Uma torneirinha de escape para o maravilhoso e o aterrorizante do dia a dia de um cidadão do mundo, pai, voador, LGBT, empresário, meio surdo, que gosta demais de escrever. Aproveite para visitar meu instagram em @sivukus

sexta-feira, 24 de abril de 2020

A perda do pai
























Ou "Como me descobri ateu e segui vivendo feliz"

As vezes me perguntam como é que que pude "me tornar ateu"... bem, eu não fiz uma escolha, não me tornei ateu, mas me descobri ateu. E não foi nada divertido, ao contrário.. dolorido. Então, para ilustrar essa ideia, segue uma odisseia:

A perda do Pai 

Naquele dia chuvoso, o menino todo molhado, depois de tomar o ônibus errado e voltar para casa muito atrasado, entrou pela sala de sua casa e procurou o aconchego do pai.
Encontrou a casa vazia. Chamou, repetiu, não era o que ele queria. Procurou, mas não encontrou. O pai sumido havia...
Passou um dia, passaram-se dois, três, uma semana, um mês, um ano se passou... o pai nunca mais retornou.
Na solidão de sua responsabilidade, durante aqueles dias que foram se arrastando, ele foi devagar entendendo, que na comida que preparava, nos pratos que lavava, no chão que varria, na cama que arrumava, no cachorro que latia, na roupa que pendurava, em tudo aquilo que ele fazia, nas coisas que amava, e também nas que não queria, foi devagar entendendo que a partir daquele dia, tomar conta de si, era o que ele faria.
Aos poucos ficou claro que não adiantava mais pedir ajuda, pedir conselhos, pedir desculpas, pedir alívio, agradecer pelos acertos. O pai que fazia todas essas coisas, não estava mais ali.
Viu que as coisas do pai se cobriam de poeira, as roupas paradas na gaveta não se moviam, as folhas largadas sobre a mesa, só acordavam na janela aberta de vento.
 
Na solidão de seu dia, descobriu que era o único responsável pelo seu sucesso, descobriu que sozinho poderia muito facilmente, fazer acontecer o pior de seus fracassos.
Entendeu que se mantivesse o foco e se esforçasse muito, o sucesso poderia acontecer, viu também que se não ficasse atento e alerta, o fracasso viria correndo interceder.
Descobriu que lhe dava prazer e alegria sentir o alivio que trazia até alguém que precisava de ajuda, mas a não ser por esse prazer e essa alegria, seu pai não viria para lhe sorrir. Ele não se importou, porque o sorrir de quem sofria era o prazer e a alegria que ele sentia, a coisa mais importante de seu dia.

Viu que vergonha e culpa aconteceria, ao trazer dor e sofrimento, mas no fundo ele sabia que punido, não seria a não ser pelo espelho que seu olhar culpado trazia.

O menino ficou feliz, pois entendeu que poderia ser feliz, ou infeliz, mas não seria por ser ser negro, por ser crente, poder ser ateu ou ser doente, por ser rico ou branco, por gostar homens, de tolos ou de santos, por ser gari, doutor ou presidente. 

O menino entendeu e aceitou que não tinha controle sobre o mundo, sobre os outros, e entendeu que quem controlava o mundo era o acaso, o puro acaso sim, era o verdadeiro motor do mundo.

Então ficou claro que a desgraça não escolhe a cor das pessoas, não escolhe a fé e muito menos a falta dela. Que vem o desavento e ele não escolhe, nem se importa, pois o desavento é como o vento, apenas sopra, apenas é. 

O menino viu que podia escolher entre o medo e o desespero; e a serenidade e desejo de reconstruir  qualquer coisa que lhe fosse arrancado. Poderia virar a página e uma folha em branco o esperava para receber em suas linhas, suas palavras, suas frases, suas rimas.

O menino não havia golpe de sorte, porque não havia, sorte, apenas morte. Viu que era o puro acaso que atropela com o bonde a primeira alma que passa, assim como o vento leva as folhas, sabe-se lá qual delas, sabe-se lá para onde.

Viu que não havia destino, que não havia nada escrito, mas havia um caminho, mesmo restrito, traçado no chão como linha do destino, esperando para ser percorrido e depois, poder olhar para trás no tempo que passou e chamar de destino, aquele mesmo caminho por onde ele andou.

Entendeu que o que estava escrito, era obra que alguém que buscou uma pena, a dedicou ao papel, imaginando cada cena, cada problema, cada poema. Mas que no fundo fora só mais um que escrito tinha, só porque tinha decidido, ou tinha ouvido, algo que alguém havia dito, só isso, cada palavra, cada frase, cada linha. 

Logo, o menino cresceu, e assim tão logo, entendeu que do pai que sumira, ficara só uma ideia, como num sonho distante, um devaneio, uma odisseia. 
Sentiu o calor do fim do dia e dos primeiros raios de sol. O arrepio da água fria, o brilho das estrelas no céu, o acariciar da brisa. E a lembrança do pai, nuvem passageira, quase irrelevante, passava distante e num ponto pequeno logo adiante, desse mundo tão mundo gigante acelerando ao seu redor. Mundo esse que corre solto, que nasce, vive e morre sem se dar conta de si, sem perceber sua grandeza, entrega a vida, assim, de bandeja.

O menino até voltou para a igreja, admirou a cultura, a arte e a beleza, aprendeu a meditar, viu que era o mesmo que rezar e que naquele tempo para si, podia escutar seu coração e que isso era muito bom.

Não precisava pedir, o universo se encarregaria de a seu favor conspirar. Bastava agir, sem muito esperar.

O menino ficou tranquilo pois viu que quando ele morresse, não iria para outra vida, mas poderia continuar vivo dentro das mentes e corações das pessoas, especialmente aquelas para quem ele tivesse algum significado. Então sentiu a necessidade de criar esse significado, viu que fazer valer sua vida era o que existia de mais urgente.

Entendeu que o pecado vive dentro da cabeça dos homens e que aquilo que um dia foi reprovado, pode se tornar virtude depois de ter sido pecado. O menino viu que pecado mesmo é fazer sofrer, é provocar dor, é se apoderar do outro, desumanizar, desprezar, odiar do outro, sua cor, seu sexo, sua casa, seu desejo, seu amor.

O menino viu que viver era ver seu mundo, mundo se tornar. Era construir, realizar, alcançar e melhorar, perdoar, acariciar, mas principalmente, amar.

O menino então, viu seu desejo. E pela primeira vez, viu que era seu. Pela primeira vez o menino não foi o desejo do outro materializado nele mesmo, mas sim o seu próprio. O menino não iria desaparecer para dar espaço ao desejo do outro porque descobriu que ele também tinha um lugar no mundo, que ele também tinha um nome, que ele também podia amar a si mesmo. 

Por isso ele correu, correu o mais que pode correr, era preciso correr porque o tempo era curto e era preciso fazer uma diferença, era preciso deixar uma marca, um sorriso, uma lágrima, uma lembrança.. e então ele viu que corria e continuava correndo, mas dessa vez corria não porque era preciso, mas porque ele simplesmente desejava. 

Corre menino!! 

texto: Silvio Ambrosini
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quinta-feira, 16 de abril de 2020

Debaixo dos seus caracóis

Sol e seus caracóis...


Cada vez minha filha, que à noite antes de dormir, você me pede para cantar "Debaixo dos Caracóis", confesso que reluto, mas sucumbo. Resisto, mas obedeço.

Apesar da letra de Roberto e Erasmo, ter sido uma homenagem feita à Caetano Veloso, que amargava o exílio durante a ditadura no Brasil e imaginava o dia em que ele voltaria para o Brasil, em mim aquelas palavras geram um efeito inverso. Elas me apertam o coração, quando ao navegar por essa melodia, enxergo um convite à ruptura. Na minha realidade, o exílio é aqui e para mim, a letra conta que chegará o dia em que você poderá querer me deixar, ir embora, deixar meus braços, meus beijos, meus carinhos e “voltar pra sua gente”. Mas que gente será essa?

Os versos me sangram o peito, dizem que você olha tudo o que está ao seu redor, e nada lhe faz ficar contente... que agora, você só deseja “voltar pra sua gente”. São versos doloridos, mas se me torturo com as palavras que te puxam para longe de mim, me esforço para caprichar na beleza da melodia tão linda que Roberto criou. Derramo meu amor pelas notas e viajo em verdades que podem estar enroladas naquelas palavras, debaixo desses caracóis de seus cabelos.

Então dou um pigarrinho e começo a cantar: Um dia a areia branca, seus pés irão tocar... Seus bracinhos me apertam enquanto cantarolo as primeiras linhas. No verso seguinte, você aproveita a carona, salta para dentro do meu ritmo e num uníssono, canta comigo enquanto me aperta a mão e deita o macio de seu rosto em minha perna. Me oferece seus caracóis e eu vou cantando...

E diz a letra, que a água azul do mar vai molhar seus cabelos. Canto aquelas notas, resignado. Aquelas promessas não são páreo para a quarentena do coronavirus. Confinada em casa, aposto que você iria preferir tocar areias brancas, ver janelas e portas se abrindo. Então me esforço para que você se sinta em casa, e vou cantando e passeando meus dedos pelos caracóis de seus cabelos.

Sorrio e choro imaginando esse tal mundo tão distante. Que mundo será esse que te traz essa vontade contida? O que poderá entristecer seu olhar quando você andar pela tarde, sentir vontade, sentir saudade, sonhar. Você que tem todas essas luzes e esse colorido ao seu redor, aqui na casa onde mora.

A música me dói cantar, mas você está aqui, me abraça e canta junto. Meus dedos ainda viajam pelos caracóis de seus cabelos. Quero ficar aqui mais um instante cantando para você dormir. Me pré-ocupo de uma saudade que um dia sei que vou sentir.

Sei que vai chegar um dia em que você irá embora de verdade, você vai crescer, vai correr mundo, conhecer gente, lugares, ventos e mares, ideias e sensações. E eu vou ficar em casa te esperando até que então, vou ver você chegando num sorriso. Então levanto e corro abrir portas e janelas, olho para fora e vejo você com seus pés descalços, pisando a areia branca. Você voltou, porque consegui fazer desse lugar, seu paraíso.

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Debaixo dos Caracóis dos seus Cabelos
Roberto e Erasmo Carlos



Um dia a areia branca
Teus pés irão tocar
E vai molhar seus cabelos
A água azul do mar

Janelas e portas vão se abrir
Pra ver você chegar
E ao se sentir em casa
Sorrindo vai chorar

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Uma história pra contar
De um mundo tão distante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Um soluço e a vontade
De ficar mais um instante

As luzes e o colorido
Que você vê agora
Nas ruas por onde anda
Na casa onde mora

Você olha tudo e nada
Lhe faz ficar contente
Você só deseja agora
Voltar pra sua gente

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Uma história pra contar
De um mundo tão distante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Um soluço e a vontade
De ficar mais um instante

Você anda pela tarde
E o seu olhar tristonho
Deixa sangrar no peito
Uma saudade, um sonho

Um dia vou ver você
Chegando num sorriso
Pisando a areia branca
Que é seu paraíso

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Uma história pra contar
De um mundo tão distante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Um soluço e a vontade
De ficar mais um instante