As boas coisas

Uma torneirinha de escape para o maravilhoso e o aterrorizante do dia a dia de um cidadão do mundo, pai, voador, LGBT, empresário, meio surdo, que gosta demais de escrever. Aproveite para visitar meu instagram em @sivukus

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Flores para uma pessoa viva

Você pode escutar esse texto em meu podcast no Spotify clicando aqui.


Flores para uma pessoa viva

Poliana assistia impassível aos seus dias sendo arruinados cada vez que se deitava na cama para enfrentar o intervalo entre dormir e acordar para o próximo. Tentaria dormir girando sob as cobertas enquanto as horas iriam se arrastar até que, de manhã a luz do dia entraria pela janela. Colocaria os pés para fora dos cobertores e antes mesmo de tocar o frio do chão, sentiria medo. Recolheria os pés num átimo, como se os tivesse tocado em brasa, mas era gelo que também queimava. Seu amigo e colega de trabalho Daniel, havia morrido meses antes, ingênua vítima da pandemia, não havia durado dez dias, talvez tivessem sido nove. Deixou a família em prantos, os amigos incrédulos, os colegas assustados e seus planos, desmoronaram enquanto sua vida se tornava estatística. 

Entrar no ônibus era assustador e em meio a essa loucura, amigos morrendo, máscara, distanciamento, notícias horríveis escorriam da tela do celular. Sentada no canto do ônibus, calculava como chegaria ao trabalho ilesa. Levantava-se para apertar o botão do próximo ponto e planejava cuidadosamente como faria para sair do veículo sem tocar naqueles canos, naquelas superfícies impregnadas de suspeitas e terror. Na mesa, diante de seu computador, organizava suas tarefas meticulosamente, revisando cada item para que tudo ficasse perfeito. Uma perfeição possível, embora questionável, passava pela tela do PC, enquanto ao seu redor, uma imperfeição irresponsável e incorrigível controlava o mundo enquanto estendia seus dedos frios e nodosos em sua direção. Sentia medo, sentia-se oprimida. 

Em fevereiro, alguém a empurrou no ponto de ônibus e arrancou a bolsa de suas mãos. Atônita, acompanhou com os olhos o seu correr pela rua movimentada, arriscando a vida entre os veículos. Ela, que salvava moscas de se perder na vidraça da janela, torceu para que um carro atingisse aquele rapaz com sua camiseta de futebol. Imaginou seu corpo voando no espaço enquanto o tempo passava e ele corria até desaparecer na esquina do outro lado.

Então seu companheiro também contraiu o mal. Isolou-se no quarto enquanto pela fresta da porta, ela empurrava o prato de macarrão. Depois, ambos sentados contra a porta, separados pela madeira fria, perdiam-se em tentativas de palavras que se estendiam em longos e sóbrios silêncios. Seus olhos corriam pelo corredor enquanto observava as sombras na parede da cozinha, tentando invadir o apartamento. Encolhia os tornozelos para quase debaixo de si e no frio do piso, deixava a lágrima molhar seus joelhos. Enxugava o rosto com o dorso da mão, soltava um boa noite enquanto tocava a fórmica e cambaleava até a cama. No dia seguinte, tudo recomeçava. Era hora de fazer algo.

Decidiu abandonar o trabalho, na primeira manhã fria do início de outono, irredutível comunicou aos patrões, enquanto escutava suas monótonas sugestões alternativas inalcançáveis. Férias, descanso, afastamento... nada disso servia. Só a demissão traria o caráter definitivo que ela precisava impor a qualquer parte de sua vida tão incerta, tão cheia de dúvidas.

Ao longo daqueles vinte dias, as horas se arrastaram enquanto organizava seu trabalho e as tarefas que iria passar para seus colegas. Criou tabelas, procedimentos, tudo com a costumeira perfeição que lhe resgatava das dúvidas do dia seguinte. Ao longo daqueles vinte dias, consultou especialistas, aviou receitas, lidou com melhoras e pioras. Recebeu a compreensão e o consolo dos amigos e familiares, mas seu olhar traduzia o desespero que sua alma habitava. Poliana se esforçava para acreditar que um dia conseguiria superar aqueles dias, mas suas esperanças apareciam cobertas por uma névoa incompreensível.

Então chegou o dia da despedida, imaginei que seria uma coisa boa fazer uma pequena homenagem, com flores, talvez. Procurei uma floricultura sem sucesso quando me lembrei que ali perto do cemitério, certamente haveria alguma, e acho que flores de perto do cemitério são flores como quaisquer flores que florescem e alegram o coração de qualquer cidadão. Encontre-se facilmente, entrei e fui recebido por uma moça silenciosa. “Bom dia, gostaria de flores para uma pessoa viva.” – “Claro”, disse ela me apontando alguns arranjos agradáveis na extremidade da loja. Escolhi um bonito buquê e enquanto ela o preparava, encontrei um grande cartão colorido. 

Deixei o buquê dentro do carro e entrei no escritório dirigindo-me ao pessoal. Conversei em separado com cada um deles, contando que aquele seria o último dia de Poliana enquanto estendia aquela cartolina colorida dobrada, pedindo que escrevessem algumas palavras de carinho.

Horas depois, o cartão voltou para minhas mãos. Abri-o e vi o papel coberto de palavras que se espremiam para poder transmitir suas mensagens. Eu fui lendo enquanto as primeiras lágrimas brotaram de meus olhos. O amor contido nas palavras de seus colegas me comoveu, pessoas que nunca imaginei que um dia fossem escrever qualquer coisa, colocaram naquele papel, suas emoções sinceras, seu carinho e sua compreensão. Havia de fato, amor no coração daqueles colegas de trabalho. Então, comovido, conversei com Benício que concordou que seria mais prudente que eu entregasse o presente em particular e assim decidi fazer. 

Entrei na sala de Poliana abrindo a porta que dava de frente para sua mesa de trabalho, ela virou o olhar em minha direção e eu coloquei o buquê sobre a mesa. Comecei a falar, mas os soluços vieram enquanto tentava dizer que tínhamos feito uma homenagem para ela. Fui incapaz de terminar a frase. Atirei-me em seus braços em prantos, não por perder minha secretária, mas por ver minha amiga partir em meio a tanta dor sem que eu tivesse conseguido ajudá-la. 

Sem saber direito como agir, ela me abraçou e me apertou com seus braços. De repente eu estava sendo consolado pela pessoa mais triste que eu conhecia, parecia então, que eu tinha conseguido superá-la em sua tristeza. Haveria então a tristeza definitiva? Quem então era a pessoa mais triste do mundo? Como se mede a tristeza? Essas perguntas não estavam sendo verbalizadas, mas de alguma forma, Poliana percebia que elas existiam. 

Foi então que eu disse: “Me dá uma dessas pílulas que o psiquiatra te deu, vai?” Nessa hora ela riu, riu pela primeira vez em tanto tempo e eu senti que ela poderia sair e um dia, voltar refeita. Entre soluços, eu lhe disse: “Está vendo como você é capaz de rir? Logo você estará bem, você vai vencer, Poliana, você consegue, menina!”

Pela primeira vez então, Poliana pareceu acreditar que conseguiria, e no final daquela tarde, com um discreto pedacinho de sorriso no canto de seu lindo e dolorido rosto, partiu confiante de que ela teria uma chance.

 

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Finalmente te amo, pai.

Empurrei devagar a cadeira de rodas, presente de uma amiga querida, vencendo as irregularidades da calçada de Itararé até pararmos em frente à praia. Uma brisa suave soprava do mar, trazendo humidade e calor. Estacionei a cadeira e me sentei no banco olhando-o de frente. Falei sobre o tio Alfredo, sobre a Tia Madalena e ele apenas aquiesceu com um leve sorriso. Então ele agarrou os aros da cadeira e iniciou algumas pequenas manobras, se esforçando para movimentar a engenhoca. Fiquei observando espantado, pois andava acostumado com sua flagrante passividade, finalmente ele agia. Perguntei então, se ele tinha gostado da cadeira. Ele fez que sim com a cabeça, num gesto previsível dentro de seu universo de poucas palavras, mas então me surpreendeu outra vez comentando que era boa, porque ele andava com medo de cair.

Concordei formalmente, mas dentro de mim uma surpresa imensa se materializou. Pela primeira vez na vida eu o via confessar um medo. Ele, que sempre havia sido tão orgulhoso a ponto de perder a credibilidade, fazendo sempre questão de deixar uma impressão de invencibilidade inabalável, constantemente acompanhada do eterno bom humor com toques de ironia e arrogância, finalmente me confessava um medo, seu medo. Poderia ter feito isso antes, Seu Fernando... para que demorar tanto até admitir que você é apenas humano?

E como humano, ele tentou ser o melhor pai que pode conseguir, mostrou seu amor das maneiras mais estranhas, pois se por um lado, sua generosidade era flagrante, um estranho véu de violência pairava constantemente sobre muito do que ele fazia. Era seu método, ele estava se esforçando e acreditava nele. É claro que da minha parte, muito do seu método era reprovável, levei muito tempo para me desvencilhar da dor dos tapas, fingir esquecer do medo dos gritos e da tensão de seus passos ressoando pelo corredor de casa, mas acho que consegui chegar lá. Senti que se eu não conseguisse perdoá-lo, entendendo sua maneira de ser, uma mágoa iria me corroer para sempre, então vi que era preciso recuar e olhar para as “boas coisas”.

Ele me ensinou a apertar parafusos, martelar pregos, torcer arames, cortar e soldar fios. Me apresentou ao mundo dos carros de corrida, das marcas de automóveis, do futebol (que eu nunca consegui gostar), das antenas e transceptores do radioamador e se não fosse por isso, eu talvez nunca teria me tornado tão fluente em inglês. Ele me ensinou a dirigir e com 15 anos, eu conduzia seu caminhão carregado com 4 toneladas de tambores de latão e dois trabalhadores grandões de meu lado. Ele me ensinou a não ter medo de altura, a não ter medo de desafios, a não ter medo do amanhã. Com ele, aprendi a gostar de mim mesmo, aprendi que eu poderia ser quem e o que eu quisesse ser. 

Entre tapas na orelha, brigas de trânsito e o claro desprezo pelos mais fracos, ele me valorizou, me respeitou e confiou em mim. Com o tempo, me tornei adulto e o “pai” gradualmente virou o “Seu Fernando”. E o filho se tornou um confidente, um companheiro de profissão e de vida.

Aprendi que meu estúpido pai também era meu maravilhoso pai.

Então, dentro do carro para um raro passeio pela avenida, mandei que ele apertasse o cinto e segui em frente. Parado na luz vermelha, olhei sua mão esquerda encolhida sobre a perna e a tomei em minhas mãos suavemente. Abri seus dedos e acariciei sua palma enquanto aprendia curioso as débeis linhas. Virei aquela mão, e acariciei a fina pele sobre os ossos dos dedos, então a luz verde apareceu e eu acelerei segurando o volante. Alcancei o celular e coloquei “Sapore di Sale” no Spotify, abri as janelas e deslizando a 25km/h, tomei a orla do oceano Atlântico que soprava sua brisa suave pela janela. Trocamos um olhar incógnito, mas que para mim significava só uma coisa: Eu já te perdoei pai, então é hora de dizer que te amo.

 

domingo, 7 de março de 2021

Vamos ser pais?

VAMOS SER PAIS?

Foi a pergunta que rompeu a rotina daquela manhã. Só consegui olhá-lo nos olhos e abrir um sorriso. Era mais um sorrir que sim, do que um sorrir de “Ficou louco?”. Já havíamos viajado tanto, e tantas viagens haveriam por vir, então por que não embarcar nessa nova aventura? Durante os sete anos que havíamos vivido juntos, parecia que tínhamos sincronizado muito bem nossa vida dividida entre os dois. Aos poucos fomos aprendendo mais e mais a respeito de nós mesmos e da arte de conviver com outra pessoa. É algo parecido com uma locomotiva sobre os trilhos da vida, cada um de nós é uma dessas composições motorizadas, capaz de rodar pelos trilhos puxando seus vagões e dirigir-se ao seu destino. Quando duas pessoas decidem viver juntas, duas dessas máquinas se conectam, tornam-se capazes de subir uma montanha ou puxar uma quantidade maior de vagões, dividindo as forças, uma ajudando a outra.

É nessa hora que fica claro que ao dividir sua vida com outra pessoa, projetos que normalmente seriam muito difíceis de engajar sozinho, tornam-se factíveis. Algo como fazer uma viagem incrível, construir uma casa, ou até mesmo, criar um filho. Não que sozinha, a locomotiva não teria forças para subir montanhas ou puxar muitos vagões, mas quando você sabe que é possível dividir forças, o peso da responsabilidade também fica dividido e tudo fica mais fácil.

Mas as ferrovias variam, algumas possuem mais ou menos curvas, outras mais subidas e descidas, cruzam cidades, precisam parar em mais estações. E à moda das ferrovias, nossas vidas percorrem caminhos mais ou menos complexos. Talvez uma possível complexidade que vale a pena comentar é o fato de sermos um casal diferente da maioria, pois somos dois caras (poderíamos ser duas garotas) e vivemos num país homofóbico, bastante homofóbico por sinal. 

Mas a homofobia ainda não tinha nos incomodado diretamente, talvez por conta de nossa aparência truculenta, dois carecas fortões, que de uma forma ou de outra, ajuda a despertar alguma cautela nos mais impulsivos, tínhamos tido uma história de tranquilidade em todos os lugares que havíamos frequentado. Viajamos por países comunistas, onde dividimos a mesma cama em todos os hotéis, a mesma mesa em todos os restaurantes e o mesmo espaço em todas as calçadas. Não tínhamos recebido nada diferente de sorrisos.

Tenho a impressão de que a palavra-chave desse aparente sucesso é autoaceitação. A verdade é que pessoalmente nunca me senti desconfortável como gay, nunca estive no armário de fato, pois enquanto namorava garotas, até o início de minha vida adulta, sequer percebia que de fato eu preferia estar com rapazes. Quando descobri que me interessava mais por eles, simplesmente virei naquela direção e segui com a vida. Com o Alejandro, também tinha sido assim.  

É mais ou menos como gostar de sorvete de chocolate, você passa anos e anos de sua vida curtindo os sorvetes de chocolate belga, africano, meio amargo, ao leite, com ovomaltine ou chocolate chip... tudo bem, vive feliz e curte a festa. Até que um dia, alguém te oferece um sorvete de morango. Você reluta um pouco, oferece certa resistência como é natural quando aparece algo novo para ser enfrentado, mas a pessoa insiste e você termina experimentando o tal sorvete de morango. Você experimenta, percebe o sabor e as texturas, os pedaços de morango, a cor e o cheiro. Então sua cabeça dá um estalo, algo acontece e você se olha no espelho questionando: “Onde foi que eu estava com a cabeça e ter preferido sorvete de chocolate até hoje?”. Então, sem maiores dramas, você passa a ser um voraz consumidor de sorvete de morango e todas suas variações. Logo você se vê usando uma camiseta de sorvete de morango e fica orgulhoso de ter tomado uma decisão em sua vida, uma decisão que poderia ter acontecido há muito tempo, apenas era uma questão de ter experimentado a nova possibilidade. Você não se lamenta pelo “tempo perdido”, afinal não houve tempo perdido, apenas houve uma outra variedade de sorvete, de resto, tudo segue como antes. Você continua comendo pizzas, churrasco e tomando cerveja. Você continua mergulhando no oceano, voando de parapente, tocando um instrumento ou montando um modelo de plástico. A única coisa que de fato mudou é que o sorvete de chocolate vai sendo preterido, vai ficando cada vez mais, como uma bicicleta velha que você não curte mais e encosta em algum canto da garagem. 

Talvez por considerar minha sexualidade apenas um dos muitos aspectos de mim mesmo, e não ter me tornado um tipo de fanático com relação a isso, eu tenha me habituado a lidar com essa parte de mim de uma maneira suave. Quando algo é importante demais, a gente parece ficar mais preocupado e carrega aquilo com mais tensão. Essa suavidade me deu segurança e a sexualidade se tornou apenas mais um detalhe sobre mim mesmo. É um detalhe, mas pode ou não ser bem aceito, então você age com a precaução natural que teria com qualquer outro aspecto, mais ou menos como ter o cuidado de não ir ao estádio de futebol com a camiseta da torcida do outro time.

Eu não tinha imaginado que um dia iria me tornar pai, isso acontece, acho, com a maioria dos casais homoafetivos. É uma quebra de paradigma, afinal existe a figura do casal papai e mamãe, entalhada em nossa cultura. O macho no sofá com a cerveja e o futebol e a mulher na cozinha com as crianças ao redor, ranho escorrendo, cachorro latindo, bonecas jogadas no velho tapete, latas vazias e restos de comida na mesa de centro. Lendo essa frase assim, parece até piada, mas essa cena está no imaginário popular, impressa na cultura da gente, geração após geração. Então, arrancar essa gravura de dentro da sua antiga moldura e trocar por outra onde aparecem dois carecas revezando um bebê fofo enquanto o outro esquenta a mamadeira parece algo difícil de acontecer. Talvez um pouco porque me encantan quebrar paradigmas eu tenha dito que sim com aquele sorriso e confirmado com um “ora, então vamos ser pais?”.

A ideia tinha tudo para dar certo porque havia uma base fundamental vivendo em nós naquele momento. Era o amor que sentíamos um pelo outro, o amor que sentíamos pela intensidade de viver uma fascinante aventura após a outra e é claro, o amor completamente eterno e incondicional que explodiu como fogos de artifício que serenam prata sobre a escuridão da praia, como a aparição de uma fada de Grimm, envolta em luz, tule e estrelinhas, que lança um feitiço, um passe de mágica sobre nossos corações diante da mais remota notícia de que poderia haver uma criança, pendurada no bico de uma valente cegonha, percorrendo florestas e cidades, voando entre nuvens ensolaradas, tempestades implacáveis e oceanos bravios, a caminho de nossas vidas, a caminho de nosso ninho, a caminho de nosso lar.

 

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Eu queria acreditar

Eu queria acreditar...


Eu queria acreditar, pedir aos espíritos, aos Deuses e Santos.

Que escutassem meus pedidos, minhas rezas, meus Cantos

E olha que não são poucos, a lista é grande, são tantos.


Mas meu pai foi-se embora, me deixou sozinho em casa.

Lembro dele ainda agora, batendo seu par de asas

Agora sou eu e meus desejos, minhas vontades e anseios.

Resolvendo meus problemas, preparando meus esquemas.

Estou sozinho, é o que vejo


Já perdi a esperança, de que uma fada apareça.

E faça assim com a mão, realize meus caprichos.

Escute meus cochichos, e com a varinha de condão, 

gentil e delicada me toque a cabeça.


Ou talvez um pai de santo, me traga essa alegria.

O mesmo alguém morto, me mande a psicografia.

O mulá, o rabino, ou Meca, e me curvo para Alá

E me dê o que eu preciso, para eu trazer para cá.


O tempo vai passando e me diz "você perdeu"

Descobriu que não tem santo, não tem fada não tem Deus

Levanta do chão e sacode a poeira

Pega a sacola de abre um sorriso e vai pra feira

Sai pra rua e grita bem alto: eu sou mais eu.


Pois não basta querer para acreditar, é preciso perceber, ver, analisar

E entender a física, a química, a primeira e a última

E repetir mais de mil vezes, eu queria acreditar.


 

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

SIVUCA - VENTOMANIA - Uma Vida Voando de Parapente.

 Este texto foi publicado no blog Ser Paizão, um blog voltado para a aviação, de meu amigo Jones Rodrigues. Eu fiz a entrevista por áudio e ele transcreveu o texto que agora colo aqui para vocês.

O texto foi originalmente publicado aqui.

Eu sou o Sivuca, um apelido carinho que meu avô meu deu. Na verdade meu nome é Sílvio. Sou Parapente e Escritor. Meu primeiro livro foi um sucesso, com duas edições totalmente vendidas e o segundo livro é meu xodó. No livro Ventomania o autor narra através de seu personagem João suas histórias repletas de emoções. 

Conta tudo o que aconteceu nos trinta anos de sua vida em contato com o voo de parapente. Aos poucos, o personagem se transforma no próprio autor, reservando para o desfecho da história, surpreendentes revelações.  Cada pedacinho do livro traz uma história. É interessante de ser lido não só por pilotos ou entusiastas da aviação. É um livro voltado para todo o tipo de pessoa.

Eu não posso dizer que tive uma infância voltada a esportes radicais, porque cresci num bairro típico de classe média em São Paulo. Minha infância era de brincar na rua, em lembro que a prefeitura estava canalizando o esgoto na minha rua. Então haviam algumas valas gigantescas que haviam sido escavadas para poder passar a tubulação, e eu passava os dias explorando essas valas. Entrava dentro daqueles buracos e saia do outro lado. 

Gostava muito de simular incêndios e também de subir no telhado e caminhar pela cumeeira. Então eu abria os braços e ia caminhando pela cumeeira de um lado ao outro me equilibrando. Gostava também de saltar do telhado. Saltava com a capa do Super Homem ou do Fantomas, o Guerreiro da Justiça. 

Nunca fui escoteiro, inclusive tive um amigo escoteiro. Eu lembro que eu até eu gozava dele. Eu nunca fui adepto do regime mais militar. Então, aquela coisa do escoteiro, do uniforme, da roupa bem passada e dobrada não combinava com a minha personalidade. O juramento e as doutrinas também não. Somos amigos até hoje, já são mais de cinquenta anos. Alias, outro dia almoçamos juntos. Um querido amigo de infância. 

Quando chegou a época do alistamento militar, eu não queria de jeito nenhum prestar o serviço, eu sempre fui uma pessoa livre para expor e discutir minhas ideias e vi que lá não seria meu lugar. Aquela hierarquia não era para mim. Como vi que não teria outra forma, acabei me inscrevendo para o CPOER, que felizmente fui dispensado. 

Vou contar um pouquinho de minhas histórias, que são muitas, vou resumir. Na verdade como você sabe um dos meus livros eu conto nos detalhes essas histórias. Eu escrevi dois livros. Um deles conta essas histórias, é uma leitura gostosa para se saborear. De se rir pelos cantos. De minhas trapalhadas. Ótima sugestão para um passageiro num voo de avião ou de ônibus. Ou então, numa tarde de chuva, para fugir da rotina do Shopping de um final de semana. Quem comprar não vai se arrepender. 

A ideia do voo livre surgiu por convite de um amigo. Na época meu irmão Fernando ainda era vivo, e casualmente hoje 15 de novembro faz 26 anos que ele faleceu. Então meu irmão trouxe essa novidade dizendo que o nosso amigo Denis tinha um paraglider. 

E nós muito curiosos fomos lá conhecer o tal de paraglider. E tudo foi muito louco porque a gente se reuniu ali em Franco da Rocha, fica aqui perto de São Paulo, um lugar muito perigoso. E eu sem treinamento e nada, simplesmente sai voando assim de primeira. 

Fiz um prego ali de primeira, batendo numa árvore. E estava consumado meu batismo e minha paixão por essa loucura toda. Ali eu já sabia que isso era amor a primeira vista. Então, o próximo voo foi em Santos, onde novamente eu cometi novos erros que por falta de capacitação e conhecimento eu cai em cima de uma carro, uma Brasília que estava parada na rua. Cai no meio da avenida, eu sai rolando rua a baixo. 

Aquela época nem se falava em Treinamento e Certificação, nem havia as regulamentações que hoje existem. O meu terceiro voo eu pousei num telhado de um morador de Santos. Advinha logo no telhado de quem eu fui cair? Não foi da polícia não. Foi do dono da Brasília.  Só em recordar desses fatos eu já dou gargalhadas. 



Então aprender a voar foi muito conturbado. Foi na tentativa e erro. Ou melhor no Methiolate e curativos. Meus pais claro ficavam apavorados, naquela época nem se falava sobre voar, e meu irmão para completar mais ainda o espetáculo dramático ele dizia para minha mãe "o Sílvio vai se matar. O seu filho vai acabar de matando qualquer hora." Mas meus pais já estavam acostumados com a minha longa vida de aventuras. Então de certa forma não ficavam tão aterrorizados com meus acidentes. Era isso essa vida de doido maluco ( Muitos risos trêmulos ). 

Na minha adolescência o meu melhor amigo era meu primo Alexandre, nós andávamos de skate e de patins, apostávamos corrida, saltávamos por cima da molecada. Era a época da Madona aparecendo com aquelas músicas. Quando eu fiz quinze anos, o meu primo foi embora morar nos Estados Unidos. Eu também amava fazer mergulho autônomo e andava muito de moto. Sempre gostei de andar de moto na terra, andava e acelerava. Talvez por todas essas coisas para meus pais o Parapente não enfartou eles. Ele sempre fui uma criança e um adolescente fora da curva tradicional.

Então, logo depois que eu comecei a voar de parapente, eu resolvi ir conhecer o mundo. Fiz minha mochila e me mandei para os Estados Unidos, isso já era um desejo antigo. Eu disse eu vou pra lá. E fui!!. Acho que essa foi a primeira coisa adulta que eu vim a fazer. Fui morar sozinho nos Estados Unidos. 

Fui aprender a me virar em outro mundo, outra cultura, outro idioma. Sem contatos, sem amigos, sem socorro, sem família. Cheguei lá com um ticket de trem, e então passei um mês rodando de trem. Eu fiz uma volta pela Costa Cento e depois subi pela Costa Leste, e depois vim descendo pelo Oregon, de lá para a Califórnia eu vinha pegando carona na estrada. 


E eu ficava sempre hospedado no Albergue da Juventude. Quando eu me encontrei com meu primo na Califórnia, fiquei sabendo que ele era motorista de caminhão. E eu fiquei com ele no início pra cima e para baixo, ele era recém casado com a esposa dele. Então ele me contou que estava comprando um caminhão novo e me ofereceu o caminhão velho para eu trabalhar. Então eu topei, e ele me ensinou a dirigir o caminhão. Eu aprendi rapidamente a dirigir aquele caminhão articulado. E rapidamente já estava trabalhando. Fiquei um ano trabalhando nos Estados Unidos e depois desse tempo fiquei com uma saudade louca para voltar para o Brasil, e voltei. 


Naquela época deixei de lado a aviação e me dediquei a música, porque eu também era músico. Eu tocava contra baixo.  Morar nos Estados Unidos abriu mais ainda minha mente, que nunca foi conservadora e tão pouco seguia os conceitos ditos como corretos. Posso dizer que morar nos Estados Unidos foi um verdadeiro batismo de adulto. 

Tive que me virar sozinho, tive que aprender a dirigir o caminhão, tive que aprender a resolver sozinho os meus problemas. E aprendi muito na convivência com pessoas de lá, outras mentes, sem os preconceitos existentes no Brasil, outras culturas, outras formas de ver as coisas.

Quando eu retornei ao Brasil, voltei ao parapente também. E dessa vez comecei a voar competição e assim desde 1993 venho participando de todos os Campeonatos Brasileiros de Parapente. Cheguei a integrar a equipe do Mundial de Brasileiros de Parapente e cheguei a voar na Áustria e assim venho voando até hoje.
Embora atualmente eu vou poucas vezes por ano preferindo excursões para o nordeste ou centro oeste. Além disso em 2002 conheci meu companheiro e em 2010 nasceu nossa filha que batizamos de Sol. Mas, continuei ministrando os cursos de segurança. Eu sempre fui instrutor de Curso de Segurança. Então fui diminuindo, até porque tenho outras atividades. 

Ao longo desse tempo eu escrevi dois livros. Um deles foi lançado em 2007, chamado Voando de Parapente. É um livro mais técnico, voltado para o aprendizado, para instrução. Enfim, orientação técnica do esporte. É um livro gostoso de ser lido, porque cada capítulo conta uma história verdadeira do voo de parapente. E assim, é possível dar uma relaxada ao mesmo tempo do assunto técnico que trata o livro. Este livro já teve duas edições e atualmente estou trabalhando na edição da terceira edição, pois a segunda já está esgotada.


O segundo livro lancei esse ano, é o Ventomania - Uma Vida Voando de Parapente. Onde retrata uma vida voando de parapente, que então já é um livro bem mais pessoal. Não é um livro técnico. Mas é repleto de ensinamentos que narra a minha história de trinta anos de parapente. É como eu falei, um livro muito gostoso de ser lido. 

Com muitas histórias reais e engraçadas. Conta casos reais dos locais que conheci, das pessoas que conheci e voei junto. Cada pedacinho do livro traz uma história. É interessante de ser lido não só por pilotos ou entusiastas da aviação. É um livro voltado para todo o tipo de pessoa. 

No meu livro Ventomania - Uma Vida Voando de Parapente são contadas histórias como a da Fada da Nuvem, que é até engraçada que eu conto sempre para meus alunos que eles um dia irão ver ela e inclusive isto está prometido para a minha filha dela fazer um voo de paramente para encontrar com a Fada da Nuvem. Mas como que eu encontrei a Fada da Nuvem? Isso foi a muitos anos atrás lá em Governador Valadares, onde a condição estava muito espetacular e era um dia que haviam muitas nuvens. Na verdade "nuvens cúmulos". São essas nuvens que nascem das térmicas. Então eu consegui pegar carona numa térmica e fui subindo, subindo, subindo. 

Até que cheguei na nuvem. Só que ao invés de eu ir reto e sair da nuvem, eu continuei entrando. Continuei subindo, subindo, subindo. E quando você entra dentro de uma nuvem, aquilo fico rapidamente muito úmido né. Praticamente vira garoa ali dentro. Começa a escorrer água, o frio começa bastante. Na medida que você sobe, lá pelos 400 metros na base da nuvem, já começa também a ter sinal de congelamento em razão do muito frio que é lá. 

Eu passei por essa experiência fantástica. E finalmente eu sai pela lateral da nuvem. Foi nesse momento a parte mais linda dessa aventura. Porque no momento que você sai pela lateral da nuvem, você está acima da base dela, e o que você vê ao redor dela é como se fossem prédios de algodão. 

Você vê toda a lateral da nuvem. E você voando como se estivesse ao lado de um paredão de algodão. E o sol quando reflete em você, por exemplo se o sol bate em você no lado direito ele projeta a sua sombra para o lado esquerdo, e se no lado esquerdo existir uma nuvem, então nesse momento é formado um espetacular arco íris. Um arco íris completamente redondo de 360 graus ao redor dessa sombra. Então eu acredito que a única forma dessa maravilha acontecer é você voando. E é essa visão do arco íris redondo que eu batizei de Fada da Nuvem. É uma experiência lindíssima e espetacular. 

Voltando a minha história, e minha adolescência eu recordo que lá pelos meus 13 ou 14 anos, eu ajudava meu pai no trabalho dele, que era rádio amador. Acabei me tornando também rádio amador. Ele construía antenas enormes. Assim passávamos nossos dias voltados para a construção de antenas de longa distância, fazendo comunicados de longa distância. Eu aprendi telegrafia. 

E eu me dependurava nas torres para levar aquelas antenas lá para cima, e eu nunca tive medo daquela altura toda não. Eu nunca tive medo de altura. O único temor que eu tinha era quando eu andava de moto e era perseguido por algum cachorro. Hoje eu acho isso até engraçado, mas acho que não era medo propriamente dito. Deveria ser o instinto animal e natural dos homens pela sobrevivência ou ameaça do cachorro.

Voar de parapente para mim faz parte da minha vida. Eu acredito que a parte mais interessante ao estar lá no céu é estar distante de tudo. É uma sensação de liberdade e solidão ao mesmo tempo. Você está pendurado no céu longe do chão, não tem nada perto. Não tem paredes, não tem teto. Não tem coisa alguma.  

Você é apenas um pequeno ponto no céu. Isso é muito gratificante na minha vida. Muito emocionante. Como eu disse, eu tenho um companheiro, e eu sempre lidei com essa parte da minha vida de uma forma muito tranquila, talvez tenha sido pelo fato de ter morado nos Estados Unidos, de ter convivido com aquela cultura aberta para o que ainda é preconceito nos dias de hoje no Brasil. 

Então hoje eu sou pai de uma uma menina que nós adotamos quando ela nasceu. Hoje ela já está com dez anos. Posso até dizer que muitas pessoas manifestam uma curiosidade no assunto. E eu sempre fui aberto para debater e bater papo sobre minha orientação sexual. Ou seja, ajudar a desmistificar esse assunto que ainda é preconceito e tabu aqui no Brasil. 

Eu percebo que para algumas pessoas a homo afetividade é um complicador na vida delas. Então, eu me sinto também no dever de contribuir para ajudar essas pessoas. Porque a sexualidade ao meu ver faz parte de cada pessoa e ninguém escolhe sua orientação sexual. Isso é uma condição como a cor dos olhos ou a cor da pele. Ninguém decide "virar gay". Uma pessoa nasce gay ou nasce hetero, ela não pode escolher isso. 

O voo livre é um esporte muito perigoso, isso é inquestionável. Mas deve ser praticado com base de procedimentos, que visão transformar todas as ações no voo em procedimentos seguros, para evitar erros. O que machuca as pessoas na aviação e no voo livre também é a sucessão de erros. É essencial que a pessoa que queira aprender tenha em mente que não é como sair andando de bicicleta. A partir do momento que você se afastou do chão a volta ao chão pode ser bem dolorida. 

Assim, é muito importante respeitar os procedimentos.  Não deixa de ser uma coisa muito interessante porque as pessoas são colocadas a prova. Você se torna obrigado a seguir os procedimentos de segurança, que infelizmente muitas vezes as pessoas não adotam no seu dia a dia, justamente porque a vida das pessoas com os pés no chão é mais segura. 

No decorrer desses anos que sou instrutor, muitas pessoas vieram me agradecer dizendo "Olha Sivuca eu ter aprendido a voar de parapente me tornou uma pessoa melhor, porque fui obrigado a adotar procedimentos, a me preparar para aquilo que eu vou fazer, pensar, refletir, planejar". Assim são regras que os pilotos acabam levando para o seu dia a dia. 

E isso ajudou o dia a dia dessas pessoas. As pessoas passaram a errar menos, a serem menos displicentes em todas as suas áreas da vida. Consequentemente eu entendo que o voo livre é uma escola de vida. Se você se torna um bom piloto, automaticamente você melhora a sua vida social, emocional, profissional e assim por diante. 

O voar de parapente como eu falei requer adotar e seguir procedimentos, padrão, muita preparação e principalmente os pés no chão. Porque para você se pendurar no ar, você precisa ter os pés no chão. Eu acredito que o caminho é uma ótima escola, um bom instrutor, devidamente homologados pelas associações. Entendo que o candidato a voo livre tem que procurar o que tem de melhor. 

Fugir dos preços baixos. Fugir do amadorismo. Procurar se aproximar do que ele encontrar de melhor em todos os aspectos. Porque é a vida do cara ali pendurada. É um esporte complexo, e não da para ser levado de uma maneira superficial, de uma maneira banal, de uma maneira imprudente. 


Não é um hobby a  mais de final de semana que você aplica em sua vida e no outro final de semana você vai fazer outra coisa. Não é isso. O voo livre precisa de um envolvimento muito maior. Precisa de fato de dedicação, de envolvimento sério, especialmente nesse primeiro ano que a pessoa começa a voar, ela precisa tomar horas de voo, ela precisa somar experiência, ela precisa crescer como piloto, evitando o espaçamento de treino. 

Um erro que as pessoas cometem muito é começar a treinar numa semana e na outra tem um compromisso e depois ele volta quinze dias depois ou mais. Isso é um erro grave porque o corpo e a mente se esquecem dos movimentos, e você acaba perdendo um tempo enorme para recuperar e aumentando o nível de risco. 


Eu tenho um site que se chama Ventomania, nesse site você encontra a Rádio Vento Mania, que é uma pequena brincadeira que vale a pena ouvir as gravações e também permite comprar os meus dois Livros e mais algumas publicações. Eu tenho também um blog chamado http://asboascoisas.blogspot.com, que onde eu escrevo textos pessoais, minhas opiniões e convido todos a visitar o blog também.

Meu sonho é a utopia da humanidade, passar a levar uma vida tranquila, junto de quem eu amo. Ver a minha filha crescer e se tornar uma pessoa capaz de tomar conta de sua própria vida. Continuar voando até quando e onde for possível. Inclusive nessa semana que entra estou indo para o Ceara novamente. Estou voltando para o sertão do Ceará para participar do evento XCEARA. E vamos tentar fazer recordes de distância, quem sabe eu termine essa semana com um novo recorde pessoal de distância percorrida de Parapente. Meu maior voo até hoje foi de 300 KMs





sábado, 14 de novembro de 2020

Protestar é viver - Posfácio não publicado do livro Ventomania

Hoje fui até a janela do quarto com minha filha Sol, munido de um par de panelas e colheres de pau. Foi dia de panelaço. Juntos, batemos aquelas panelas, gritamos e rimos muito, por um bom tempo enquanto revezávamos o samba com os vizinhos que se manifestavam em peso. Depois, levei-a para a cama e contei uma história. Então ela me perguntou por que afinal tínhamos batido as panelas. Eu expliquei que fazer barulho daquele jeito é uma maneira de lembrar às pessoas que nós também existimos, que não somos apenas sombras numa janela, que somos gente como qualquer outra gente, que somos uma família, que se ama e merece ser feliz.
Expliquei que conforme disse Elis Regina, "há perigo na esquina", então é preciso protestar contra os perigos enquanto podemos.

Protestar é viver, é mostrar a cara, é lembrar que está vivo.

Ela sorri, diz que ama, diz boa noite, dou-lhe um longo beijo e a cubro com os lençóis. 

A cumplicidade dela é peculiar, a relação com minha filha vai além de pai e filha. Não sou nada autoritário, o que as vezes termina me fazendo parecer que temos a mesma idade. Então juntos, nos divertimos e aprontamos travessuras. Ela parece ter um pedacinho de meu irmão morto, agora vivo, aqui perto de mim, um pouco como reencarnação, se eu acreditasse, apesar de achar a ideia eletrizante.

Uma vez li que por trás de nossa aparência física, existe uma aparência inorgânica, deliciosa teoria. Esse ser inorgânico é algo como um “casulo luminoso”. O casulo é, ou ao menos deveria ser perfeito, mas então quando nos tornamos pais, cedemos um pedaço do casulo para ajudar na construção do casulo de nossos filhos. De onde saiu o pedaço, fica um buraco, por onde flui amor incondicional, nos conectando como que por fios, com nossos filhos. Esses fios poderão um dia se romper, voluntariamente, ou não, mas o buraco permanece e apesar de poder ser disfarçado ou chegar perto de ser reparado, nunca mais desaparecerá. A conexão poderá se romper, mas a fonte dela, permanecerá ali para sempre, porque somos pais e para sempre, amaremos nossos filhos, independentemente de que caminhos eles sigam.

Escrevi esse texto para que fosse o posfácio de meu livro Ventomania, uma vida voando de parapente, mas era tarde demais, o prelo já rodava e a gráfica acelerava. O posfácio ficou, mas aqui está ele para a próxima edição, quem sabe talvez até lá, não será preciso protestar...

O livro "Ventomania, uma vida voando de parapente" pode ser adquirido aqui.


segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Sexualidade, Transexuais, Tammy Miranda e Natura





Sexualidade, Transexuais, Tammy Miranda e Natura


Meu amigo Antônio Viviani deu vida ao meu texto sobre sexualidade. Ele é locutor e fez esta gravação para o programa "Texto Sentido" acompanhem https://youtu.be/bbgeeUU4J6k

Eu gostaria de acrescentar que quando a gente chega em uma parte da vida em que um profissional da envergadura do Antônio Viviani lhe faz um telefonema pedindo autorização para gravar um texto seu, você chega a conclusão que realmente percorreu o caminho certo. Fico profundamente lisonjeado e agradecido a ele por esta fantástica obra, especialmente levando em conta que o texto em si não é um assunto nada fácil de ser sequer abordado.

Muito obrigado, Antônio.

Sivuca

#transexualidade #lgbtqia #tranfobia #homofobia #preconceito



Eis o texto original:



O que penso sobre o preconceito contra transexuais, Natura e Tammy Miranda.

Gostaria de ressaltar que embora devesse, iniciei esse texto com um discreto "O que penso..." e não com um "A verdade é...". Então se você não pensa assim, paciência, né?

Nossa cultura vê o falo como símbolo do modelo masculino, porém um homem não é seu pênis. O gênero não se resume àquilo que está entre as pernas, a genitália. O gênero de uma pessoa é o retrato de uma mente, ou se preferir entender assim, de uma alma. Sendo assim, pessoas que nascem com um sexo e sentem que pertencem, se identificam com este mesmo sexo, como eu e você são pessoas cisgênero. Homens ou mulheres cisgênero, ou apenas cis.
Por outro lado existem aquelas pessoas que sentem que pertencem a um sexo diferente do sexo biológico. Estas pessoas são chamadas transgênero. Isso se chama Identidade Sexual, ou seja, o sexo a qual a pessoa sente que pertence.

Isso pode acontecer tanto com pessoas de um sexo quanto com pessoas do outro. Estas pessoas podem ser homens trans, como Tammy e vários outros, e também podem ser mulheres trans, como a cartunista Laerte, por exemplo. (lembre-se que Laerte transformou-se após os 65 anos de idade).

Quando uma pessoa transgênero decide passar a realmente identificar-se como pertencendo ao outro sexo, essa pessoa passa a ser transexual. Isso pode nunca acontecer, ou acontecer em qualquer fase da vida da pessoa, depende exclusivamente dela, das motivações interiores e exteriores a que esta pessoa está sujeita. Imagine que um número enorme de pessoas trans simplesmente não conseguem sentir-se seguras para assumir seu verdadeiro sexo e não há dúvida que estas pessoas passam por um sofrimento enorme até que esta questão tão grave possa quem sabe um dia, estar finalmente resolvida na vida dela.

A essa altura, o pênis ou a vagina, de fato torna-se um detalhe, afinal você não precisa ver o pênis para identificar um homem na rua e nem ver a vagina para concluir que está diante de uma mulher, basta olhar para a aparência. Homens gostam de se parecer com homens e mulheres sentem-se felizes parecidas com mulheres. É claro que isso não é binário, existem muitas graduações de uma ponta desse fio até o outro.
De fato, o pênis é hipervalorizado pela nossa cultura, e a verdade é que não importa se um homem trans o possui, pois mesmo sem um, ele ainda será um homem, da mesma maneira que se por exemplo, um homem cis sofrer um acidente e ter seu pênis cortado, ele não se transformará em uma mulher, ao contrário, seguirá sendo um homem, porém um homem sem um pênis.

Então, não vem ao caso se Tammy tem ou não pênis, Tammy é um homem trans. Sente-se homem, identifica-se como sendo um homem e ainda por cima é um homem heterossexual, pois casou-se com uma mulher e juntos, tiveram um filho (não vem ao caso de que forma a criança foi gerada, não é mesmo?).
Aproveito o detalhe para lembrar que a Identidade sexual não tem relação com a Preferência Sexual. A preferência é assim como diz o nome, com qual sexo a pessoa prefere se relacionar (ir pra cama). Quem prefere pessoas do outro sexo, como o Tammy (porque Tammy é homem) ou como muitos de vocês, são pessoas heterossexuais. Quem prefere pessoas do mesmo sexo como a Daniela Mercury ou eu ou muitos de nós, são pessoas homossexuais. Isso não tem relação com a identidade sexual. Daniela é uma mulher cisgênero homossexual. Há os homem cisgênero heterossexuais, Tammy é um homem transgênero heterossexual. Eu e muitos, somos homens cisgênero homossexuais.

Como comentei acima, estas pessoas não têm uma vida nada fácil, especialmente em um país machista e pouco culto como o nosso e são facilmente alvo de intolerância, desprezo e violência todos os dias.

Isso é lamentavelmente triste, em minha opinião, todos os seres humanos são iguais e não cabe a mim ou a ninguém julgar ninguém por acreditar naquilo que sente na parte mais profunda de seu ser.

Transfobia, assim como homofobia, racismo ou qualquer outro tipo de preconceito, é uma merda, um inferno, um câncer que arruína nossa condição de seres humanos sociais e são comportamentos que devem ser insistentemente enfrentados e coibidos.


Não é suficiente fingir que não viu, que não é comigo, silenciar-se, porque quem cala, consente. Quem se cala diante do preconceito o avaliza. É sim preciso lutar, lutar pelo direito que todas as pessoas têm de serem tratadas como iguais, sejam elas quem forem, com quem ou o que se parecem, que cor têm, ou com quem elas vão para cama.