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sábado, 14 de novembro de 2020

Protestar é viver - Posfácio não publicado do livro Ventomania

Hoje fui até a janela do quarto com minha filha Sol, munido de um par de panelas e colheres de pau. Foi dia de panelaço. Juntos, batemos aquelas panelas, gritamos e rimos muito, por um bom tempo enquanto revezávamos o samba com os vizinhos que se manifestavam em peso. Depois, levei-a para a cama e contei uma história. Então ela me perguntou por que afinal tínhamos batido as panelas. Eu expliquei que fazer barulho daquele jeito é uma maneira de lembrar às pessoas que nós também existimos, que não somos apenas sombras numa janela, que somos gente como qualquer outra gente, que somos uma família, que se ama e merece ser feliz.
Expliquei que conforme disse Elis Regina, "há perigo na esquina", então é preciso protestar contra os perigos enquanto podemos.

Protestar é viver, é mostrar a cara, é lembrar que está vivo.

Ela sorri, diz que ama, diz boa noite, dou-lhe um longo beijo e a cubro com os lençóis. 

A cumplicidade dela é peculiar, a relação com minha filha vai além de pai e filha. Não sou nada autoritário, o que as vezes termina me fazendo parecer que temos a mesma idade. Então juntos, nos divertimos e aprontamos travessuras. Ela parece ter um pedacinho de meu irmão morto, agora vivo, aqui perto de mim, um pouco como reencarnação, se eu acreditasse, apesar de achar a ideia eletrizante.

Uma vez li que por trás de nossa aparência física, existe uma aparência inorgânica, deliciosa teoria. Esse ser inorgânico é algo como um “casulo luminoso”. O casulo é, ou ao menos deveria ser perfeito, mas então quando nos tornamos pais, cedemos um pedaço do casulo para ajudar na construção do casulo de nossos filhos. De onde saiu o pedaço, fica um buraco, por onde flui amor incondicional, nos conectando como que por fios, com nossos filhos. Esses fios poderão um dia se romper, voluntariamente, ou não, mas o buraco permanece e apesar de poder ser disfarçado ou chegar perto de ser reparado, nunca mais desaparecerá. A conexão poderá se romper, mas a fonte dela, permanecerá ali para sempre, porque somos pais e para sempre, amaremos nossos filhos, independentemente de que caminhos eles sigam.

Escrevi esse texto para que fosse o posfácio de meu livro Ventomania, uma vida voando de parapente, mas era tarde demais, o prelo já rodava e a gráfica acelerava. O posfácio ficou, mas aqui está ele para a próxima edição, quem sabe talvez até lá, não será preciso protestar...

O livro "Ventomania, uma vida voando de parapente" pode ser adquirido aqui.


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