domingo, 9 de outubro de 2022

Pedalando até Santos pra filar boia na mamãe

 


Saí cedo de casa pra filar boia na mamãe, peguei a bicicleta e me joguei na estrada, ai que medo, abre o olho, cuidado com os assaltantes, cuidado com os automóveis, mas também toma cuidado com a vida que passa e precisa ser vivida, porque é vida que passa rápido igual bonde que só se pega andando e tem que pular quando chegar a estação, porque o bonde, assim como a vida, não para, ela vai passando.

Olhei para baixo e vi meus pés pedalando, pedalando quase sem parar. O asfalto passa rápido, a ponte e os matos, os pássaros que fogem e gritam nos raios do sol que entram de lado ainda porque é tão cedo de manhãzinha.
Tenho vontade de terminar a subida para alcançar a descida, e descendo, olho a próxima subida que vai crescendo.

Os carros passam zunindo na estrada, todos com pressa ou sem ela, mas riscando a estrada de branco, prata e preto, as vezes um vermelho, um azul, uma moto barulhenta, um triciclo com uma caveira, um caminhão perdido na paisagem, as famílias com as crianças coladas no vidro, as moças com os pés sobre o painel, os homens com o cigarro do lado de fora da janela.

Em minha bicicleta vejo o mundo andando rápido e meus pés que rodam nos pedais. E chega a polícia rodoviária e lá estão os guardas rodoviários e olho para o outro lado fingindo que não vi. Bicicleta é proibido, mas eles não ligam, porque ciclista é tudo de bom.

Na primeira curva está o sujeito, chego perto, tudo bem? Vai para a praia? Como tu te chama? Marcos? Eu sou Sivuca. É um prazer! Vamos juntos, a gente se ajuda! E seguimos alinhados, brincando de pequenas ultrapassagens, testando a pressa que nenhum dos dois tem.

Juntos, passamos por baixo da estrada, olha a mata, os pássaros, os carros que às vezes aparecem entre as árvores e os outros ciclistas que acenam sorrindo. Rápido nas ladeiras, devagar nas pirambas. Parada na cachoeira, cuecas, a água gelada, fotos, seguimos em frente, demos dicas para os rapazes na dúvida, pedimos dicas aos rapazes com certeza.

Erramos uma curva, acertamos a outra, voltamos, carregamos as bikes nas costas, encontramos a rodovia e aceleramos o passo, cruzamos as faixas brincando de automóvel. Essa é aquela parte da viagem que a gente não conta pra ninguém... Olha aqueles dois malucos entre os carros... E no fim deu tudo certo, quantos quilômetros? Setenta e cinco! Amanhã tem mais! Obrigado Marcos, pela companhia!

Pedal é assim, é companhia de amigo que aparece porque todos querem a mesma coisa, pedalar e sentir a vida que está passando.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

O homem invisível


O homem invisível troca a fralda do filho, imóvel na cama, ele apenas observa com os olhos tão vivos que parecem ter ido buscar a vida em todas as outras partes do corpo. É um par de olhos em busca de vida, num esforço sem fim para concentrar neles, toda vida que lhes é possível, toda vida que lhes é devida. 

O filho observa, sente, pensa, opina, envia suas mensagens, a tecnologia ajuda, mas o homem invisível aprendeu a observar, sentir, ouvir, receber suas mensagens e a tecnologia ajuda. A mãe corre, aninha, mima, protege, alimenta, escuta, ama. O filho sorri com os olhos, seus olhos cheios de vida, esbanjando vida e a mãe sabe, a mãe sente, a mãe ouve.

O filho se preocupa, tem medo de ficar sem respirar, pisca o olho. O homem invisível verifica a saturação, está baixa, olha para o filho, seus olhos se encontram e através do olhar, ele, de algum jeito que não entendi ainda, entende que o filho tem dificuldade para respirar. O homem invisível faz o procedimento, limpa a traqueia, aspira, aspira e aspira, e então os olhos do filho se encontram com seus olhos e no seu costumeiro jeito de olhar, ele diz que já está melhor. O oxímetro confirma, o homem invisível relaxa um pouco, a mãe descansa os ombros, o filho sorri com os olhos.

O filho não tem medo de monstros, não tem medo dos lobisomens que uivam no quintal, não tem medo da mula sem cabeça que corre entre as plantas do jardim, não tem medo do monstro que mora embaixo da cama. O medo do filho é ficar sozinho e parar de respirar, e não ter ninguém para aspirar e aspirar e aspirar, o medo do filho é não ter olhos para olhar, não ter olhares para trocar, não sentir a pele lhe tocar. Em seus sonhos, flutua sobre a cama, está voando, sai pela janela e flutua sozinho pelas ruas do bairro, entra no bosque da praça e escuta o uivo do lobisomem, finge que tem o medo de que ele não tem, olha para os braços e vê os pelos eriçados, mas não é medo do lobisomem que ele tem. Então vê a mula sem cabeça e ela solta as labaredas pelo que lhe resta de corpo sem cabeça, e escuta seu grito que não sei por onde sai, mas ela que grita e relincha e ele finge que tem medo também, mas não é medo da mula que ele tem. E voa sozinho pela rua sem medo, porque sabe voar e sente o vento no rosto, e vai subindo pelo céu e quando chega perto das nuvens, sente uma pequena solidão, mas fica feliz em poder escolher para onde vai, flutua, sai do bosque, volta para o bairro e vê sua casa no fim da rua,  entra pela janela do quarto, e olha para o lençóis, e os aparelhos com suas luzes e seus foles que inflam e desinflam, ocupados com seu trabalho, e os fios todos ligados e a cama com o monstro que mora lá, ele mora debaixo da cama, e ele finge ter medo também porque criança tem que ter medo de monstro, mas não é do monstro o medo que ele tem. É medo de ficar sozinho e parar de respirar e não ter ninguém para ajudar.

E a mãe escuta um som, foi a janela que se fechou? Foram os aparelhos que biparam? Foi o filho que se engasgou? A mãe se preocupa, sai da cama, e vai até o final do corredor e procura o olhar e encontra aqueles olhos e os olhos lhe dizem para se tranquilizar. Mãe, foi só um passeio, saí pela janela pra voar um pouco, para sentir o vento no rosto e subir até as nuvens para sentir só um pouco de uma pequena solidão, não precisa se preocupar. E a mãe começa a chorar, é só um pouquinho, precisa deixar escapar. Mãe é assim, mãe pode chorar, mãe pode até quebrar, mãe precisa deixar escapar e as lágrimas escorrem e o homem invisível alcança com o lado da mão, a bochecha molhada das lágrimas e as seca. E naquela hora, a mãe fecha os olhos mergulhados no abraço do homem invisível, e o filho vê, mas finge não olhar. E o homem invisível abraça a mãe com seu abraço forte e por cima do ombro da mãe, vê no olho do filho, aquele inconfundível olhar, os olhos que não têm medo de monstros, os olhos que não escondem o olhar. E o homem invisível também quer chorar, mas homem é assim, não pode chorar, não pode reclamar, não pode, não pode, não pode.   

E o homem invisível conta histórias, e confere os aparelhos, e o fole infla e desinfla, se move sem parar e levanta os olhos para encontrar naquele olhar, um pedaço de vida, tão difícil de encontrar e naqueles olhos tão cheios de vida, vê o esforço para olhar e naquele olhar conta histórias sem parar. Quer contar o sonho da noite passada, quando flutuou na floresta e escutou o uivo do lobisomem, mas não teve medo e viu as labaredas da mula sem cabeça, e escutou o grito dela também, mas também não teve medo e voltou para casa e sabia que debaixo da cama, o mostro de debaixo da cama se escondia, mas ele também não tinha medo. Só de uma coisa ele tinha medo, era de parar de respirar.

E o homem invisível que não pode chorar, pensa naqueles onze anos olhando para aqueles olhos e tenta sem lembrar de outros tempos, tempos em que podia chorar, tempos em quando aquele olhar estava em outro lugar. E lembra da avó que o levava visitar as crianças e as velhas da casa de auxílio. Muitas nem conseguiam andar, muitas ficavam deitadas não podiam se levantar. E tinha um menino que não tinha ambos os braços, mas tinha pernas fortes, boas de correr. E o homem invisível que ainda era tão pequeno, mas já conseguia perceber que dentro daquele olhar, não havia medo de monstros, não havia medo de olhar. E corria com o menino e ele que era o homem invisível, tinha medo de que o menino caísse, porque se ele caísse, como iria se apoiar? E corria devagar, mas o menino ia rápido e sem os braços, corria até cansar e o homem invisível ia atrás dele, não porque queria correr, mas porque queria encontrar, um pouco daquele olhar.

E a avó chamava o homem invisível para ajudar com as pessoas que andavam em suas cadeiras de rodas e ele, que tão pequeno, mais atrapalhava do que ajudava, não se cansava de empurrar e era uma ladeira e a avó levava aquelas pessoas ladeira acima para passear. E quando terminava o passeio, era preciso descer a ladeira, e o homem invisível tinha medo de que a avó não conseguisse segurar e corria ajudar. E o homem invisível espalhava seu olhar e via a beleza em tudo ao seu redor, nas formas, nas cores e desenhos da igreja, nos movimentos das pessoas, mas principalmente naquilo que elas tinham de mais precioso, a profundidade de seu olhar.

E antes daqueles onze anos, o homem invisível viveu suas aventuras, suas decisões, suas escolhas, seus erros e acertos, suas idas e vindas, e dia após dia, ano após ano, construiu sua história, decolou das montanhas e sentiu o vento bater em seu rosto, e sentiu a pequena solidão e se aproximou das nuvens e ficou feliz em poder escolher para onde ir. E estendeu a mão para os amigos e foi visitar quem estava sozinho, e foi se encontrar com quem queria um abraço e também se emocionou num filme bobo e deixou uma lágrima escapar. Então um dia o homem invisível parou frente a frente com um par de olhos e naquele par de olhos, trocaram um olhar e sentiram que podiam continuar assim até que não fossem mais capazes de se olhar, não por não querer, mas por não mais enxergar. E juntos foram morar e se amaram e nunca pararam de se amar. E quando veio o filho, o abraçaram e o amaram. E então num dia de manhã, era bem cedo, perceberam que naquele olhar não havia medo. Não havia medo de monstro, não havia medo de lobisomem, não havia medo de mula sem cabeça, só um medo havia naquele olhar, era o medo de ficar sozinho e de parar de respirar e de não ter ninguém para ajudar.

E abraçaram aquele filho e em seus olhos se perderam naquele olhar, porque sabiam que dentro daquele olhar só existia uma coisa, era o saber amar.


sábado, 23 de abril de 2022

Acabando com "isso aí..."

Era um país que já vinha calejado, o ranço burguês contra o sucesso do operário que virara presidente, já irritava há tempos, onde já se viu um parvo presidente? Que direito tem ele, vindo do encardido da graxa das máquinas, sentar-se à cadeira máxima do Planalto? Como se atreve a gastar tanta energia com a gentalha do nordeste? O novo presidente era o símbolo de um levante indesejado, o triunfo do proletário, a derrota da burguesia, era campanha Marxista deslavada, desavergonhada. Muita gente não gostou nada daquilo, apesar do avanço do país, o velho inconformismo falava mais alto.

O operário soube orquestrar relações, foi eleito duas vezes e suas conquistas foram derradeiras para garantir que pela primeira vez na história do país uma mulher se tornasse Presidente da República. Porém com ela, as coisas não foram tão fáceis, sua habilidade política coincidia com seu baixo nível de paciência e ela não custava muito para botar senador corrupto pra fora do gabinete. Uma mulher que fora torturada pelo sistema militar, tinha muito pouca paciência para lidar com os filhos desse mesmo sistema, herdeiros da ditadura, netos do império e da escravidão, filhos de tempos em que lugar de preto era na senzala e em nenhum outro lugar, tempos em que lugar de operário era o chão da fábrica, tempos em que a empregada não andava de avião, tempos em que o filho dela, nascido sabe-se lá de qual pai, não fazia faculdade, tempos em que favelada não vendia discos muito menos virava empresária, bons tempos em que lugar de mulher era na cozinha, com a barriga no fogão, e que homem de verdade não tinha isso aí de viadagem, e se tivesse, era doença fácil de curar na porrada, na facada e no tiro. Naquele tempo, não tinha mimimi, homem não se vestia de mulherzinha, eram tempos em que preto, se não cagava na entrada, cagava na saída... Preto apanhava primeiro, porque preto só queria roubar seu dinheiro, e bandido bom era bandido morto, e direitos humanos defende criminoso e mulher feia não merece ser estuprada, e torturador da ditadura merecia busto em praça e nome de rua.

A mulher presidenta tinha que cair e não foi difícil encontrar uma desculpa para tirá-la do cargo, a tal da pedalada cinicamente serviu para o propósito.

As denúncias de corrupção funcionaram como uma conveniente desculpa para um grupo de pessoas que odiava pobre, poder se voltar contra eles. A classe média que vivia cercada pelos muros do condomínio, comendo picanha e tomando cerveja de grife não podia ser simplesmente invadida por aquela gente. 

Ela caiu em meio a um show de horrores em seu lugar o decrépito vice-presidente assumiu o cargo.

Na época, o discurso era cheio de pompa, um padrão empolado que irritava e cansava especialmente a classe média. Foi então que surgiu um sujeito que tinha uma fala desbocada, parecida com a de nossos tios quando discutiam futebol ou jogavam truco, um jeito suburbano e grosseiro de expressar, ao estilo churrasco de sábado com cerveja além da conta, vocabulário de briga de trânsito, de discussão em portaria de clube, de barraca de feira, o clássico barraco baixaria que fazia parte do dia a dia de muitos brasileiros. No discurso do impeachment, homenageou um legítimo torturador, justamente aquele que havia sido responsável pelas torturas que durante o regime militar foram impostas inclusive à própria presidenta. As pessoas ouviram aquelas palavras e ficaram imersas em um letárgico, dolorido e assustador silêncio. Nascia ali um vírus, uma doença que levaria um bom tempo para ser curada 

E os cidadãos de bem, detentores do estandarte da família tradicional brasileira, adoraram. Finalmente alguém que não tinha frescura, não tinha o tal mimimi, que falava de porrada, que criticava a viadagem, que mandava mulher calar a boca, capaz de dizer na cara de uma deputada, que ela não servia nem para ser estuprada. E aquelas palavras foram normalizadas e isso causou arrepios em muita gente.

Assistimos atônitos o despertar de sentimentos represados e reprimidos e desesperados acompanhamos o resultado final das eleições, aquele homem grosseiro, que fugira de todos os debates e entrevistas, simulou uma facada que despertou uma simpatia inédita em uma parte indecisa da população, justamente aquelas pessoas que mergulhadas em uma história de paternalismo, sentiam falta de um ícone, de um ídolo para chamar de seu. Deu certo, junto com a desmoralização do partido dos trabalhadores, aquelas pessoas acreditaram que o método porrada era a solução. Entre eles, muitos se sentiram identificados com aquele comportamento preconceituoso, machista, homofóbico, xenófobo, misógino, com sua arrogância lasciva. Eram pessoas que tinham sido forçadas a se calar durante os anos anteriores, pelo avanço do politicamente correto. Agora, finalmente aparecia alguém para lhes dar o aval que elas desejavam, e era justamente o presidente da república. 

Nada do que veio a seguir nos impressionou mais do que envergonhou. O novo presidente revelava a cada palavra, a cada decisão, um pouco do que vinha: colocar em prática sua política fascista até as últimas consequências. Suas gafes em todas as áreas eram constantes, sua falta de habilidade política ultrapassava o grotesco enquanto isso, um estranho silêncio emanava da imprensa. 

É claro que muito foi dito contra ele, mas considerando a situação, esperava-se muito mais. Sua retórica continuou fascinando uma pequena multidão que foi gradativamente percebendo a falácia de tudo aquilo, mas um pequeno grupo muito fiel, que se identificava com a essência daquele pensamento, permaneceu agitando suas bandeirinhas verde-amarelas até o final.

Os dias iam virando história, certamente um dia os filhos de nossos filhos abririam o livro de história do Brasil para saber sobre o tempo em que nosso país se transformou em uma nova ditadura fascista sob o comando de um sociopata chamado Jair Messias Bolsonaro.


terça-feira, 29 de março de 2022

A panela de ovos



Lá vem ela descendo a avenida, toda de branco, com seu avental esvoaçando na brisa da manhã. E por trás das duras lentes, aqueles olhos que tudo veem e experimentam o mundo que pulsa sem parar ao seu redor. Ela vê as pessoas que caminham rápido, as que se detém nas vitrines, as que mergulham no celular, as que procuram pássaros pelos fios dos postes, as que olham fixo para a frente, as que olham sempre ao seu redor, as que olham e também as que querem ser olhadas. Seus sapatos ecoam tons nas pedras das calçadas e o ar que se move e os cheiros que desfilam café, frituras, incógnitos perfumes, flagrantes suores, acres e doces, os que chamam e os que repelem. E mete a mão no bolso do jaleco e lhe saem os dedos brancos de giz, o mesmo giz de professora no mesmo branco de giz que ficou nas letras da última tarefa de português. E seus alunos cuidadosos a copiaram e seus cadernos foram para as suas bolsas e em seus finais de semana produziram mais uma composição para na segunda feira, entregar a folha nas mãos da professora. Ela que, com seu saber ensina, com seu amor contagia, com sua disposição inspira seres orgulhosos a conquistarem seus lugares, dedicarem-se a aprender o alfabeto, gente simples, moradores de rua, pessoas a quem lhes foi negado a aprender da sua própria língua. Poder entregar aquilo que a vida lhe ensinou para aquelas pessoas parece completar todas as lacunas de seu dia.

E então vem o ponto de ônibus e a banca de jornal e as pessoas que desviam e as que não desviam também, aquelas que vão, aquelas que vêm. E na porta da loja popular, um homem alcança seu olhar. Nas cores desbotadas de suas roupas, nas sandálias de dedo, em seu mover cauteloso, em sua mão, um punhado de moedas de diferentes cores e tamanhos. Dona me ajuda por favor, a completar o que me falta para que eu possa comprar aquela panela. E aponta com o dedo da outra mão enquanto traz para o peito a mão das moedas, fechada em punho protegendo o que é seu. Não falta muito, se eu conseguir, até o final do dia vou poder fritar uns ovos nela. E do outro lado do vidro, a pequena panela com a etiqueta pendurada dizia dezessete reais, a panela da loja popular. E ela não pensou muito e entrou e comprou a pequena panela e a entregou na mão do homem, e ele sem acreditar questionou, mas dona, essa panela é para mim? E ela disse que sim, e que usasse as moedas para comprar os ovos, e ele então agradeceu e tremia a voz, e disse que fazia tempo que ele não via o Papai Noel... e ela brincou, Mamãe Noel, talvez... E ele brincou com as moças do caixa, que pouco lhe deram atenção, mas mesmo assim ele disse: Nessa panela, vou fritar meus ovos e vou fritar minha pele de frango, vocês já provaram que delícia que é a pele de frango com ovos? E a alegria do homem era flagrante e mesmo sem enxergar muito bem, pelo pouco que as lentes de seus óculos lhe permitiam ver, ela sentiu, mais que viu, a alegria do homem que se materializara e então o tempo andou mais devagar por um instante e o ponteiro do relógio tentou não avançar para os próximos segundos.

E ela então ela voltou para a rua e enquanto seu avental voltava a voar na brisa da manhã e as pessoas voltavam a caminhar e a brisa também voltava a soprar seu rosto, ela se lembrou de como se sentia completa em poder fazer algo por alguém, se lembrou de como era fácil encontrar felicidade assim, tão de repente. Ela que poderia ficar feliz com novos azulejos para a cozinha ou o piso do apartamento ou com qualquer coisa que ganhasse de alguém. Mas a felicidade estava lá, não no que ela recebia, mas no que ela era capaz de entregar.



Este texto foi baseado em uma história contada por Marluci Fialho.


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quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

A Van da Discórdia

Foi ainda outro dia, muito recentemente, tão recentemente que ainda molha o dedo de tinta. Deveria haver um aviso de “Tinta Fresca”... mas aí... já ia aparecer um pra questionar, né? Se a tinta é fresca, deveria ser pink, porque é a cor de “frescura”, então meninos de azul, meninas de rosa e coisas frescas de pink. Mas a coisa é que essa tinta é feita de todas as cores porque essas coisas não têm cor, só têm rancor, só têm dor e ainda lhes faltam uma boa dose de amor. 


Mas não foi nada tão grave não, foi só uma conversa, daquelas de van, de gente que não tem para onde ir, está confinado dentro do cubo metálico. Não teve soco na cara, não teve insulto direto, não teve assassinato, e olha que essas coisas acontecem a toda hora, todo dia em todo lugar. Aqui no Brasil, no país que mais mata bicha no mundo, acontece mais fácil que vento leste.

Mas como dessa vez foi só uma conversa, então me conta o amigo que se queixou com o grupo, contando que ele estava chateado, pois ele, que só queria conversar, bater um papo assim, jogar conversa fora, mas no final a conversa terminou em tumulto, virou a “Van da Discórdia” como ele mesmo contou. O caso é que vinham todos juntos, justamente dentro da tal van e voltavam de um lugar, com sérios planos de ir para outro. 

Foi mesmo bom que estivessem voltando, assim o episódio da van da discórdia ficou só para a volta, quando todos já tinham se divertido bastante, esgotado todas as possibilidades de risos e brincadeiras, de festa e diversão. Se tivesse sido na ida, aí teria complicado, pois discórdia na ida costuma atrapalhar o evento. 

Então era uma daquelas horas em que o povo já tinha se divertido além das pencas, e alguém chega à brilhante conclusão que não faz sentido a essa vida possa ser mesmo tão legal assim gratuitamente. Entredentes, o sujeito pensa que para levar uma vida tão boa, ele só pode ter algo de especial. Afinal, privilégios e mordomias não são coisa para se entregar para qualquer um, é preciso ter um diferencial, uma indicação, é preciso não ser apenas mais um na multidão. É nessa hora, quando aparece um sujeito que sente que merece algo mais que a simples multidão, que umas coisas doidas começam a acontecer dentro dele. Dá até para descrever, um tipo de força que aparece dentro do peito, um tipo de poder, como de Superman hétero, uma força de eu posso, você não pode, eu tenho, você não tem, eu mereço esse lugar na van mais que você, Rosa Parks (mulher negra símbolo do movimento segregacionista norte-americano, a que em 1913, se recusou a dar o lugar dela para um branco no ônibus, mesmo sendo o que dizia a lei naquela época).  

É assim que acontece, é assim que termina, com o sujeito fazendo sua descoberta interna onde ele não é só mais uma pessoa no mundo, mas um especial do tipo Dias Paes, ou um Especial Borba Gato, como o da estátua escravagista, ou um Especial Plínio Salgado, da escola fascista brasileira, talvez um Especial Cabral, do cara que descobriu uma terra que já tinha dono ou um especial Messias B., aquele sujeito lá no palácio que o Niemeyer construiu, enfim especial assim Especial com E maiúsculo.

Então, sem mais desvios de assunto e conduta, voltemos à van... a van da discórdia, lembra? E em meio as reflexões filosóficas que costumam tomar espaço no ócio das longas quilometragens que a estrada proporciona, um dos colegas, despretensiosamente faz um comentário a respeito de outro colega que não estava presente: “Ele é muito inteligente, apesar de ser gay”. Pelo menos cinco ou seis pares de olhos se arregalaram nessa hora e o dono de um par deles, que não se aguenta debaixo de suas cabeleiras, movimenta o indicador como ponteiros do relógio que urgem para que o tempo pare e manda um “Alto lá... o senhor por acaso está insinuando que basicamente gays não são inteligentes e esse nosso amigo conseguiu romper alguma espécie de conexão invisível que mantém a população LGBTQI+ dentro dos limites da estupidez?”. Naturalmente, a resposta vem precedida do clássico sufixo  “Veja bem” e completa: “não foi isso que eu quis dizer...”... Não quis, mas disse, bem parecido com o sujeito que atropelou os ciclistas com suas bicicletas na beira da estrada, também disse que não queria fazer aquilo, mas pelo que entendi, apesar do fato consumado do sujeito ser gay – tom de lástima, lamento ou rejeição – ele até que é surpreendentemente inteligente. 

Nesse ponto, os ânimos se enriquecem e uma argumentação inflamada segue viva, apesar da pretensa falta de inteligência apontada na direção da população gay e a van segue incólume por seu caminho pelo asfalto quente. Mas, por onde passa, cabeças se viram em sua direção, possivelmente para tentar esclarecer a curiosidade que o aroma que exala de seu interior, deixa nos acostamentos da estrada. Um aroma que pede para ser compreendido. Não é aroma novo, o cheiro lembra coisa velha, como a parte de baixo da almofada do sofá, ou o pano de chão que largado molhado ao lado da máquina de lavar na semana passada, já secou e ficou meio duro, ou então aquele odor de lista telefônica da Telesp, ou de camiseta de candidato no fundo da gaveta de baixo.

Não que estes cheiros sejam incomuns, mas a gente só costuma sentir quando chega perto de algo que já teve sua chance e em meio a velocidade com que as coisas acontecem hoje em dia, as coisas velhas rapidamente perdem espaço para as coisas novas. 

Dentro da van, seguia a discórdia, não que todos discordassem entre si, mas uma boa parcela a bordo discordava da atribuição mencionada, entretanto alguns refletiam: seria possível isso? Seria de fato possível que existisse uma relação entre a sexualidade de uma pessoa e seu nível de inteligência? Entre as mentes que matutavam esse assunto, uma se recordava dos relatos enviados à corte portuguesa quando da descoberta do Brasil, em que alguns deles falavam sobre as pessoas nuas e ignorantes que aqui habitavam. Naquela época ficava muito claro entre as mentes formadoras de opinião, que de fato os índios seriam menos inteligentes que os portugueses, quando não, bastante pouco dados ao trabalho. Viviam em choupanas improvisadas e mesmo aqueles tidos como detentores de posições de maior destaque hierárquico, sequer se preocupavam em utilizar roupas. De fato, os índios sequer possuíam alma, nem poderiam ser de fato, filhos de Deus, mas sim eram como almas perdidas que só poderiam encontrar a redenção se terminassem se convertendo em cristãos. Era muito claro que aquilo em que os europeus de Portugal acreditavam só poderia ser o certo, enquanto os índios, só poderiam estar errados. 

O mesmo podia ser dito a respeito dos escravos negros que foram trazidos ao Brasil a seguir. Os escravos, como diz o nome, eram uma mercadoria, propriedade de alguém que poderia dispor dele da maneira que desejasse. Esse dono de escravos tinha poder de vida e morte inclusive. Escravos não era diferentes de um boi ou um cavalo, talvez um pouco mais caros, talvez capazes de fazer tarefas mais complexas, mas o português europeu branco não acreditava que um escravo fosse capaz de competir com sua inteligência.

Naquela época, não existia o conhecimento de DNA que temos hoje e certamente aquelas pessoas não tinham como comprovar que tanto um índio quanto um negro eram de fato seres humanos absolutamente idênticos a um branco e era aqui que a van da discórdia ia ficando cada vez mais interessante, afinal, se dois seres humanos de cores diferentes são exatamente o mesmo ser humano, não é possível que a cor vá afetar o nível de inteligência daquelas pessoas. Da mesma maneira foi embaraçoso lembrar que até onde a tecnologia atual de escrutínio da estrutura genética, os homossexuais também possuem exatamente a mesma configuração de DNA dos heterossexuais e que uma pesquisa de 2019 feita com mais de meio milhão de pessoas sustenta que é virtualmente impossível predizer por sua informação genética, se aquela pessoa será homossexual ou heterossexual. Sendo assim, atribuir um nível mais baixo de inteligência aos homossexuais fica parecendo um arriscado passo na direção de um comportamento que objetiva desmerecer as diferenças entre os seres humanos e nesse caso, a orientação sexual.

Mas apesar de sacudir levemente, muito mais pela irregularidade do piso, a van da discórdia seguiu seu caminho até o destino e lá todos se despediram lembrando os agradáveis momentos que tinham passado juntos, fizeram promessas de novos encontros, novas festas, mais cerveja e alegria e cada um seguiu seu caminho. 

Mas no fundo do pensamento de alguns, algo havia mudado.  


quarta-feira, 21 de abril de 2021

Flores para uma pessoa viva

Você pode escutar esse texto em meu podcast no Spotify clicando aqui.


Flores para uma pessoa viva

Poliana assistia impassível aos seus dias sendo arruinados cada vez que se deitava na cama para enfrentar o intervalo entre dormir e acordar para o próximo. Tentaria dormir girando sob as cobertas enquanto as horas iriam se arrastar até que, de manhã a luz do dia entraria pela janela. Colocaria os pés para fora dos cobertores e antes mesmo de tocar o frio do chão, sentiria medo. Recolheria os pés num átimo, como se os tivesse tocado em brasa, mas era gelo que também queimava. Seu amigo e colega de trabalho Daniel, havia morrido meses antes, ingênua vítima da pandemia, não havia durado dez dias, talvez tivessem sido nove. Deixou a família em prantos, os amigos incrédulos, os colegas assustados e seus planos, desmoronaram enquanto sua vida se tornava estatística. 

Entrar no ônibus era assustador e em meio a essa loucura, amigos morrendo, máscara, distanciamento, notícias horríveis escorriam da tela do celular. Sentada no canto do ônibus, calculava como chegaria ao trabalho ilesa. Levantava-se para apertar o botão do próximo ponto e planejava cuidadosamente como faria para sair do veículo sem tocar naqueles canos, naquelas superfícies impregnadas de suspeitas e terror. Na mesa, diante de seu computador, organizava suas tarefas meticulosamente, revisando cada item para que tudo ficasse perfeito. Uma perfeição possível, embora questionável, passava pela tela do PC, enquanto ao seu redor, uma imperfeição irresponsável e incorrigível controlava o mundo enquanto estendia seus dedos frios e nodosos em sua direção. Sentia medo, sentia-se oprimida. 

Em fevereiro, alguém a empurrou no ponto de ônibus e arrancou a bolsa de suas mãos. Atônita, acompanhou com os olhos o seu correr pela rua movimentada, arriscando a vida entre os veículos. Ela, que salvava moscas de se perder na vidraça da janela, torceu para que um carro atingisse aquele rapaz com sua camiseta de futebol. Imaginou seu corpo voando no espaço enquanto o tempo passava e ele corria até desaparecer na esquina do outro lado.

Então seu companheiro também contraiu o mal. Isolou-se no quarto enquanto pela fresta da porta, ela empurrava o prato de macarrão. Depois, ambos sentados contra a porta, separados pela madeira fria, perdiam-se em tentativas de palavras que se estendiam em longos e sóbrios silêncios. Seus olhos corriam pelo corredor enquanto observava as sombras na parede da cozinha, tentando invadir o apartamento. Encolhia os tornozelos para quase debaixo de si e no frio do piso, deixava a lágrima molhar seus joelhos. Enxugava o rosto com o dorso da mão, soltava um boa noite enquanto tocava a fórmica e cambaleava até a cama. No dia seguinte, tudo recomeçava. Era hora de fazer algo.

Decidiu abandonar o trabalho, na primeira manhã fria do início de outono, irredutível comunicou aos patrões, enquanto escutava suas monótonas sugestões alternativas inalcançáveis. Férias, descanso, afastamento... nada disso servia. Só a demissão traria o caráter definitivo que ela precisava impor a qualquer parte de sua vida tão incerta, tão cheia de dúvidas.

Ao longo daqueles vinte dias, as horas se arrastaram enquanto organizava seu trabalho e as tarefas que iria passar para seus colegas. Criou tabelas, procedimentos, tudo com a costumeira perfeição que lhe resgatava das dúvidas do dia seguinte. Ao longo daqueles vinte dias, consultou especialistas, aviou receitas, lidou com melhoras e pioras. Recebeu a compreensão e o consolo dos amigos e familiares, mas seu olhar traduzia o desespero que sua alma habitava. Poliana se esforçava para acreditar que um dia conseguiria superar aqueles dias, mas suas esperanças apareciam cobertas por uma névoa incompreensível.

Então chegou o dia da despedida, imaginei que seria uma coisa boa fazer uma pequena homenagem, com flores, talvez. Procurei uma floricultura sem sucesso quando me lembrei que ali perto do cemitério, certamente haveria alguma, e acho que flores de perto do cemitério são flores como quaisquer flores que florescem e alegram o coração de qualquer cidadão. Encontre-se facilmente, entrei e fui recebido por uma moça silenciosa. “Bom dia, gostaria de flores para uma pessoa viva.” – “Claro”, disse ela me apontando alguns arranjos agradáveis na extremidade da loja. Escolhi um bonito buquê e enquanto ela o preparava, encontrei um grande cartão colorido. 

Deixei o buquê dentro do carro e entrei no escritório dirigindo-me ao pessoal. Conversei em separado com cada um deles, contando que aquele seria o último dia de Poliana enquanto estendia aquela cartolina colorida dobrada, pedindo que escrevessem algumas palavras de carinho.

Horas depois, o cartão voltou para minhas mãos. Abri-o e vi o papel coberto de palavras que se espremiam para poder transmitir suas mensagens. Eu fui lendo enquanto as primeiras lágrimas brotaram de meus olhos. O amor contido nas palavras de seus colegas me comoveu, pessoas que nunca imaginei que um dia fossem escrever qualquer coisa, colocaram naquele papel, suas emoções sinceras, seu carinho e sua compreensão. Havia de fato, amor no coração daqueles colegas de trabalho. Então, comovido, conversei com Benício que concordou que seria mais prudente que eu entregasse o presente em particular e assim decidi fazer. 

Entrei na sala de Poliana abrindo a porta que dava de frente para sua mesa de trabalho, ela virou o olhar em minha direção e eu coloquei o buquê sobre a mesa. Comecei a falar, mas os soluços vieram enquanto tentava dizer que tínhamos feito uma homenagem para ela. Fui incapaz de terminar a frase. Atirei-me em seus braços em prantos, não por perder minha secretária, mas por ver minha amiga partir em meio a tanta dor sem que eu tivesse conseguido ajudá-la. 

Sem saber direito como agir, ela me abraçou e me apertou com seus braços. De repente eu estava sendo consolado pela pessoa mais triste que eu conhecia, parecia então, que eu tinha conseguido superá-la em sua tristeza. Haveria então a tristeza definitiva? Quem então era a pessoa mais triste do mundo? Como se mede a tristeza? Essas perguntas não estavam sendo verbalizadas, mas de alguma forma, Poliana percebia que elas existiam. 

Foi então que eu disse: “Me dá uma dessas pílulas que o psiquiatra te deu, vai?” Nessa hora ela riu, riu pela primeira vez em tanto tempo e eu senti que ela poderia sair e um dia, voltar refeita. Entre soluços, eu lhe disse: “Está vendo como você é capaz de rir? Logo você estará bem, você vai vencer, Poliana, você consegue, menina!”

Pela primeira vez então, Poliana pareceu acreditar que conseguiria, e no final daquela tarde, com um discreto pedacinho de sorriso no canto de seu lindo e dolorido rosto, partiu confiante de que ela teria uma chance.

 

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Finalmente te amo, pai.

Empurrei devagar a cadeira de rodas, presente de uma amiga querida, vencendo as irregularidades da calçada de Itararé até pararmos em frente à praia. Uma brisa suave soprava do mar, trazendo humidade e calor. Estacionei a cadeira e me sentei no banco olhando-o de frente. Falei sobre o tio Alfredo, sobre a Tia Madalena e ele apenas aquiesceu com um leve sorriso. Então ele agarrou os aros da cadeira e iniciou algumas pequenas manobras, se esforçando para movimentar a engenhoca. Fiquei observando espantado, pois andava acostumado com sua flagrante passividade, finalmente ele agia. Perguntei então, se ele tinha gostado da cadeira. Ele fez que sim com a cabeça, num gesto previsível dentro de seu universo de poucas palavras, mas então me surpreendeu outra vez comentando que era boa, porque ele andava com medo de cair.

Concordei formalmente, mas dentro de mim uma surpresa imensa se materializou. Pela primeira vez na vida eu o via confessar um medo. Ele, que sempre havia sido tão orgulhoso a ponto de perder a credibilidade, fazendo sempre questão de deixar uma impressão de invencibilidade inabalável, constantemente acompanhada do eterno bom humor com toques de ironia e arrogância, finalmente me confessava um medo, seu medo. Poderia ter feito isso antes, Seu Fernando... para que demorar tanto até admitir que você é apenas humano?

E como humano, ele tentou ser o melhor pai que pode conseguir, mostrou seu amor das maneiras mais estranhas, pois se por um lado, sua generosidade era flagrante, um estranho véu de violência pairava constantemente sobre muito do que ele fazia. Era seu método, ele estava se esforçando e acreditava nele. É claro que da minha parte, muito do seu método era reprovável, levei muito tempo para me desvencilhar da dor dos tapas, fingir esquecer do medo dos gritos e da tensão de seus passos ressoando pelo corredor de casa, mas acho que consegui chegar lá. Senti que se eu não conseguisse perdoá-lo, entendendo sua maneira de ser, uma mágoa iria me corroer para sempre, então vi que era preciso recuar e olhar para as “boas coisas”.

Ele me ensinou a apertar parafusos, martelar pregos, torcer arames, cortar e soldar fios. Me apresentou ao mundo dos carros de corrida, das marcas de automóveis, do futebol (que eu nunca consegui gostar), das antenas e transceptores do radioamador e se não fosse por isso, eu talvez nunca teria me tornado tão fluente em inglês. Ele me ensinou a dirigir e com 15 anos, eu conduzia seu caminhão carregado com 4 toneladas de tambores de latão e dois trabalhadores grandões de meu lado. Ele me ensinou a não ter medo de altura, a não ter medo de desafios, a não ter medo do amanhã. Com ele, aprendi a gostar de mim mesmo, aprendi que eu poderia ser quem e o que eu quisesse ser. 

Entre tapas na orelha, brigas de trânsito e o claro desprezo pelos mais fracos, ele me valorizou, me respeitou e confiou em mim. Com o tempo, me tornei adulto e o “pai” gradualmente virou o “Seu Fernando”. E o filho se tornou um confidente, um companheiro de profissão e de vida.

Aprendi que meu estúpido pai também era meu maravilhoso pai.

Então, dentro do carro para um raro passeio pela avenida, mandei que ele apertasse o cinto e segui em frente. Parado na luz vermelha, olhei sua mão esquerda encolhida sobre a perna e a tomei em minhas mãos suavemente. Abri seus dedos e acariciei sua palma enquanto aprendia curioso as débeis linhas. Virei aquela mão, e acariciei a fina pele sobre os ossos dos dedos, então a luz verde apareceu e eu acelerei segurando o volante. Alcancei o celular e coloquei “Sapore di Sale” no Spotify, abri as janelas e deslizando a 25km/h, tomei a orla do oceano Atlântico que soprava sua brisa suave pela janela. Trocamos um olhar incógnito, mas que para mim significava só uma coisa: Eu já te perdoei pai, então é hora de dizer que te amo.

 

domingo, 7 de março de 2021

Vamos ser pais?

VAMOS SER PAIS?

Foi a pergunta que rompeu a rotina daquela manhã. Só consegui olhá-lo nos olhos e abrir um sorriso. Era mais um sorrir que sim, do que um sorrir de “Ficou louco?”. Já havíamos viajado tanto, e tantas viagens haveriam por vir, então por que não embarcar nessa nova aventura? Durante os sete anos que havíamos vivido juntos, parecia que tínhamos sincronizado muito bem nossa vida dividida entre os dois. Aos poucos fomos aprendendo mais e mais a respeito de nós mesmos e da arte de conviver com outra pessoa. É algo parecido com uma locomotiva sobre os trilhos da vida, cada um de nós é uma dessas composições motorizadas, capaz de rodar pelos trilhos puxando seus vagões e dirigir-se ao seu destino. Quando duas pessoas decidem viver juntas, duas dessas máquinas se conectam, tornam-se capazes de subir uma montanha ou puxar uma quantidade maior de vagões, dividindo as forças, uma ajudando a outra.

É nessa hora que fica claro que ao dividir sua vida com outra pessoa, projetos que normalmente seriam muito difíceis de engajar sozinho, tornam-se factíveis. Algo como fazer uma viagem incrível, construir uma casa, ou até mesmo, criar um filho. Não que sozinha, a locomotiva não teria forças para subir montanhas ou puxar muitos vagões, mas quando você sabe que é possível dividir forças, o peso da responsabilidade também fica dividido e tudo fica mais fácil.

Mas as ferrovias variam, algumas possuem mais ou menos curvas, outras mais subidas e descidas, cruzam cidades, precisam parar em mais estações. E à moda das ferrovias, nossas vidas percorrem caminhos mais ou menos complexos. Talvez uma possível complexidade que vale a pena comentar é o fato de sermos um casal diferente da maioria, pois somos dois caras (poderíamos ser duas garotas) e vivemos num país homofóbico, bastante homofóbico por sinal. 

Mas a homofobia ainda não tinha nos incomodado diretamente, talvez por conta de nossa aparência truculenta, dois carecas fortões, que de uma forma ou de outra, ajuda a despertar alguma cautela nos mais impulsivos, tínhamos tido uma história de tranquilidade em todos os lugares que havíamos frequentado. Viajamos por países comunistas, onde dividimos a mesma cama em todos os hotéis, a mesma mesa em todos os restaurantes e o mesmo espaço em todas as calçadas. Não tínhamos recebido nada diferente de sorrisos.

Tenho a impressão de que a palavra-chave desse aparente sucesso é autoaceitação. A verdade é que pessoalmente nunca me senti desconfortável como gay, nunca estive no armário de fato, pois enquanto namorava garotas, até o início de minha vida adulta, sequer percebia que de fato eu preferia estar com rapazes. Quando descobri que me interessava mais por eles, simplesmente virei naquela direção e segui com a vida. Com o Alejandro, também tinha sido assim.  

É mais ou menos como gostar de sorvete de chocolate, você passa anos e anos de sua vida curtindo os sorvetes de chocolate belga, africano, meio amargo, ao leite, com ovomaltine ou chocolate chip... tudo bem, vive feliz e curte a festa. Até que um dia, alguém te oferece um sorvete de morango. Você reluta um pouco, oferece certa resistência como é natural quando aparece algo novo para ser enfrentado, mas a pessoa insiste e você termina experimentando o tal sorvete de morango. Você experimenta, percebe o sabor e as texturas, os pedaços de morango, a cor e o cheiro. Então sua cabeça dá um estalo, algo acontece e você se olha no espelho questionando: “Onde foi que eu estava com a cabeça e ter preferido sorvete de chocolate até hoje?”. Então, sem maiores dramas, você passa a ser um voraz consumidor de sorvete de morango e todas suas variações. Logo você se vê usando uma camiseta de sorvete de morango e fica orgulhoso de ter tomado uma decisão em sua vida, uma decisão que poderia ter acontecido há muito tempo, apenas era uma questão de ter experimentado a nova possibilidade. Você não se lamenta pelo “tempo perdido”, afinal não houve tempo perdido, apenas houve uma outra variedade de sorvete, de resto, tudo segue como antes. Você continua comendo pizzas, churrasco e tomando cerveja. Você continua mergulhando no oceano, voando de parapente, tocando um instrumento ou montando um modelo de plástico. A única coisa que de fato mudou é que o sorvete de chocolate vai sendo preterido, vai ficando cada vez mais, como uma bicicleta velha que você não curte mais e encosta em algum canto da garagem. 

Talvez por considerar minha sexualidade apenas um dos muitos aspectos de mim mesmo, e não ter me tornado um tipo de fanático com relação a isso, eu tenha me habituado a lidar com essa parte de mim de uma maneira suave. Quando algo é importante demais, a gente parece ficar mais preocupado e carrega aquilo com mais tensão. Essa suavidade me deu segurança e a sexualidade se tornou apenas mais um detalhe sobre mim mesmo. É um detalhe, mas pode ou não ser bem aceito, então você age com a precaução natural que teria com qualquer outro aspecto, mais ou menos como ter o cuidado de não ir ao estádio de futebol com a camiseta da torcida do outro time.

Eu não tinha imaginado que um dia iria me tornar pai, isso acontece, acho, com a maioria dos casais homoafetivos. É uma quebra de paradigma, afinal existe a figura do casal papai e mamãe, entalhada em nossa cultura. O macho no sofá com a cerveja e o futebol e a mulher na cozinha com as crianças ao redor, ranho escorrendo, cachorro latindo, bonecas jogadas no velho tapete, latas vazias e restos de comida na mesa de centro. Lendo essa frase assim, parece até piada, mas essa cena está no imaginário popular, impressa na cultura da gente, geração após geração. Então, arrancar essa gravura de dentro da sua antiga moldura e trocar por outra onde aparecem dois carecas revezando um bebê fofo enquanto o outro esquenta a mamadeira parece algo difícil de acontecer. Talvez um pouco porque me encantan quebrar paradigmas eu tenha dito que sim com aquele sorriso e confirmado com um “ora, então vamos ser pais?”.

A ideia tinha tudo para dar certo porque havia uma base fundamental vivendo em nós naquele momento. Era o amor que sentíamos um pelo outro, o amor que sentíamos pela intensidade de viver uma fascinante aventura após a outra e é claro, o amor completamente eterno e incondicional que explodiu como fogos de artifício que serenam prata sobre a escuridão da praia, como a aparição de uma fada de Grimm, envolta em luz, tule e estrelinhas, que lança um feitiço, um passe de mágica sobre nossos corações diante da mais remota notícia de que poderia haver uma criança, pendurada no bico de uma valente cegonha, percorrendo florestas e cidades, voando entre nuvens ensolaradas, tempestades implacáveis e oceanos bravios, a caminho de nossas vidas, a caminho de nosso ninho, a caminho de nosso lar.

 

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Eu queria acreditar

Eu queria acreditar...


Eu queria acreditar, pedir aos espíritos, aos Deuses e Santos.

Que escutassem meus pedidos, minhas rezas, meus Cantos

E olha que não são poucos, a lista é grande, são tantos.


Mas meu pai foi-se embora, me deixou sozinho em casa.

Lembro dele ainda agora, batendo seu par de asas

Agora sou eu e meus desejos, minhas vontades e anseios.

Resolvendo meus problemas, preparando meus esquemas.

Estou sozinho, é o que vejo


Já perdi a esperança, de que uma fada apareça.

E faça assim com a mão, realize meus caprichos.

Escute meus cochichos, e com a varinha de condão, 

gentil e delicada me toque a cabeça.


Ou talvez um pai de santo, me traga essa alegria.

O mesmo alguém morto, me mande a psicografia.

O mulá, o rabino, ou Meca, e me curvo para Alá

E me dê o que eu preciso, para eu trazer para cá.


O tempo vai passando e me diz "você perdeu"

Descobriu que não tem santo, não tem fada não tem Deus

Levanta do chão e sacode a poeira

Pega a sacola de abre um sorriso e vai pra feira

Sai pra rua e grita bem alto: eu sou mais eu.


Pois não basta querer para acreditar, é preciso perceber, ver, analisar

E entender a física, a química, a primeira e a última

E repetir mais de mil vezes, eu queria acreditar.


 

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

SIVUCA - VENTOMANIA - Uma Vida Voando de Parapente.

 Este texto foi publicado no blog Ser Paizão, um blog voltado para a aviação, de meu amigo Jones Rodrigues. Eu fiz a entrevista por áudio e ele transcreveu o texto que agora colo aqui para vocês.

O texto foi originalmente publicado aqui.

Eu sou o Sivuca, um apelido carinho que meu avô meu deu. Na verdade meu nome é Sílvio. Sou Parapente e Escritor. Meu primeiro livro foi um sucesso, com duas edições totalmente vendidas e o segundo livro é meu xodó. No livro Ventomania o autor narra através de seu personagem João suas histórias repletas de emoções. 

Conta tudo o que aconteceu nos trinta anos de sua vida em contato com o voo de parapente. Aos poucos, o personagem se transforma no próprio autor, reservando para o desfecho da história, surpreendentes revelações.  Cada pedacinho do livro traz uma história. É interessante de ser lido não só por pilotos ou entusiastas da aviação. É um livro voltado para todo o tipo de pessoa.

Eu não posso dizer que tive uma infância voltada a esportes radicais, porque cresci num bairro típico de classe média em São Paulo. Minha infância era de brincar na rua, em lembro que a prefeitura estava canalizando o esgoto na minha rua. Então haviam algumas valas gigantescas que haviam sido escavadas para poder passar a tubulação, e eu passava os dias explorando essas valas. Entrava dentro daqueles buracos e saia do outro lado. 

Gostava muito de simular incêndios e também de subir no telhado e caminhar pela cumeeira. Então eu abria os braços e ia caminhando pela cumeeira de um lado ao outro me equilibrando. Gostava também de saltar do telhado. Saltava com a capa do Super Homem ou do Fantomas, o Guerreiro da Justiça. 

Nunca fui escoteiro, inclusive tive um amigo escoteiro. Eu lembro que eu até eu gozava dele. Eu nunca fui adepto do regime mais militar. Então, aquela coisa do escoteiro, do uniforme, da roupa bem passada e dobrada não combinava com a minha personalidade. O juramento e as doutrinas também não. Somos amigos até hoje, já são mais de cinquenta anos. Alias, outro dia almoçamos juntos. Um querido amigo de infância. 

Quando chegou a época do alistamento militar, eu não queria de jeito nenhum prestar o serviço, eu sempre fui uma pessoa livre para expor e discutir minhas ideias e vi que lá não seria meu lugar. Aquela hierarquia não era para mim. Como vi que não teria outra forma, acabei me inscrevendo para o CPOER, que felizmente fui dispensado. 

Vou contar um pouquinho de minhas histórias, que são muitas, vou resumir. Na verdade como você sabe um dos meus livros eu conto nos detalhes essas histórias. Eu escrevi dois livros. Um deles conta essas histórias, é uma leitura gostosa para se saborear. De se rir pelos cantos. De minhas trapalhadas. Ótima sugestão para um passageiro num voo de avião ou de ônibus. Ou então, numa tarde de chuva, para fugir da rotina do Shopping de um final de semana. Quem comprar não vai se arrepender. 

A ideia do voo livre surgiu por convite de um amigo. Na época meu irmão Fernando ainda era vivo, e casualmente hoje 15 de novembro faz 26 anos que ele faleceu. Então meu irmão trouxe essa novidade dizendo que o nosso amigo Denis tinha um paraglider. 

E nós muito curiosos fomos lá conhecer o tal de paraglider. E tudo foi muito louco porque a gente se reuniu ali em Franco da Rocha, fica aqui perto de São Paulo, um lugar muito perigoso. E eu sem treinamento e nada, simplesmente sai voando assim de primeira. 

Fiz um prego ali de primeira, batendo numa árvore. E estava consumado meu batismo e minha paixão por essa loucura toda. Ali eu já sabia que isso era amor a primeira vista. Então, o próximo voo foi em Santos, onde novamente eu cometi novos erros que por falta de capacitação e conhecimento eu cai em cima de uma carro, uma Brasília que estava parada na rua. Cai no meio da avenida, eu sai rolando rua a baixo. 

Aquela época nem se falava em Treinamento e Certificação, nem havia as regulamentações que hoje existem. O meu terceiro voo eu pousei num telhado de um morador de Santos. Advinha logo no telhado de quem eu fui cair? Não foi da polícia não. Foi do dono da Brasília.  Só em recordar desses fatos eu já dou gargalhadas. 



Então aprender a voar foi muito conturbado. Foi na tentativa e erro. Ou melhor no Methiolate e curativos. Meus pais claro ficavam apavorados, naquela época nem se falava sobre voar, e meu irmão para completar mais ainda o espetáculo dramático ele dizia para minha mãe "o Sílvio vai se matar. O seu filho vai acabar de matando qualquer hora." Mas meus pais já estavam acostumados com a minha longa vida de aventuras. Então de certa forma não ficavam tão aterrorizados com meus acidentes. Era isso essa vida de doido maluco ( Muitos risos trêmulos ). 

Na minha adolescência o meu melhor amigo era meu primo Alexandre, nós andávamos de skate e de patins, apostávamos corrida, saltávamos por cima da molecada. Era a época da Madona aparecendo com aquelas músicas. Quando eu fiz quinze anos, o meu primo foi embora morar nos Estados Unidos. Eu também amava fazer mergulho autônomo e andava muito de moto. Sempre gostei de andar de moto na terra, andava e acelerava. Talvez por todas essas coisas para meus pais o Parapente não enfartou eles. Ele sempre fui uma criança e um adolescente fora da curva tradicional.

Então, logo depois que eu comecei a voar de parapente, eu resolvi ir conhecer o mundo. Fiz minha mochila e me mandei para os Estados Unidos, isso já era um desejo antigo. Eu disse eu vou pra lá. E fui!!. Acho que essa foi a primeira coisa adulta que eu vim a fazer. Fui morar sozinho nos Estados Unidos. 

Fui aprender a me virar em outro mundo, outra cultura, outro idioma. Sem contatos, sem amigos, sem socorro, sem família. Cheguei lá com um ticket de trem, e então passei um mês rodando de trem. Eu fiz uma volta pela Costa Cento e depois subi pela Costa Leste, e depois vim descendo pelo Oregon, de lá para a Califórnia eu vinha pegando carona na estrada. 


E eu ficava sempre hospedado no Albergue da Juventude. Quando eu me encontrei com meu primo na Califórnia, fiquei sabendo que ele era motorista de caminhão. E eu fiquei com ele no início pra cima e para baixo, ele era recém casado com a esposa dele. Então ele me contou que estava comprando um caminhão novo e me ofereceu o caminhão velho para eu trabalhar. Então eu topei, e ele me ensinou a dirigir o caminhão. Eu aprendi rapidamente a dirigir aquele caminhão articulado. E rapidamente já estava trabalhando. Fiquei um ano trabalhando nos Estados Unidos e depois desse tempo fiquei com uma saudade louca para voltar para o Brasil, e voltei. 


Naquela época deixei de lado a aviação e me dediquei a música, porque eu também era músico. Eu tocava contra baixo.  Morar nos Estados Unidos abriu mais ainda minha mente, que nunca foi conservadora e tão pouco seguia os conceitos ditos como corretos. Posso dizer que morar nos Estados Unidos foi um verdadeiro batismo de adulto. 

Tive que me virar sozinho, tive que aprender a dirigir o caminhão, tive que aprender a resolver sozinho os meus problemas. E aprendi muito na convivência com pessoas de lá, outras mentes, sem os preconceitos existentes no Brasil, outras culturas, outras formas de ver as coisas.

Quando eu retornei ao Brasil, voltei ao parapente também. E dessa vez comecei a voar competição e assim desde 1993 venho participando de todos os Campeonatos Brasileiros de Parapente. Cheguei a integrar a equipe do Mundial de Brasileiros de Parapente e cheguei a voar na Áustria e assim venho voando até hoje.
Embora atualmente eu vou poucas vezes por ano preferindo excursões para o nordeste ou centro oeste. Além disso em 2002 conheci meu companheiro e em 2010 nasceu nossa filha que batizamos de Sol. Mas, continuei ministrando os cursos de segurança. Eu sempre fui instrutor de Curso de Segurança. Então fui diminuindo, até porque tenho outras atividades. 

Ao longo desse tempo eu escrevi dois livros. Um deles foi lançado em 2007, chamado Voando de Parapente. É um livro mais técnico, voltado para o aprendizado, para instrução. Enfim, orientação técnica do esporte. É um livro gostoso de ser lido, porque cada capítulo conta uma história verdadeira do voo de parapente. E assim, é possível dar uma relaxada ao mesmo tempo do assunto técnico que trata o livro. Este livro já teve duas edições e atualmente estou trabalhando na edição da terceira edição, pois a segunda já está esgotada.


O segundo livro lancei esse ano, é o Ventomania - Uma Vida Voando de Parapente. Onde retrata uma vida voando de parapente, que então já é um livro bem mais pessoal. Não é um livro técnico. Mas é repleto de ensinamentos que narra a minha história de trinta anos de parapente. É como eu falei, um livro muito gostoso de ser lido. 

Com muitas histórias reais e engraçadas. Conta casos reais dos locais que conheci, das pessoas que conheci e voei junto. Cada pedacinho do livro traz uma história. É interessante de ser lido não só por pilotos ou entusiastas da aviação. É um livro voltado para todo o tipo de pessoa. 

No meu livro Ventomania - Uma Vida Voando de Parapente são contadas histórias como a da Fada da Nuvem, que é até engraçada que eu conto sempre para meus alunos que eles um dia irão ver ela e inclusive isto está prometido para a minha filha dela fazer um voo de paramente para encontrar com a Fada da Nuvem. Mas como que eu encontrei a Fada da Nuvem? Isso foi a muitos anos atrás lá em Governador Valadares, onde a condição estava muito espetacular e era um dia que haviam muitas nuvens. Na verdade "nuvens cúmulos". São essas nuvens que nascem das térmicas. Então eu consegui pegar carona numa térmica e fui subindo, subindo, subindo. 

Até que cheguei na nuvem. Só que ao invés de eu ir reto e sair da nuvem, eu continuei entrando. Continuei subindo, subindo, subindo. E quando você entra dentro de uma nuvem, aquilo fico rapidamente muito úmido né. Praticamente vira garoa ali dentro. Começa a escorrer água, o frio começa bastante. Na medida que você sobe, lá pelos 400 metros na base da nuvem, já começa também a ter sinal de congelamento em razão do muito frio que é lá. 

Eu passei por essa experiência fantástica. E finalmente eu sai pela lateral da nuvem. Foi nesse momento a parte mais linda dessa aventura. Porque no momento que você sai pela lateral da nuvem, você está acima da base dela, e o que você vê ao redor dela é como se fossem prédios de algodão. 

Você vê toda a lateral da nuvem. E você voando como se estivesse ao lado de um paredão de algodão. E o sol quando reflete em você, por exemplo se o sol bate em você no lado direito ele projeta a sua sombra para o lado esquerdo, e se no lado esquerdo existir uma nuvem, então nesse momento é formado um espetacular arco íris. Um arco íris completamente redondo de 360 graus ao redor dessa sombra. Então eu acredito que a única forma dessa maravilha acontecer é você voando. E é essa visão do arco íris redondo que eu batizei de Fada da Nuvem. É uma experiência lindíssima e espetacular. 

Voltando a minha história, e minha adolescência eu recordo que lá pelos meus 13 ou 14 anos, eu ajudava meu pai no trabalho dele, que era rádio amador. Acabei me tornando também rádio amador. Ele construía antenas enormes. Assim passávamos nossos dias voltados para a construção de antenas de longa distância, fazendo comunicados de longa distância. Eu aprendi telegrafia. 

E eu me dependurava nas torres para levar aquelas antenas lá para cima, e eu nunca tive medo daquela altura toda não. Eu nunca tive medo de altura. O único temor que eu tinha era quando eu andava de moto e era perseguido por algum cachorro. Hoje eu acho isso até engraçado, mas acho que não era medo propriamente dito. Deveria ser o instinto animal e natural dos homens pela sobrevivência ou ameaça do cachorro.

Voar de parapente para mim faz parte da minha vida. Eu acredito que a parte mais interessante ao estar lá no céu é estar distante de tudo. É uma sensação de liberdade e solidão ao mesmo tempo. Você está pendurado no céu longe do chão, não tem nada perto. Não tem paredes, não tem teto. Não tem coisa alguma.  

Você é apenas um pequeno ponto no céu. Isso é muito gratificante na minha vida. Muito emocionante. Como eu disse, eu tenho um companheiro, e eu sempre lidei com essa parte da minha vida de uma forma muito tranquila, talvez tenha sido pelo fato de ter morado nos Estados Unidos, de ter convivido com aquela cultura aberta para o que ainda é preconceito nos dias de hoje no Brasil. 

Então hoje eu sou pai de uma uma menina que nós adotamos quando ela nasceu. Hoje ela já está com dez anos. Posso até dizer que muitas pessoas manifestam uma curiosidade no assunto. E eu sempre fui aberto para debater e bater papo sobre minha orientação sexual. Ou seja, ajudar a desmistificar esse assunto que ainda é preconceito e tabu aqui no Brasil. 

Eu percebo que para algumas pessoas a homo afetividade é um complicador na vida delas. Então, eu me sinto também no dever de contribuir para ajudar essas pessoas. Porque a sexualidade ao meu ver faz parte de cada pessoa e ninguém escolhe sua orientação sexual. Isso é uma condição como a cor dos olhos ou a cor da pele. Ninguém decide "virar gay". Uma pessoa nasce gay ou nasce hetero, ela não pode escolher isso. 

O voo livre é um esporte muito perigoso, isso é inquestionável. Mas deve ser praticado com base de procedimentos, que visão transformar todas as ações no voo em procedimentos seguros, para evitar erros. O que machuca as pessoas na aviação e no voo livre também é a sucessão de erros. É essencial que a pessoa que queira aprender tenha em mente que não é como sair andando de bicicleta. A partir do momento que você se afastou do chão a volta ao chão pode ser bem dolorida. 

Assim, é muito importante respeitar os procedimentos.  Não deixa de ser uma coisa muito interessante porque as pessoas são colocadas a prova. Você se torna obrigado a seguir os procedimentos de segurança, que infelizmente muitas vezes as pessoas não adotam no seu dia a dia, justamente porque a vida das pessoas com os pés no chão é mais segura. 

No decorrer desses anos que sou instrutor, muitas pessoas vieram me agradecer dizendo "Olha Sivuca eu ter aprendido a voar de parapente me tornou uma pessoa melhor, porque fui obrigado a adotar procedimentos, a me preparar para aquilo que eu vou fazer, pensar, refletir, planejar". Assim são regras que os pilotos acabam levando para o seu dia a dia. 

E isso ajudou o dia a dia dessas pessoas. As pessoas passaram a errar menos, a serem menos displicentes em todas as suas áreas da vida. Consequentemente eu entendo que o voo livre é uma escola de vida. Se você se torna um bom piloto, automaticamente você melhora a sua vida social, emocional, profissional e assim por diante. 

O voar de parapente como eu falei requer adotar e seguir procedimentos, padrão, muita preparação e principalmente os pés no chão. Porque para você se pendurar no ar, você precisa ter os pés no chão. Eu acredito que o caminho é uma ótima escola, um bom instrutor, devidamente homologados pelas associações. Entendo que o candidato a voo livre tem que procurar o que tem de melhor. 

Fugir dos preços baixos. Fugir do amadorismo. Procurar se aproximar do que ele encontrar de melhor em todos os aspectos. Porque é a vida do cara ali pendurada. É um esporte complexo, e não da para ser levado de uma maneira superficial, de uma maneira banal, de uma maneira imprudente. 


Não é um hobby a  mais de final de semana que você aplica em sua vida e no outro final de semana você vai fazer outra coisa. Não é isso. O voo livre precisa de um envolvimento muito maior. Precisa de fato de dedicação, de envolvimento sério, especialmente nesse primeiro ano que a pessoa começa a voar, ela precisa tomar horas de voo, ela precisa somar experiência, ela precisa crescer como piloto, evitando o espaçamento de treino. 

Um erro que as pessoas cometem muito é começar a treinar numa semana e na outra tem um compromisso e depois ele volta quinze dias depois ou mais. Isso é um erro grave porque o corpo e a mente se esquecem dos movimentos, e você acaba perdendo um tempo enorme para recuperar e aumentando o nível de risco. 


Eu tenho um site que se chama Ventomania, nesse site você encontra a Rádio Vento Mania, que é uma pequena brincadeira que vale a pena ouvir as gravações e também permite comprar os meus dois Livros e mais algumas publicações. Eu tenho também um blog chamado http://asboascoisas.blogspot.com, que onde eu escrevo textos pessoais, minhas opiniões e convido todos a visitar o blog também.

Meu sonho é a utopia da humanidade, passar a levar uma vida tranquila, junto de quem eu amo. Ver a minha filha crescer e se tornar uma pessoa capaz de tomar conta de sua própria vida. Continuar voando até quando e onde for possível. Inclusive nessa semana que entra estou indo para o Ceara novamente. Estou voltando para o sertão do Ceará para participar do evento XCEARA. E vamos tentar fazer recordes de distância, quem sabe eu termine essa semana com um novo recorde pessoal de distância percorrida de Parapente. Meu maior voo até hoje foi de 300 KMs





sábado, 14 de novembro de 2020

Protestar é viver - Posfácio não publicado do livro Ventomania

Hoje fui até a janela do quarto com minha filha Sol, munido de um par de panelas e colheres de pau. Foi dia de panelaço. Juntos, batemos aquelas panelas, gritamos e rimos muito, por um bom tempo enquanto revezávamos o samba com os vizinhos que se manifestavam em peso. Depois, levei-a para a cama e contei uma história. Então ela me perguntou por que afinal tínhamos batido as panelas. Eu expliquei que fazer barulho daquele jeito é uma maneira de lembrar às pessoas que nós também existimos, que não somos apenas sombras numa janela, que somos gente como qualquer outra gente, que somos uma família, que se ama e merece ser feliz.
Expliquei que conforme disse Elis Regina, "há perigo na esquina", então é preciso protestar contra os perigos enquanto podemos.

Protestar é viver, é mostrar a cara, é lembrar que está vivo.

Ela sorri, diz que ama, diz boa noite, dou-lhe um longo beijo e a cubro com os lençóis. 

A cumplicidade dela é peculiar, a relação com minha filha vai além de pai e filha. Não sou nada autoritário, o que as vezes termina me fazendo parecer que temos a mesma idade. Então juntos, nos divertimos e aprontamos travessuras. Ela parece ter um pedacinho de meu irmão morto, agora vivo, aqui perto de mim, um pouco como reencarnação, se eu acreditasse, apesar de achar a ideia eletrizante.

Uma vez li que por trás de nossa aparência física, existe uma aparência inorgânica, deliciosa teoria. Esse ser inorgânico é algo como um “casulo luminoso”. O casulo é, ou ao menos deveria ser perfeito, mas então quando nos tornamos pais, cedemos um pedaço do casulo para ajudar na construção do casulo de nossos filhos. De onde saiu o pedaço, fica um buraco, por onde flui amor incondicional, nos conectando como que por fios, com nossos filhos. Esses fios poderão um dia se romper, voluntariamente, ou não, mas o buraco permanece e apesar de poder ser disfarçado ou chegar perto de ser reparado, nunca mais desaparecerá. A conexão poderá se romper, mas a fonte dela, permanecerá ali para sempre, porque somos pais e para sempre, amaremos nossos filhos, independentemente de que caminhos eles sigam.

Escrevi esse texto para que fosse o posfácio de meu livro Ventomania, uma vida voando de parapente, mas era tarde demais, o prelo já rodava e a gráfica acelerava. O posfácio ficou, mas aqui está ele para a próxima edição, quem sabe talvez até lá, não será preciso protestar...

O livro "Ventomania, uma vida voando de parapente" pode ser adquirido aqui.


Pedalando até Santos pra filar boia na mamãe

  Saí cedo de casa pra filar boia na mamãe, peguei a bicicleta e me joguei na estrada, ai que medo, abre o olho, cuidado com os assaltantes,...