Uma torneirinha de escape para o maravilhoso e o aterrorizante do dia a dia de um cidadão do mundo, pai, voador, LGBT, empresário, meio surdo, que gosta demais de escrever. Aproveite para visitar meu instagram em @sivukus

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

SIVUCA - VENTOMANIA - Uma Vida Voando de Parapente.

 Este texto foi publicado no blog Ser Paizão, um blog voltado para a aviação, de meu amigo Jones Rodrigues. Eu fiz a entrevista por áudio e ele transcreveu o texto que agora colo aqui para vocês.

O texto foi originalmente publicado aqui.

Eu sou o Sivuca, um apelido carinho que meu avô meu deu. Na verdade meu nome é Sílvio. Sou Parapente e Escritor. Meu primeiro livro foi um sucesso, com duas edições totalmente vendidas e o segundo livro é meu xodó. No livro Ventomania o autor narra através de seu personagem João suas histórias repletas de emoções. 

Conta tudo o que aconteceu nos trinta anos de sua vida em contato com o voo de parapente. Aos poucos, o personagem se transforma no próprio autor, reservando para o desfecho da história, surpreendentes revelações.  Cada pedacinho do livro traz uma história. É interessante de ser lido não só por pilotos ou entusiastas da aviação. É um livro voltado para todo o tipo de pessoa.

Eu não posso dizer que tive uma infância voltada a esportes radicais, porque cresci num bairro típico de classe média em São Paulo. Minha infância era de brincar na rua, em lembro que a prefeitura estava canalizando o esgoto na minha rua. Então haviam algumas valas gigantescas que haviam sido escavadas para poder passar a tubulação, e eu passava os dias explorando essas valas. Entrava dentro daqueles buracos e saia do outro lado. 

Gostava muito de simular incêndios e também de subir no telhado e caminhar pela cumeeira. Então eu abria os braços e ia caminhando pela cumeeira de um lado ao outro me equilibrando. Gostava também de saltar do telhado. Saltava com a capa do Super Homem ou do Fantomas, o Guerreiro da Justiça. 

Nunca fui escoteiro, inclusive tive um amigo escoteiro. Eu lembro que eu até eu gozava dele. Eu nunca fui adepto do regime mais militar. Então, aquela coisa do escoteiro, do uniforme, da roupa bem passada e dobrada não combinava com a minha personalidade. O juramento e as doutrinas também não. Somos amigos até hoje, já são mais de cinquenta anos. Alias, outro dia almoçamos juntos. Um querido amigo de infância. 

Quando chegou a época do alistamento militar, eu não queria de jeito nenhum prestar o serviço, eu sempre fui uma pessoa livre para expor e discutir minhas ideias e vi que lá não seria meu lugar. Aquela hierarquia não era para mim. Como vi que não teria outra forma, acabei me inscrevendo para o CPOER, que felizmente fui dispensado. 

Vou contar um pouquinho de minhas histórias, que são muitas, vou resumir. Na verdade como você sabe um dos meus livros eu conto nos detalhes essas histórias. Eu escrevi dois livros. Um deles conta essas histórias, é uma leitura gostosa para se saborear. De se rir pelos cantos. De minhas trapalhadas. Ótima sugestão para um passageiro num voo de avião ou de ônibus. Ou então, numa tarde de chuva, para fugir da rotina do Shopping de um final de semana. Quem comprar não vai se arrepender. 

A ideia do voo livre surgiu por convite de um amigo. Na época meu irmão Fernando ainda era vivo, e casualmente hoje 15 de novembro faz 26 anos que ele faleceu. Então meu irmão trouxe essa novidade dizendo que o nosso amigo Denis tinha um paraglider. 

E nós muito curiosos fomos lá conhecer o tal de paraglider. E tudo foi muito louco porque a gente se reuniu ali em Franco da Rocha, fica aqui perto de São Paulo, um lugar muito perigoso. E eu sem treinamento e nada, simplesmente sai voando assim de primeira. 

Fiz um prego ali de primeira, batendo numa árvore. E estava consumado meu batismo e minha paixão por essa loucura toda. Ali eu já sabia que isso era amor a primeira vista. Então, o próximo voo foi em Santos, onde novamente eu cometi novos erros que por falta de capacitação e conhecimento eu cai em cima de uma carro, uma Brasília que estava parada na rua. Cai no meio da avenida, eu sai rolando rua a baixo. 

Aquela época nem se falava em Treinamento e Certificação, nem havia as regulamentações que hoje existem. O meu terceiro voo eu pousei num telhado de um morador de Santos. Advinha logo no telhado de quem eu fui cair? Não foi da polícia não. Foi do dono da Brasília.  Só em recordar desses fatos eu já dou gargalhadas. 



Então aprender a voar foi muito conturbado. Foi na tentativa e erro. Ou melhor no Methiolate e curativos. Meus pais claro ficavam apavorados, naquela época nem se falava sobre voar, e meu irmão para completar mais ainda o espetáculo dramático ele dizia para minha mãe "o Sílvio vai se matar. O seu filho vai acabar de matando qualquer hora." Mas meus pais já estavam acostumados com a minha longa vida de aventuras. Então de certa forma não ficavam tão aterrorizados com meus acidentes. Era isso essa vida de doido maluco ( Muitos risos trêmulos ). 

Na minha adolescência o meu melhor amigo era meu primo Alexandre, nós andávamos de skate e de patins, apostávamos corrida, saltávamos por cima da molecada. Era a época da Madona aparecendo com aquelas músicas. Quando eu fiz quinze anos, o meu primo foi embora morar nos Estados Unidos. Eu também amava fazer mergulho autônomo e andava muito de moto. Sempre gostei de andar de moto na terra, andava e acelerava. Talvez por todas essas coisas para meus pais o Parapente não enfartou eles. Ele sempre fui uma criança e um adolescente fora da curva tradicional.

Então, logo depois que eu comecei a voar de parapente, eu resolvi ir conhecer o mundo. Fiz minha mochila e me mandei para os Estados Unidos, isso já era um desejo antigo. Eu disse eu vou pra lá. E fui!!. Acho que essa foi a primeira coisa adulta que eu vim a fazer. Fui morar sozinho nos Estados Unidos. 

Fui aprender a me virar em outro mundo, outra cultura, outro idioma. Sem contatos, sem amigos, sem socorro, sem família. Cheguei lá com um ticket de trem, e então passei um mês rodando de trem. Eu fiz uma volta pela Costa Cento e depois subi pela Costa Leste, e depois vim descendo pelo Oregon, de lá para a Califórnia eu vinha pegando carona na estrada. 


E eu ficava sempre hospedado no Albergue da Juventude. Quando eu me encontrei com meu primo na Califórnia, fiquei sabendo que ele era motorista de caminhão. E eu fiquei com ele no início pra cima e para baixo, ele era recém casado com a esposa dele. Então ele me contou que estava comprando um caminhão novo e me ofereceu o caminhão velho para eu trabalhar. Então eu topei, e ele me ensinou a dirigir o caminhão. Eu aprendi rapidamente a dirigir aquele caminhão articulado. E rapidamente já estava trabalhando. Fiquei um ano trabalhando nos Estados Unidos e depois desse tempo fiquei com uma saudade louca para voltar para o Brasil, e voltei. 


Naquela época deixei de lado a aviação e me dediquei a música, porque eu também era músico. Eu tocava contra baixo.  Morar nos Estados Unidos abriu mais ainda minha mente, que nunca foi conservadora e tão pouco seguia os conceitos ditos como corretos. Posso dizer que morar nos Estados Unidos foi um verdadeiro batismo de adulto. 

Tive que me virar sozinho, tive que aprender a dirigir o caminhão, tive que aprender a resolver sozinho os meus problemas. E aprendi muito na convivência com pessoas de lá, outras mentes, sem os preconceitos existentes no Brasil, outras culturas, outras formas de ver as coisas.

Quando eu retornei ao Brasil, voltei ao parapente também. E dessa vez comecei a voar competição e assim desde 1993 venho participando de todos os Campeonatos Brasileiros de Parapente. Cheguei a integrar a equipe do Mundial de Brasileiros de Parapente e cheguei a voar na Áustria e assim venho voando até hoje.
Embora atualmente eu vou poucas vezes por ano preferindo excursões para o nordeste ou centro oeste. Além disso em 2002 conheci meu companheiro e em 2010 nasceu nossa filha que batizamos de Sol. Mas, continuei ministrando os cursos de segurança. Eu sempre fui instrutor de Curso de Segurança. Então fui diminuindo, até porque tenho outras atividades. 

Ao longo desse tempo eu escrevi dois livros. Um deles foi lançado em 2007, chamado Voando de Parapente. É um livro mais técnico, voltado para o aprendizado, para instrução. Enfim, orientação técnica do esporte. É um livro gostoso de ser lido, porque cada capítulo conta uma história verdadeira do voo de parapente. E assim, é possível dar uma relaxada ao mesmo tempo do assunto técnico que trata o livro. Este livro já teve duas edições e atualmente estou trabalhando na edição da terceira edição, pois a segunda já está esgotada.


O segundo livro lancei esse ano, é o Ventomania - Uma Vida Voando de Parapente. Onde retrata uma vida voando de parapente, que então já é um livro bem mais pessoal. Não é um livro técnico. Mas é repleto de ensinamentos que narra a minha história de trinta anos de parapente. É como eu falei, um livro muito gostoso de ser lido. 

Com muitas histórias reais e engraçadas. Conta casos reais dos locais que conheci, das pessoas que conheci e voei junto. Cada pedacinho do livro traz uma história. É interessante de ser lido não só por pilotos ou entusiastas da aviação. É um livro voltado para todo o tipo de pessoa. 

No meu livro Ventomania - Uma Vida Voando de Parapente são contadas histórias como a da Fada da Nuvem, que é até engraçada que eu conto sempre para meus alunos que eles um dia irão ver ela e inclusive isto está prometido para a minha filha dela fazer um voo de paramente para encontrar com a Fada da Nuvem. Mas como que eu encontrei a Fada da Nuvem? Isso foi a muitos anos atrás lá em Governador Valadares, onde a condição estava muito espetacular e era um dia que haviam muitas nuvens. Na verdade "nuvens cúmulos". São essas nuvens que nascem das térmicas. Então eu consegui pegar carona numa térmica e fui subindo, subindo, subindo. 

Até que cheguei na nuvem. Só que ao invés de eu ir reto e sair da nuvem, eu continuei entrando. Continuei subindo, subindo, subindo. E quando você entra dentro de uma nuvem, aquilo fico rapidamente muito úmido né. Praticamente vira garoa ali dentro. Começa a escorrer água, o frio começa bastante. Na medida que você sobe, lá pelos 400 metros na base da nuvem, já começa também a ter sinal de congelamento em razão do muito frio que é lá. 

Eu passei por essa experiência fantástica. E finalmente eu sai pela lateral da nuvem. Foi nesse momento a parte mais linda dessa aventura. Porque no momento que você sai pela lateral da nuvem, você está acima da base dela, e o que você vê ao redor dela é como se fossem prédios de algodão. 

Você vê toda a lateral da nuvem. E você voando como se estivesse ao lado de um paredão de algodão. E o sol quando reflete em você, por exemplo se o sol bate em você no lado direito ele projeta a sua sombra para o lado esquerdo, e se no lado esquerdo existir uma nuvem, então nesse momento é formado um espetacular arco íris. Um arco íris completamente redondo de 360 graus ao redor dessa sombra. Então eu acredito que a única forma dessa maravilha acontecer é você voando. E é essa visão do arco íris redondo que eu batizei de Fada da Nuvem. É uma experiência lindíssima e espetacular. 

Voltando a minha história, e minha adolescência eu recordo que lá pelos meus 13 ou 14 anos, eu ajudava meu pai no trabalho dele, que era rádio amador. Acabei me tornando também rádio amador. Ele construía antenas enormes. Assim passávamos nossos dias voltados para a construção de antenas de longa distância, fazendo comunicados de longa distância. Eu aprendi telegrafia. 

E eu me dependurava nas torres para levar aquelas antenas lá para cima, e eu nunca tive medo daquela altura toda não. Eu nunca tive medo de altura. O único temor que eu tinha era quando eu andava de moto e era perseguido por algum cachorro. Hoje eu acho isso até engraçado, mas acho que não era medo propriamente dito. Deveria ser o instinto animal e natural dos homens pela sobrevivência ou ameaça do cachorro.

Voar de parapente para mim faz parte da minha vida. Eu acredito que a parte mais interessante ao estar lá no céu é estar distante de tudo. É uma sensação de liberdade e solidão ao mesmo tempo. Você está pendurado no céu longe do chão, não tem nada perto. Não tem paredes, não tem teto. Não tem coisa alguma.  

Você é apenas um pequeno ponto no céu. Isso é muito gratificante na minha vida. Muito emocionante. Como eu disse, eu tenho um companheiro, e eu sempre lidei com essa parte da minha vida de uma forma muito tranquila, talvez tenha sido pelo fato de ter morado nos Estados Unidos, de ter convivido com aquela cultura aberta para o que ainda é preconceito nos dias de hoje no Brasil. 

Então hoje eu sou pai de uma uma menina que nós adotamos quando ela nasceu. Hoje ela já está com dez anos. Posso até dizer que muitas pessoas manifestam uma curiosidade no assunto. E eu sempre fui aberto para debater e bater papo sobre minha orientação sexual. Ou seja, ajudar a desmistificar esse assunto que ainda é preconceito e tabu aqui no Brasil. 

Eu percebo que para algumas pessoas a homo afetividade é um complicador na vida delas. Então, eu me sinto também no dever de contribuir para ajudar essas pessoas. Porque a sexualidade ao meu ver faz parte de cada pessoa e ninguém escolhe sua orientação sexual. Isso é uma condição como a cor dos olhos ou a cor da pele. Ninguém decide "virar gay". Uma pessoa nasce gay ou nasce hetero, ela não pode escolher isso. 

O voo livre é um esporte muito perigoso, isso é inquestionável. Mas deve ser praticado com base de procedimentos, que visão transformar todas as ações no voo em procedimentos seguros, para evitar erros. O que machuca as pessoas na aviação e no voo livre também é a sucessão de erros. É essencial que a pessoa que queira aprender tenha em mente que não é como sair andando de bicicleta. A partir do momento que você se afastou do chão a volta ao chão pode ser bem dolorida. 

Assim, é muito importante respeitar os procedimentos.  Não deixa de ser uma coisa muito interessante porque as pessoas são colocadas a prova. Você se torna obrigado a seguir os procedimentos de segurança, que infelizmente muitas vezes as pessoas não adotam no seu dia a dia, justamente porque a vida das pessoas com os pés no chão é mais segura. 

No decorrer desses anos que sou instrutor, muitas pessoas vieram me agradecer dizendo "Olha Sivuca eu ter aprendido a voar de parapente me tornou uma pessoa melhor, porque fui obrigado a adotar procedimentos, a me preparar para aquilo que eu vou fazer, pensar, refletir, planejar". Assim são regras que os pilotos acabam levando para o seu dia a dia. 

E isso ajudou o dia a dia dessas pessoas. As pessoas passaram a errar menos, a serem menos displicentes em todas as suas áreas da vida. Consequentemente eu entendo que o voo livre é uma escola de vida. Se você se torna um bom piloto, automaticamente você melhora a sua vida social, emocional, profissional e assim por diante. 

O voar de parapente como eu falei requer adotar e seguir procedimentos, padrão, muita preparação e principalmente os pés no chão. Porque para você se pendurar no ar, você precisa ter os pés no chão. Eu acredito que o caminho é uma ótima escola, um bom instrutor, devidamente homologados pelas associações. Entendo que o candidato a voo livre tem que procurar o que tem de melhor. 

Fugir dos preços baixos. Fugir do amadorismo. Procurar se aproximar do que ele encontrar de melhor em todos os aspectos. Porque é a vida do cara ali pendurada. É um esporte complexo, e não da para ser levado de uma maneira superficial, de uma maneira banal, de uma maneira imprudente. 


Não é um hobby a  mais de final de semana que você aplica em sua vida e no outro final de semana você vai fazer outra coisa. Não é isso. O voo livre precisa de um envolvimento muito maior. Precisa de fato de dedicação, de envolvimento sério, especialmente nesse primeiro ano que a pessoa começa a voar, ela precisa tomar horas de voo, ela precisa somar experiência, ela precisa crescer como piloto, evitando o espaçamento de treino. 

Um erro que as pessoas cometem muito é começar a treinar numa semana e na outra tem um compromisso e depois ele volta quinze dias depois ou mais. Isso é um erro grave porque o corpo e a mente se esquecem dos movimentos, e você acaba perdendo um tempo enorme para recuperar e aumentando o nível de risco. 


Eu tenho um site que se chama Ventomania, nesse site você encontra a Rádio Vento Mania, que é uma pequena brincadeira que vale a pena ouvir as gravações e também permite comprar os meus dois Livros e mais algumas publicações. Eu tenho também um blog chamado http://asboascoisas.blogspot.com, que onde eu escrevo textos pessoais, minhas opiniões e convido todos a visitar o blog também.

Meu sonho é a utopia da humanidade, passar a levar uma vida tranquila, junto de quem eu amo. Ver a minha filha crescer e se tornar uma pessoa capaz de tomar conta de sua própria vida. Continuar voando até quando e onde for possível. Inclusive nessa semana que entra estou indo para o Ceara novamente. Estou voltando para o sertão do Ceará para participar do evento XCEARA. E vamos tentar fazer recordes de distância, quem sabe eu termine essa semana com um novo recorde pessoal de distância percorrida de Parapente. Meu maior voo até hoje foi de 300 KMs





sábado, 14 de novembro de 2020

Protestar é viver - Posfácio não publicado do livro Ventomania

Hoje fui até a janela do quarto com minha filha Sol, munido de um par de panelas e colheres de pau. Foi dia de panelaço. Juntos, batemos aquelas panelas, gritamos e rimos muito, por um bom tempo enquanto revezávamos o samba com os vizinhos que se manifestavam em peso. Depois, levei-a para a cama e contei uma história. Então ela me perguntou por que afinal tínhamos batido as panelas. Eu expliquei que fazer barulho daquele jeito é uma maneira de lembrar às pessoas que nós também existimos, que não somos apenas sombras numa janela, que somos gente como qualquer outra gente, que somos uma família, que se ama e merece ser feliz.
Expliquei que conforme disse Elis Regina, "há perigo na esquina", então é preciso protestar contra os perigos enquanto podemos.

Protestar é viver, é mostrar a cara, é lembrar que está vivo.

Ela sorri, diz que ama, diz boa noite, dou-lhe um longo beijo e a cubro com os lençóis. 

A cumplicidade dela é peculiar, a relação com minha filha vai além de pai e filha. Não sou nada autoritário, o que as vezes termina me fazendo parecer que temos a mesma idade. Então juntos, nos divertimos e aprontamos travessuras. Ela parece ter um pedacinho de meu irmão morto, agora vivo, aqui perto de mim, um pouco como reencarnação, se eu acreditasse, apesar de achar a ideia eletrizante.

Uma vez li que por trás de nossa aparência física, existe uma aparência inorgânica, deliciosa teoria. Esse ser inorgânico é algo como um “casulo luminoso”. O casulo é, ou ao menos deveria ser perfeito, mas então quando nos tornamos pais, cedemos um pedaço do casulo para ajudar na construção do casulo de nossos filhos. De onde saiu o pedaço, fica um buraco, por onde flui amor incondicional, nos conectando como que por fios, com nossos filhos. Esses fios poderão um dia se romper, voluntariamente, ou não, mas o buraco permanece e apesar de poder ser disfarçado ou chegar perto de ser reparado, nunca mais desaparecerá. A conexão poderá se romper, mas a fonte dela, permanecerá ali para sempre, porque somos pais e para sempre, amaremos nossos filhos, independentemente de que caminhos eles sigam.

Escrevi esse texto para que fosse o posfácio de meu livro Ventomania, uma vida voando de parapente, mas era tarde demais, o prelo já rodava e a gráfica acelerava. O posfácio ficou, mas aqui está ele para a próxima edição, quem sabe talvez até lá, não será preciso protestar...

O livro "Ventomania, uma vida voando de parapente" pode ser adquirido aqui.


segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Sexualidade, Transexuais, Tammy Miranda e Natura





Sexualidade, Transexuais, Tammy Miranda e Natura


Meu amigo Antônio Viviani deu vida ao meu texto sobre sexualidade. Ele é locutor e fez esta gravação para o programa "Texto Sentido" acompanhem https://youtu.be/bbgeeUU4J6k

Eu gostaria de acrescentar que quando a gente chega em uma parte da vida em que um profissional da envergadura do Antônio Viviani lhe faz um telefonema pedindo autorização para gravar um texto seu, você chega a conclusão que realmente percorreu o caminho certo. Fico profundamente lisonjeado e agradecido a ele por esta fantástica obra, especialmente levando em conta que o texto em si não é um assunto nada fácil de ser sequer abordado.

Muito obrigado, Antônio.

Sivuca

#transexualidade #lgbtqia #tranfobia #homofobia #preconceito



Eis o texto original:



O que penso sobre o preconceito contra transexuais, Natura e Tammy Miranda.

Gostaria de ressaltar que embora devesse, iniciei esse texto com um discreto "O que penso..." e não com um "A verdade é...". Então se você não pensa assim, paciência, né?

Nossa cultura vê o falo como símbolo do modelo masculino, porém um homem não é seu pênis. O gênero não se resume àquilo que está entre as pernas, a genitália. O gênero de uma pessoa é o retrato de uma mente, ou se preferir entender assim, de uma alma. Sendo assim, pessoas que nascem com um sexo e sentem que pertencem, se identificam com este mesmo sexo, como eu e você são pessoas cisgênero. Homens ou mulheres cisgênero, ou apenas cis.
Por outro lado existem aquelas pessoas que sentem que pertencem a um sexo diferente do sexo biológico. Estas pessoas são chamadas transgênero. Isso se chama Identidade Sexual, ou seja, o sexo a qual a pessoa sente que pertence.

Isso pode acontecer tanto com pessoas de um sexo quanto com pessoas do outro. Estas pessoas podem ser homens trans, como Tammy e vários outros, e também podem ser mulheres trans, como a cartunista Laerte, por exemplo. (lembre-se que Laerte transformou-se após os 65 anos de idade).

Quando uma pessoa transgênero decide passar a realmente identificar-se como pertencendo ao outro sexo, essa pessoa passa a ser transexual. Isso pode nunca acontecer, ou acontecer em qualquer fase da vida da pessoa, depende exclusivamente dela, das motivações interiores e exteriores a que esta pessoa está sujeita. Imagine que um número enorme de pessoas trans simplesmente não conseguem sentir-se seguras para assumir seu verdadeiro sexo e não há dúvida que estas pessoas passam por um sofrimento enorme até que esta questão tão grave possa quem sabe um dia, estar finalmente resolvida na vida dela.

A essa altura, o pênis ou a vagina, de fato torna-se um detalhe, afinal você não precisa ver o pênis para identificar um homem na rua e nem ver a vagina para concluir que está diante de uma mulher, basta olhar para a aparência. Homens gostam de se parecer com homens e mulheres sentem-se felizes parecidas com mulheres. É claro que isso não é binário, existem muitas graduações de uma ponta desse fio até o outro.
De fato, o pênis é hipervalorizado pela nossa cultura, e a verdade é que não importa se um homem trans o possui, pois mesmo sem um, ele ainda será um homem, da mesma maneira que se por exemplo, um homem cis sofrer um acidente e ter seu pênis cortado, ele não se transformará em uma mulher, ao contrário, seguirá sendo um homem, porém um homem sem um pênis.

Então, não vem ao caso se Tammy tem ou não pênis, Tammy é um homem trans. Sente-se homem, identifica-se como sendo um homem e ainda por cima é um homem heterossexual, pois casou-se com uma mulher e juntos, tiveram um filho (não vem ao caso de que forma a criança foi gerada, não é mesmo?).
Aproveito o detalhe para lembrar que a Identidade sexual não tem relação com a Preferência Sexual. A preferência é assim como diz o nome, com qual sexo a pessoa prefere se relacionar (ir pra cama). Quem prefere pessoas do outro sexo, como o Tammy (porque Tammy é homem) ou como muitos de vocês, são pessoas heterossexuais. Quem prefere pessoas do mesmo sexo como a Daniela Mercury ou eu ou muitos de nós, são pessoas homossexuais. Isso não tem relação com a identidade sexual. Daniela é uma mulher cisgênero homossexual. Há os homem cisgênero heterossexuais, Tammy é um homem transgênero heterossexual. Eu e muitos, somos homens cisgênero homossexuais.

Como comentei acima, estas pessoas não têm uma vida nada fácil, especialmente em um país machista e pouco culto como o nosso e são facilmente alvo de intolerância, desprezo e violência todos os dias.

Isso é lamentavelmente triste, em minha opinião, todos os seres humanos são iguais e não cabe a mim ou a ninguém julgar ninguém por acreditar naquilo que sente na parte mais profunda de seu ser.

Transfobia, assim como homofobia, racismo ou qualquer outro tipo de preconceito, é uma merda, um inferno, um câncer que arruína nossa condição de seres humanos sociais e são comportamentos que devem ser insistentemente enfrentados e coibidos.


Não é suficiente fingir que não viu, que não é comigo, silenciar-se, porque quem cala, consente. Quem se cala diante do preconceito o avaliza. É sim preciso lutar, lutar pelo direito que todas as pessoas têm de serem tratadas como iguais, sejam elas quem forem, com quem ou o que se parecem, que cor têm, ou com quem elas vão para cama.


sexta-feira, 24 de abril de 2020

A perda do pai
























Ou "Como me descobri ateu e segui vivendo feliz"

As vezes me perguntam como é que que pude "me tornar ateu"... bem, eu não fiz uma escolha, não me tornei ateu, mas me descobri ateu. E não foi nada divertido, ao contrário.. dolorido. Então, para ilustrar essa ideia, segue uma odisseia:

A perda do Pai 

Naquele dia chuvoso, o menino todo molhado, depois de tomar o ônibus errado e voltar para casa muito atrasado, entrou pela sala de sua casa e procurou o aconchego do pai.
Encontrou a casa vazia. Chamou, repetiu, não era o que ele queria. Procurou, mas não encontrou. O pai sumido havia...
Passou um dia, passaram-se dois, três, uma semana, um mês, um ano se passou... o pai nunca mais retornou.
Na solidão de sua responsabilidade, durante aqueles dias que foram se arrastando, ele foi devagar entendendo, que na comida que preparava, nos pratos que lavava, no chão que varria, na cama que arrumava, no cachorro que latia, na roupa que pendurava, em tudo aquilo que ele fazia, nas coisas que amava, e também nas que não queria, foi devagar entendendo que a partir daquele dia, tomar conta de si, era o que ele faria.
Aos poucos ficou claro que não adiantava mais pedir ajuda, pedir conselhos, pedir desculpas, pedir alívio, agradecer pelos acertos. O pai que fazia todas essas coisas, não estava mais ali.
Viu que as coisas do pai se cobriam de poeira, as roupas paradas na gaveta não se moviam, as folhas largadas sobre a mesa, só acordavam na janela aberta de vento.
 
Na solidão de seu dia, descobriu que era o único responsável pelo seu sucesso, descobriu que sozinho poderia muito facilmente, fazer acontecer o pior de seus fracassos.
Entendeu que se mantivesse o foco e se esforçasse muito, o sucesso poderia acontecer, viu também que se não ficasse atento e alerta, o fracasso viria correndo interceder.
Descobriu que lhe dava prazer e alegria sentir o alivio que trazia até alguém que precisava de ajuda, mas a não ser por esse prazer e essa alegria, seu pai não viria para lhe sorrir. Ele não se importou, porque o sorrir de quem sofria era o prazer e a alegria que ele sentia, a coisa mais importante de seu dia.

Viu que vergonha e culpa aconteceria, ao trazer dor e sofrimento, mas no fundo ele sabia que punido, não seria a não ser pelo espelho que seu olhar culpado trazia.

O menino ficou feliz, pois entendeu que poderia ser feliz, ou infeliz, mas não seria por ser ser negro, por ser crente, poder ser ateu ou ser doente, por ser rico ou branco, por gostar homens, de tolos ou de santos, por ser gari, doutor ou presidente. 

O menino entendeu e aceitou que não tinha controle sobre o mundo, sobre os outros, e entendeu que quem controlava o mundo era o acaso, o puro acaso sim, era o verdadeiro motor do mundo.

Então ficou claro que a desgraça não escolhe a cor das pessoas, não escolhe a fé e muito menos a falta dela. Que vem o desavento e ele não escolhe, nem se importa, pois o desavento é como o vento, apenas sopra, apenas é. 

O menino viu que podia escolher entre o medo e o desespero; e a serenidade e desejo de reconstruir  qualquer coisa que lhe fosse arrancado. Poderia virar a página e uma folha em branco o esperava para receber em suas linhas, suas palavras, suas frases, suas rimas.

O menino não havia golpe de sorte, porque não havia, sorte, apenas morte. Viu que era o puro acaso que atropela com o bonde a primeira alma que passa, assim como o vento leva as folhas, sabe-se lá qual delas, sabe-se lá para onde.

Viu que não havia destino, que não havia nada escrito, mas havia um caminho, mesmo restrito, traçado no chão como linha do destino, esperando para ser percorrido e depois, poder olhar para trás no tempo que passou e chamar de destino, aquele mesmo caminho por onde ele andou.

Entendeu que o que estava escrito, era obra que alguém que buscou uma pena, a dedicou ao papel, imaginando cada cena, cada problema, cada poema. Mas que no fundo fora só mais um que escrito tinha, só porque tinha decidido, ou tinha ouvido, algo que alguém havia dito, só isso, cada palavra, cada frase, cada linha. 

Logo, o menino cresceu, e assim tão logo, entendeu que do pai que sumira, ficara só uma ideia, como num sonho distante, um devaneio, uma odisseia. 
Sentiu o calor do fim do dia e dos primeiros raios de sol. O arrepio da água fria, o brilho das estrelas no céu, o acariciar da brisa. E a lembrança do pai, nuvem passageira, quase irrelevante, passava distante e num ponto pequeno logo adiante, desse mundo tão mundo gigante acelerando ao seu redor. Mundo esse que corre solto, que nasce, vive e morre sem se dar conta de si, sem perceber sua grandeza, entrega a vida, assim, de bandeja.

O menino até voltou para a igreja, admirou a cultura, a arte e a beleza, aprendeu a meditar, viu que era o mesmo que rezar e que naquele tempo para si, podia escutar seu coração e que isso era muito bom.

Não precisava pedir, o universo se encarregaria de a seu favor conspirar. Bastava agir, sem muito esperar.

O menino ficou tranquilo pois viu que quando ele morresse, não iria para outra vida, mas poderia continuar vivo dentro das mentes e corações das pessoas, especialmente aquelas para quem ele tivesse algum significado. Então sentiu a necessidade de criar esse significado, viu que fazer valer sua vida era o que existia de mais urgente.

Entendeu que o pecado vive dentro da cabeça dos homens e que aquilo que um dia foi reprovado, pode se tornar virtude depois de ter sido pecado. O menino viu que pecado mesmo é fazer sofrer, é provocar dor, é se apoderar do outro, desumanizar, desprezar, odiar do outro, sua cor, seu sexo, sua casa, seu desejo, seu amor.

O menino viu que viver era ver seu mundo, mundo se tornar. Era construir, realizar, alcançar e melhorar, perdoar, acariciar, mas principalmente, amar.

O menino então, viu seu desejo. E pela primeira vez, viu que era seu. Pela primeira vez o menino não foi o desejo do outro materializado nele mesmo, mas sim o seu próprio. O menino não iria desaparecer para dar espaço ao desejo do outro porque descobriu que ele também tinha um lugar no mundo, que ele também tinha um nome, que ele também podia amar a si mesmo. 

Por isso ele correu, correu o mais que pode correr, era preciso correr porque o tempo era curto e era preciso fazer uma diferença, era preciso deixar uma marca, um sorriso, uma lágrima, uma lembrança.. e então ele viu que corria e continuava correndo, mas dessa vez corria não porque era preciso, mas porque ele simplesmente desejava. 

Corre menino!! 

texto: Silvio Ambrosini
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quinta-feira, 16 de abril de 2020

Debaixo dos seus caracóis

Sol e seus caracóis...


Cada vez minha filha, que à noite antes de dormir, você me pede para cantar "Debaixo dos Caracóis", confesso que reluto, mas sucumbo. Resisto, mas obedeço.

Apesar da letra de Roberto e Erasmo, ter sido uma homenagem feita à Caetano Veloso, que amargava o exílio durante a ditadura no Brasil e imaginava o dia em que ele voltaria para o Brasil, em mim aquelas palavras geram um efeito inverso. Elas me apertam o coração, quando ao navegar por essa melodia, enxergo um convite à ruptura. Na minha realidade, o exílio é aqui e para mim, a letra conta que chegará o dia em que você poderá querer me deixar, ir embora, deixar meus braços, meus beijos, meus carinhos e “voltar pra sua gente”. Mas que gente será essa?

Os versos me sangram o peito, dizem que você olha tudo o que está ao seu redor, e nada lhe faz ficar contente... que agora, você só deseja “voltar pra sua gente”. São versos doloridos, mas se me torturo com as palavras que te puxam para longe de mim, me esforço para caprichar na beleza da melodia tão linda que Roberto criou. Derramo meu amor pelas notas e viajo em verdades que podem estar enroladas naquelas palavras, debaixo desses caracóis de seus cabelos.

Então dou um pigarrinho e começo a cantar: Um dia a areia branca, seus pés irão tocar... Seus bracinhos me apertam enquanto cantarolo as primeiras linhas. No verso seguinte, você aproveita a carona, salta para dentro do meu ritmo e num uníssono, canta comigo enquanto me aperta a mão e deita o macio de seu rosto em minha perna. Me oferece seus caracóis e eu vou cantando...

E diz a letra, que a água azul do mar vai molhar seus cabelos. Canto aquelas notas, resignado. Aquelas promessas não são páreo para a quarentena do coronavirus. Confinada em casa, aposto que você iria preferir tocar areias brancas, ver janelas e portas se abrindo. Então me esforço para que você se sinta em casa, e vou cantando e passeando meus dedos pelos caracóis de seus cabelos.

Sorrio e choro imaginando esse tal mundo tão distante. Que mundo será esse que te traz essa vontade contida? O que poderá entristecer seu olhar quando você andar pela tarde, sentir vontade, sentir saudade, sonhar. Você que tem todas essas luzes e esse colorido ao seu redor, aqui na casa onde mora.

A música me dói cantar, mas você está aqui, me abraça e canta junto. Meus dedos ainda viajam pelos caracóis de seus cabelos. Quero ficar aqui mais um instante cantando para você dormir. Me pré-ocupo de uma saudade que um dia sei que vou sentir.

Sei que vai chegar um dia em que você irá embora de verdade, você vai crescer, vai correr mundo, conhecer gente, lugares, ventos e mares, ideias e sensações. E eu vou ficar em casa te esperando até que então, vou ver você chegando num sorriso. Então levanto e corro abrir portas e janelas, olho para fora e vejo você com seus pés descalços, pisando a areia branca. Você voltou, porque consegui fazer desse lugar, seu paraíso.

..................
Debaixo dos Caracóis dos seus Cabelos
Roberto e Erasmo Carlos



Um dia a areia branca
Teus pés irão tocar
E vai molhar seus cabelos
A água azul do mar

Janelas e portas vão se abrir
Pra ver você chegar
E ao se sentir em casa
Sorrindo vai chorar

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Uma história pra contar
De um mundo tão distante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Um soluço e a vontade
De ficar mais um instante

As luzes e o colorido
Que você vê agora
Nas ruas por onde anda
Na casa onde mora

Você olha tudo e nada
Lhe faz ficar contente
Você só deseja agora
Voltar pra sua gente

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Uma história pra contar
De um mundo tão distante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Um soluço e a vontade
De ficar mais um instante

Você anda pela tarde
E o seu olhar tristonho
Deixa sangrar no peito
Uma saudade, um sonho

Um dia vou ver você
Chegando num sorriso
Pisando a areia branca
Que é seu paraíso

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Uma história pra contar
De um mundo tão distante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Um soluço e a vontade
De ficar mais um instante

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

O poder do amor



Então descobri-me ateu.

Mas suponho que posso chamar de Deus a esta angústia que sinto no coração diante da inexorabilidade do universo. Esse universo, tão cego e surdo a tudo ao seu redor. Universo que se expande, cresce, roda e recicla. Esse universo que não tem preconceito, não faz distinção entre quem merece ou quem não merece estar no caminho de suas decisões, sejam elas as mais assustadoramente arbitrárias ou aquelas mais cabalmente justas. A verdade é que não há justiça, tampouco injustiça, apenas o haver, apenas o acontecer.

Em duas decisões, esse universo que não faz esforço algum para agradar ou desagradar,
Punir nem recompensar,
Perdoar ou agradecer,
Escutar ou ignorar.

Universo esse que impõe sua aparente invencibilidade aos fracos e fortes, brancos e pretos, crentes e descrentes, ricos e pobres, presentes ou ausentes, estúpidos ou inteligentes.

É angústia que abre espaço no peito, se acotovelando entre assombro e terror, entre deslumbramento e indignação, entre medo e desejo.
É angústia que não pode ser ouvida porque emana de lá de dentro, cuja voz bem conheço.

É angústia de estar em meio a tanta vida e tanta morte, tanta beleza e tanta tragédia; tanto amor e tanto ódio.

É o belo que dói,
O feliz que aflige,
O ínfimo que oprime,
O gigante que definha.

É angústia por não poder estar em todos lugares ao mesmo tempo, por saber que não há tempo sobrando para se sentir cada dia que passa nessa vida com a intensidade que acho que estar vivo merece.

É por isso que recomendo gastar seu tempo do lado de quem você ama, pois sei que de tudo aquilo que sinto e não posso provar que existe, só uma coisa merece minha atenção, só uma coisa vale a pena acreditar.

Amor é o nome dessa coisa.
Coisa essa que me mantém vivo
Coisa essa que me permite acreditar no dia de amanhã.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Barbárie e empatia


Em 1997, um grupo de cinco jovens delinquentes ateou fogo em um índio Pataxó, que dormia em uma parada de ônibus em condição de rua. Naquela madrugada, eles vinham de uma balada, tinham bebido bastante. Estacionaram o carro ao lado da parada de ônibus, desceram, e munidos de álcool e fósforos atearam fogo ao homem que dormia. Galdino, o índio, não resistiu aos ferimentos e morreu.

Na época, a barbárie causou comoção no Brasil todo e muito se especulou sobre os motivos que levam as pessoas a cometerem crimes tão horríveis.

Com o tempo, ficou mais claro entender que quando em grupo, as pessoas tornam-se capazes de atos que não teriam sido, se estivessem sozinhas. O grupo produz uma espécie de aval, já que a culpa não pertence mais a este ou àquele, mas a todos. Mais que isso, se o grupo avaliza, a culpa se invalida, já que tecnicamente, o coletivo prevalece sobre o individual.

Durante 350 anos, o Brasil escravizou, torturou, explorou e matou pessoas negras, roubadas de seus lares, separadas de suas famílias, destituídas de suas identidades, de suas culturas, de seus nomes, de suas próprias personalidades como seres humanos. Por volta de 1700, o meio intelectual discutia se os índios eram de fatos desprovidos de alma ou não, e discutiam se poderiam ser ou não, ser “salvos” por meio do batismo cristão, custasse o que fosse. Para todos os efeitos, eram almas perdidas e qualquer ação contra eles era plenamente aceita e avalizada pela sociedade, o que incluía a igreja católica, naturalmente. Já a situação dos negros, sequer era levada à discussão, negros eram considerados subespécie e ponto final.

Durante o nazismo, a sociedade alemã rapidamente aceitou como correto o antissemitismo e avalizou qualquer atitude contra o povo judeu. À frente desta, seu líder, que era visto como o homem que veio para salvar a Alemanha dos graves problemas econômicos que o pós primeira guerra infligiu à população, mostrava-se realizado com o aparente sucesso de seu plano de limpeza étnica. Eu poderia continuar enumerando um sem número de crimes contra a humanidade, idealizados, promovidos e avalizados por seus líderes.

Os seres humanos são animais difíceis de lidar, mas apesar de suas imprevisibilidades, me parece simples entender que os humanos são além de apenas um animal social, um animal paternalista. O humano necessita ter um superior. A dificuldade em assumir as responsabilidades que a vida impõe às pessoas, é facilmente (mas apenas aparentemente), solucionada quando estas, consideram que existe algo ou alguém acima delas, produzindo um efeito de responsabilização e avalizando seus atos. Essa responsabilização é ilusória, é claro, mas o efeito emocional que a figura paterna de um chefe, um presidente ou mesmo uma religião causa nas pessoas, é capaz de fazê-las agir, como não agiriam se de fato, assumissem seu livre arbítrio como característica inescrutável e pessoal de cada um.

Na madrugada de ontem, uma pessoa sozinha ateou fogo em um morador de rua, que morreu logo após. O criminoso estava sozinho, decidiu se aproximar enquanto o homem dormia, e cometer seu crime. Ele não estava acompanhado de nenhum grupo. Quando vejo uma coisa assim acontecendo, me questiono nossos rumos a partir de amanhã. Me questiono quais são as ideias e circunstâncias, que na mente doentia daquele sujeito, conseguiram ratificar, funcionando como aval para seu ato hediondo.

Imediatamente me vejo olhando em volta e vendo pessoas de fato preocupadas com o avanço da economia, ou com a alta da bolsa. Me esforço tremendamente, mas não consigo me preocupar com essas coisas. Sinto que nos falta o básico, nos falta o essencial, nos falta a essência, nos falta uma ideia do que significa ocupar espaço, enquanto destruímos um planeta, avalizados por nos considerarmos seres superiores e absolutos, reinando sobre todos os demais e governados por mentes que consideramos superiores a nós ou simples ideias de seres divinos.

Os humanos têm uma dificuldade primordial: colocar-se nas calças do outro. Haverá solução para isso um dia? Certamente que não, e é por isso que é preciso abrir a boca, é preciso protestar, é preciso reclamar, bater panela, botar a boca no trombone, porque quem se cala diante da barbárie, torna-se parte da própria barbárie.