 

Nunca fui escoteiro, inclusive tive um amigo escoteiro. Eu lembro que eu até eu gozava dele. Eu nunca fui adepto do regime mais militar. Então, aquela coisa do escoteiro, do uniforme, da roupa bem passada e dobrada não combinava com a minha personalidade. O juramento e as doutrinas também não. Somos amigos até hoje, já são mais de cinquenta anos. Alias, outro dia almoçamos juntos. Um querido amigo de infância. 

Quando chegou a época do alistamento militar, eu não queria de jeito nenhum prestar o serviço, eu sempre fui uma pessoa livre para expor e discutir minhas ideias e vi que lá não seria meu lugar. Aquela hierarquia não era para mim. Como vi que não teria outra forma, acabei me inscrevendo para o CPOER, que felizmente fui dispensado. 

Vou contar um pouquinho de minhas histórias, que são muitas, vou resumir. Na verdade como você sabe um dos meus livros eu conto nos detalhes essas histórias. Eu escrevi dois livros. Um deles conta essas histórias, é uma leitura gostosa para se saborear. De se rir pelos cantos. De minhas trapalhadas. Ótima sugestão para um passageiro num voo de avião ou de ônibus. Ou então, numa tarde de chuva, para fugir da rotina do Shopping de um final de semana. Quem comprar não vai se arrepender. 

A ideia do voo livre surgiu por convite de um amigo. Na época meu irmão Fernando ainda era vivo, e casualmente hoje 15 de novembro faz 26 anos que ele faleceu. Então meu irmão trouxe essa novidade dizendo que o nosso amigo Denis tinha um paraglider. 

E nós muito curiosos fomos lá conhecer o tal de paraglider. E tudo foi muito louco porque a gente se reuniu ali em Franco da Rocha, fica aqui perto de São Paulo, um lugar muito perigoso. E eu sem treinamento e nada, simplesmente sai voando assim de primeira. 

Fiz um prego ali de primeira, batendo numa árvore. E estava consumado meu batismo e minha paixão por essa loucura toda. Ali eu já sabia que isso era amor a primeira vista. Então, o próximo voo foi em Santos, onde novamente eu cometi novos erros que por falta de capacitação e conhecimento eu cai em cima de uma carro, uma Brasília que estava parada na rua. Cai no meio da avenida, eu sai rolando rua a baixo. 

Aquela época nem se falava em Treinamento e Certificação, nem havia as regulamentações que hoje existem. O meu terceiro voo eu pousei num telhado de um morador de Santos. Advinha logo no telhado de quem eu fui cair? Não foi da polícia não. Foi do dono da Brasília.  Só em recordar desses fatos eu já dou gargalhadas. 



Então aprender a voar foi muito conturbado. Foi na tentativa e erro. Ou melhor no Methiolate e curativos. Meus pais claro ficavam apavorados, naquela época nem se falava sobre voar, e meu irmão para completar mais ainda o espetáculo dramático ele dizia para minha mãe "o Sílvio vai se matar. O seu filho vai acabar de matando qualquer hora." Mas meus pais já estavam acostumados com a minha longa vida de aventuras. Então de certa forma não ficavam tão aterrorizados com meus acidentes. Era isso essa vida de doido maluco ( Muitos risos trêmulos ). 

Na minha adolescência o meu melhor amigo era meu primo Alexandre, nós andávamos de skate e de patins, apostávamos corrida, saltávamos por cima da molecada. Era a época da Madona aparecendo com aquelas músicas. Quando eu fiz quinze anos, o meu primo foi embora morar nos Estados Unidos. Eu também amava fazer mergulho autônomo e andava muito de moto. Sempre gostei de andar de moto na terra, andava e acelerava. Talvez por todas essas coisas para meus pais o Parapente não enfartou eles. Ele sempre fui uma criança e um adolescente fora da curva tradicional.

Então, logo depois que eu comecei a voar de parapente, eu resolvi ir conhecer o mundo. Fiz minha mochila e me mandei para os Estados Unidos, isso já era um desejo antigo. Eu disse eu vou pra lá. E fui!!. Acho que essa foi a primeira coisa adulta que eu vim a fazer. Fui morar sozinho nos Estados Unidos. 

Fui aprender a me virar em outro mundo, outra cultura, outro idioma. Sem contatos, sem amigos, sem socorro, sem família. Cheguei lá com um ticket de trem, e então passei um mês rodando de trem. Eu fiz uma volta pela Costa Cento e depois subi pela Costa Leste, e depois vim descendo pelo Oregon, de lá para a Califórnia eu vinha pegando carona na estrada. 


E eu ficava sempre hospedado no Albergue da Juventude. Quando eu me encontrei com meu primo na Califórnia, fiquei sabendo que ele era motorista de caminhão. E eu fiquei com ele no início pra cima e para baixo, ele era recém casado com a esposa dele. Então ele me contou que estava comprando um caminhão novo e me ofereceu o caminhão velho para eu trabalhar. Então eu topei, e ele me ensinou a dirigir o caminhão. Eu aprendi rapidamente a dirigir aquele caminhão articulado. E rapidamente já estava trabalhando. Fiquei um ano trabalhando nos Estados Unidos e depois desse tempo fiquei com uma saudade louca para voltar para o Brasil, e voltei. 


Naquela época deixei de lado a aviação e me dediquei a música, porque eu também era músico. Eu tocava contra baixo.  Morar nos Estados Unidos abriu mais ainda minha mente, que nunca foi conservadora e tão pouco seguia os conceitos ditos como corretos. Posso dizer que morar nos Estados Unidos foi um verdadeiro batismo de adulto. 

Tive que me virar sozinho, tive que aprender a dirigir o caminhão, tive que aprender a resolver sozinho os meus problemas. E aprendi muito na convivência com pessoas de lá, outras mentes, sem os preconceitos existentes no Brasil, outras culturas, outras formas de ver as coisas.

Quando eu retornei ao Brasil, voltei ao parapente também. E dessa vez comecei a voar competição e assim desde 1993 venho participando de todos os Campeonatos Brasileiros de Parapente. Cheguei a integrar a equipe do Mundial de Brasileiros de Parapente e cheguei a voar na Áustria e assim venho voando até hoje.
Embora atualmente eu vou poucas vezes por ano preferindo excursões para o nordeste ou centro oeste. Além disso em 2002 conheci meu companheiro e em 2010 nasceu nossa filha que batizamos de Sol. Mas, continuei ministrando os cursos de segurança. Eu sempre fui instrutor de Curso de Segurança. Então fui diminuindo, até porque tenho outras atividades. 

Ao longo desse tempo eu escrevi dois livros. Um deles foi lançado em 2007, chamado Voando de Parapente. É um livro mais técnico, voltado para o aprendizado, para instrução. Enfim, orientação técnica do esporte. É um livro gostoso de ser lido, porque cada capítulo conta uma história verdadeira do voo de parapente. E assim, é possível dar uma relaxada ao mesmo tempo do assunto técnico que trata o livro. Este livro já teve duas edições e atualmente estou trabalhando na edição da terceira edição, pois a segunda já está esgotada.


O segundo livro lancei esse ano, é o Ventomania - Uma Vida Voando de Parapente. Onde retrata uma vida voando de parapente, que então já é um livro bem mais pessoal. Não é um livro técnico. Mas é repleto de ensinamentos que narra a minha história de trinta anos de parapente. É como eu falei, um livro muito gostoso de ser lido. 

Com muitas histórias reais e engraçadas. Conta casos reais dos locais que conheci, das pessoas que conheci e voei junto. Cada pedacinho do livro traz uma história. É interessante de ser lido não só por pilotos ou entusiastas da aviação. É um livro voltado para todo o tipo de pessoa. 

No meu livro Ventomania - Uma Vida Voando de Parapente são contadas histórias como a da Fada da Nuvem, que é até engraçada que eu conto sempre para meus alunos que eles um dia irão ver ela e inclusive isto está prometido para a minha filha dela fazer um voo de paramente para encontrar com a Fada da Nuvem. Mas como que eu encontrei a Fada da Nuvem? Isso foi a muitos anos atrás lá em Governador Valadares, onde a condição estava muito espetacular e era um dia que haviam muitas nuvens. Na verdade "nuvens cúmulos". São essas nuvens que nascem das térmicas. Então eu consegui pegar carona numa térmica e fui subindo, subindo, subindo. 

Até que cheguei na nuvem. Só que ao invés de eu ir reto e sair da nuvem, eu continuei entrando. Continuei subindo, subindo, subindo. E quando você entra dentro de uma nuvem, aquilo fico rapidamente muito úmido né. Praticamente vira garoa ali dentro. Começa a escorrer água, o frio começa bastante. Na medida que você sobe, lá pelos 400 metros na base da nuvem, já começa também a ter sinal de congelamento em razão do muito frio que é lá. 

Eu passei por essa experiência fantástica. E finalmente eu sai pela lateral da nuvem. Foi nesse momento a parte mais linda dessa aventura. Porque no momento que você sai pela lateral da nuvem, você está acima da base dela, e o que você vê ao redor dela é como se fossem prédios de algodão. 

Você vê toda a lateral da nuvem. E você voando como se estivesse ao lado de um paredão de algodão. E o sol quando reflete em você, por exemplo se o sol bate em você no lado direito ele projeta a sua sombra para o lado esquerdo, e se no lado esquerdo existir uma nuvem, então nesse momento é formado um espetacular arco íris. Um arco íris completamente redondo de 360 graus ao redor dessa sombra. Então eu acredito que a única forma dessa maravilha acontecer é você voando. E é essa visão do arco íris redondo que eu batizei de Fada da Nuvem. É uma experiência lindíssima e espetacular. 

Voltando a minha história, e minha adolescência eu recordo que lá pelos meus 13 ou 14 anos, eu ajudava meu pai no trabalho dele, que era rádio amador. Acabei me tornando também rádio amador. Ele construía antenas enormes. Assim passávamos nossos dias voltados para a construção de antenas de longa distância, fazendo comunicados de longa distância. Eu aprendi telegrafia. 

E eu me dependurava nas torres para levar aquelas antenas lá para cima, e eu nunca tive medo daquela altura toda não. Eu nunca tive medo de altura. O único temor que eu tinha era quando eu andava de moto e era perseguido por algum cachorro. Hoje eu acho isso até engraçado, mas acho que não era medo propriamente dito. Deveria ser o instinto animal e natural dos homens pela sobrevivência ou ameaça do cachorro.

Voar de parapente para mim faz parte da minha vida. Eu acredito que a parte mais interessante ao estar lá no céu é estar distante de tudo. É uma sensação de liberdade e solidão ao mesmo tempo. Você está pendurado no céu longe do chão, não tem nada perto. Não tem paredes, não tem teto. Não tem coisa alguma.  

Você é apenas um pequeno ponto no céu. Isso é muito gratificante na minha vida. Muito emocionante. Como eu disse, eu tenho um companheiro, e eu sempre lidei com essa parte da minha vida de uma forma muito tranquila, talvez tenha sido pelo fato de ter morado nos Estados Unidos, de ter convivido com aquela cultura aberta para o que ainda é preconceito nos dias de hoje no Brasil. 

Então hoje eu sou pai de uma uma menina que nós adotamos quando ela nasceu. Hoje ela já está com dez anos. Posso até dizer que muitas pessoas manifestam uma curiosidade no assunto. E eu sempre fui aberto para debater e bater papo sobre minha orientação sexual. Ou seja, ajudar a desmistificar esse assunto que ainda é preconceito e tabu aqui no Brasil. 

Eu percebo que para algumas pessoas a homo afetividade é um complicador na vida delas. Então, eu me sinto também no dever de contribuir para ajudar essas pessoas. Porque a sexualidade ao meu ver faz parte de cada pessoa e ninguém escolhe sua orientação sexual. Isso é uma condição como a cor dos olhos ou a cor da pele. Ninguém decide "virar gay". Uma pessoa nasce gay ou nasce hetero, ela não pode escolher isso. 

O voo livre é um esporte muito perigoso, isso é inquestionável. Mas deve ser praticado com base de procedimentos, que visão transformar todas as ações no voo em procedimentos seguros, para evitar erros. O que machuca as pessoas na aviação e no voo livre também é a sucessão de erros. É essencial que a pessoa que queira aprender tenha em mente que não é como sair andando de bicicleta. A partir do momento que você se afastou do chão a volta ao chão pode ser bem dolorida. 

Assim, é muito importante respeitar os procedimentos.  Não deixa de ser uma coisa muito interessante porque as pessoas são colocadas a prova. Você se torna obrigado a seguir os procedimentos de segurança, que infelizmente muitas vezes as pessoas não adotam no seu dia a dia, justamente porque a vida das pessoas com os pés no chão é mais segura. 

No decorrer desses anos que sou instrutor, muitas pessoas vieram me agradecer dizendo "Olha Sivuca eu ter aprendido a voar de parapente me tornou uma pessoa melhor, porque fui obrigado a adotar procedimentos, a me preparar para aquilo que eu vou fazer, pensar, refletir, planejar". Assim são regras que os pilotos acabam levando para o seu dia a dia. 

E isso ajudou o dia a dia dessas pessoas. As pessoas passaram a errar menos, a serem menos displicentes em todas as suas áreas da vida. Consequentemente eu entendo que o voo livre é uma escola de vida. Se você se torna um bom piloto, automaticamente você melhora a sua vida social, emocional, profissional e assim por diante. 

O voar de parapente como eu falei requer adotar e seguir procedimentos, padrão, muita preparação e principalmente os pés no chão. Porque para você se pendurar no ar, você precisa ter os pés no chão. Eu acredito que o caminho é uma ótima escola, um bom instrutor, devidamente homologados pelas associações. Entendo que o candidato a voo livre tem que procurar o que tem de melhor. 

Fugir dos preços baixos. Fugir do amadorismo. Procurar se aproximar do que ele encontrar de melhor em todos os aspectos. Porque é a vida do cara ali pendurada. É um esporte complexo, e não da para ser levado de uma maneira superficial, de uma maneira banal, de uma maneira imprudente. 


Não é um hobby a  mais de final de semana que você aplica em sua vida e no outro final de semana você vai fazer outra coisa. Não é isso. O voo livre precisa de um envolvimento muito maior. Precisa de fato de dedicação, de envolvimento sério, especialmente nesse primeiro ano que a pessoa começa a voar, ela precisa tomar horas de voo, ela precisa somar experiência, ela precisa crescer como piloto, evitando o espaçamento de treino. 

Um erro que as pessoas cometem muito é começar a treinar numa semana e na outra tem um compromisso e depois ele volta quinze dias depois ou mais. Isso é um erro grave porque o corpo e a mente se esquecem dos movimentos, e você acaba perdendo um tempo enorme para recuperar e aumentando o nível de risco. 


Eu tenho um site que se chama Ventomania, nesse site você encontra a Rádio Vento Mania, que é uma pequena brincadeira que vale a pena ouvir as gravações e também permite comprar os meus dois Livros e mais algumas publicações. Eu tenho também um blog chamado http://asboascoisas.blogspot.com, que onde eu escrevo textos pessoais, minhas opiniões e convido todos a visitar o blog também.

Meu sonho é a utopia da humanidade, passar a levar uma vida tranquila, junto de quem eu amo. Ver a minha filha crescer e se tornar uma pessoa capaz de tomar conta de sua própria vida. Continuar voando até quando e onde for possível. Inclusive nessa semana que entra estou indo para o Ceara novamente. Estou voltando para o sertão do Ceará para participar do evento XCEARA. E vamos tentar fazer recordes de distância, quem sabe eu termine essa semana com um novo recorde pessoal de distância percorrida de Parapente. Meu maior voo até hoje foi de 300 KMs





sábado, 14 de novembro de 2020

Protestar é viver - Posfácio não publicado do livro Ventomania

Hoje fui até a janela do quarto com minha filha Sol, munido de um par de panelas e colheres de pau. Foi dia de panelaço. Juntos, batemos aquelas panelas, gritamos e rimos muito, por um bom tempo enquanto revezávamos o samba com os vizinhos que se manifestavam em peso. Depois, levei-a para a cama e contei uma história. Então ela me perguntou por que afinal tínhamos batido as panelas. Eu expliquei que fazer barulho daquele jeito é uma maneira de lembrar às pessoas que nós também existimos, que não somos apenas sombras numa janela, que somos gente como qualquer outra gente, que somos uma família, que se ama e merece ser feliz.
Expliquei que conforme disse Elis Regina, "há perigo na esquina", então é preciso protestar contra os perigos enquanto podemos.

Protestar é viver, é mostrar a cara, é lembrar que está vivo.

Ela sorri, diz que ama, diz boa noite, dou-lhe um longo beijo e a cubro com os lençóis. 

A cumplicidade dela é peculiar, a relação com minha filha vai além de pai e filha. Não sou nada autoritário, o que as vezes termina me fazendo parecer que temos a mesma idade. Então juntos, nos divertimos e aprontamos travessuras. Ela parece ter um pedacinho de meu irmão morto, agora vivo, aqui perto de mim, um pouco como reencarnação, se eu acreditasse, apesar de achar a ideia eletrizante.

Uma vez li que por trás de nossa aparência física, existe uma aparência inorgânica, deliciosa teoria. Esse ser inorgânico é algo como um “casulo luminoso”. O casulo é, ou ao menos deveria ser perfeito, mas então quando nos tornamos pais, cedemos um pedaço do casulo para ajudar na construção do casulo de nossos filhos. De onde saiu o pedaço, fica um buraco, por onde flui amor incondicional, nos conectando como que por fios, com nossos filhos. Esses fios poderão um dia se romper, voluntariamente, ou não, mas o buraco permanece e apesar de poder ser disfarçado ou chegar perto de ser reparado, nunca mais desaparecerá. A conexão poderá se romper, mas a fonte dela, permanecerá ali para sempre, porque somos pais e para sempre, amaremos nossos filhos, independentemente de que caminhos eles sigam.

Escrevi esse texto para que fosse o posfácio de meu livro Ventomania, uma vida voando de parapente, mas era tarde demais, o prelo já rodava e a gráfica acelerava. O posfácio ficou, mas aqui está ele para a próxima edição, quem sabe talvez até lá, não será preciso protestar...

O livro "Ventomania, uma vida voando de parapente" pode ser adquirido aqui.