quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Tentando entender as emoções humanas e suas escolhas...




No final dos anos 30, o povo alemão estava sofrendo. O pós 1ª guerra era um tempo de miséria e a promessa de progresso e dias melhores colocou Adolf Hitler no poder. Junto com a ideia de colocar ordem na casa, Hitler culpou os judeus por tudo que tinha dado errado na Alemanha. Aquilo foi perfeito! Todos tinham a quem culpar, afinal é muito mais fácil quando a culpa não é nossa.

Hoje o alemão médio ainda tem dificuldade em conviver com a vergonha do que aconteceu naquele tempo, tanto que ainda há quem negue tudo aquilo e pior, quem ainda ache que o que ele fez com o povo judeu não foi tão relevante assim.

Em uma entrevista recente com Yuval Harari, que é autor da dobradinha imperdível de livros: Homo Sapiens e Homo Deus, ele disse mais ou menos a seguinte frase: "Você não consegue convencer as multidões apelando para a inteligência. Isso só funciona se você apela para a emoção, pois é assim que é o homem, governado pelas emoções."


Eu me lembro de ter me arrepiado de emoção por um político, uma única vez em minha vida, foi em 1989, quando eu e você elegemos Fernando Collor presidente e ele fez aquele discurso de posse. Ah, aquilo foi muito emocionante, lembro daquele dia até hoje, como o dia em que tive a sensação que o Brasil passaria a ser um país melhor. Não lembro se de fato eu votei nele, nem lembro contra quem ele concorria, mas lembro que se tivesse de votar naquela era, o nome seria Collor. Claro que naquela época eu era outra pessoa, talvez mais emotivo que hoje, mas posso também estar enganado.


Gurdjieff, que foi um filósofo do autoconhecimento e viveu no início do século passado, dizia que o homem dotado de consciência ou livre arbítrio é algo raro. Ele fazia uma analogia muito interessante com a figura simbólica de uma carruagem. Esta é o corpo físico, sendo que os cavalos são nossas emoções. O cocheiro por sua vez, é nossa mente e lá dentro da carruagem está o passageiro, que é nosso EU interior. Acontece que tudo está dissociado, o cocheiro, nas raras vezes que é capaz de escutar os gritos do passageiro, não consegue transmitir estas ordens aos cavalos que correm motivados por tudo aquilo que lhes chama a atenção, sejam os odores das éguas, dos queijos ou a simples delícia de correr pelas estradas como bons cavalos sabem fazer. Ainda por cima a carruagem não está lá em grandes condições o que invariavelmente termina com a morte (do passageiro) nalgum precipício não muito distante.

É fácil numerar atos e decisões que tomamos (e depois nos arrependemos) que foram motivadas por nossa emoções. Acontece que as emoções parecem agir mais rapidamente do que nosso intelecto. Um exemplo: você recebe uma notícia preocupante. Antes de formular qualquer pensamento e tomar qualquer decisão, você sente um arrepio percorrendo seu corpo. Seu corpo já agiu antes de qualquer coisa. Só depois de alguns segundos é que você decidirá o que fazer. Muitas vezes, a decisão se baseará exclusivamente nas emoções que você sentiu, sendo que muitas vezes também, você considera que agiu impensadamente movido por suas emoções. Esse tipo de justificativa costuma inclusive ser bastante usada na delegacia, não é verdade?

As vezes é difícil distinguir quando tomamos uma decisão motivados pelas emoções de outras motivadas por reflexão cognitiva, afinal basta algum grau de deficiência de empatia para tomarmos nosso ponto de vista como certo se olhar ao redor.

Acho que não é muito difícil entender por que muitas pessoas estão encontrando no Bolsonaro, uma possibilidade. Por mais incoerente, limitado, preconceituoso, racista, homofóbico, fascista, machista, misógino, xenófobo, pró golpe militar, grosseiro, extremista de direita, péssimo parlamentar, contra direitos humanos, contra índios, pró tortura... enfim... é uma pena que para muitas pessoas isso parece pouco relevante.

O Jair consegue tocar nos corações de muitas pessoas. Ainda bem que ainda dá tempo de pensar e escolher...


quarta-feira, 18 de julho de 2018

A entrega do voo em equipe


A entrega do voo em equipe

Os recordistas mundiais de voo em parapente, Fleury, Cecéu, Frank Brown, Samuca, Saladini, Bigode... têm uma receita que eles construíram e que invariavelmente dá certo para se conseguir conquistar um voo incrível:
A receita é voar em equipe.

Ah tá... lá vem o Sivuca outra vez com essa conversa... eu já faço isso, diz o Joãozinho. Será?
Nos últimos anos tenho nas raras oportunidades que arrumo para voar, experimentado me esforçar ao máximo para conseguir voar junto com outro(s) piloto(s), juntos de verdade. Mas tenho encontrado uma impressionante dificuldade em fazer isso acontecer. Eu tive a honra de ter sido convidado pelos cariocas da equipe Guaratiba Fly para voar com eles e temos feito algumas experiências formidáveis juntos.

Mesmo assim, depois de algum tempo, olho ao redor e posso concluir que são poucas as pessoas que realmente praticam o voo em equipe de forma completa, sendo que uma parte sequer sabe como funciona e uma outra simplesmente não consegue aderir às pequenas e simples regras que são essenciais para que o voo em equipe aconteça.

Contando para vocês o que aprendi com Rafael Saladini, mesmo que, lamentavelmente sem nunca ter tido o privilégio de voar junto com ele, gostaria de chamar a atenção dos pilotos para algumas vantagens que fazem do voo em equipe, na minha forma de ver, muito mais que uma evolução de nosso esporte, mas uma necessidade essencial para quem quer voar mais tempo e mais longe.
Vou contar o que acontece comigo e suponho que seja o que possivelmente terminará acontecendo com muitos de vocês.

Eu voo de parapente há 28 anos, já tenho 52 anos de idade, voo com equipamento CCC até hoje porque é onde me sinto mais confortável, ao menos por enquanto. Quando vou voar, sinto uma necessidade muito grande de me concentrar no exclusivamente no voo, fazendo um esforço especial para dirigir todas as energias para um voo seguro e de alto rendimento. A verdade é que nosso esporte é muito perigoso e o nível de risco é muito alto, por isso considero que temos de tomar muito cuidado para que o ato de voar nunca se transforme numa coisa banal, onde você vai lá apenas por ir, porque não tem outra coisa para fazer ou porque não está a fim de ficar lavando o carro no sábado. Para reduzir o nível de risco, transformo minhas excursões de voo num ritual, voltado inteiramente para o ato de voar. É por isso que hoje em dia você quase nunca me encontra em uma rampa para apenas “um voozinho”.

Levando isso em conta, percebo que a energia gasta em um voo é bastante alta, onde um voo de cinco, seis, ou mais horas, pode ser tão cansativo quanto insustentável. Provavelmente você não verá mais o Sivuca fazendo grandes voos sozinho simplesmente porque eu acho muito chato e cansativo ficar sozinho com toda aquela imensidão ao meu redor e ter de tomar todas aquelas decisões por tanto tempo sem descanso. Quando eu consigo dividir isso tudo com outra pessoa, passo para outro estado, encontro novas motivações e me sinto preparado para enfrentar voos enormes, como os que fiz em Quixadá com cerca de 10 horas de duração. O que acontece é que durante um voo em equipe, as várias tarefas que você tem de dar conta quando está voando sozinho se dividem entre os membros do grupo.

Então, posso listar algumas tarefas que somos obrigados a assumir na íntegra, durante o voo inteiro, quando fazemos voos longos e que podemos ao menos durante vários momentos, dividir entre os membros do grupo:

1.       Fazer contato com o resgate pelo rádio.
2.       Manter-se atualizado sobre dados de planeio, distâncias, rotas, velocidades e direção do vento, estradas e locais de pouso. (sempre tem um nerd que adora isso)
3.       Escolha de mini-rotas (vou pra baixo daquela nuvem ou pra cima daquela cordilheira?).
4.       Lembrar dos horários de hidratação, alimentação e necessidades (xixi).
5.       Triangular a próxima térmica.
6.       Encontrar um núcleo mais favorável na térmica atual.

Ninguém vai fazer xixi por você, mas muita gente se esquece de beber água, se alimentar e fazer xixi. Ter alguém para te lembrar disso durante o voo, assim como poder deixar a decisão da mini-rota daquele momento para outro piloto ou ficar falando com o resgate no rádio, é uma forma de relaxar um pouco a tensão. Isso tem um efeito muito importante, especialmente se levarmos em conta que várias vezes eu estava muito cansado e pronto para me preparar para o pouso quando um colega do grupo localizou uma nova ascendente e lá fomos nós para a base outra vez. Enquanto no dia anterior fizemos juntos um voo fantástico com um quase triângulo FAI de 150km, o meu penúltimo voo foi feito sozinho. Meu companheiro de voo, o André Abrantes fez uma saída ruim e terminou na frente da rampa e eu, sozinho. Tentei sinalizar e “arrastar” alguns colegas que cruzei pelo caminho, mas ninguém atendeu meus apelos, então resolvi pegar pesado e acelerar o voo para relembrar os tempos de competição. Duas horas e meia depois eu estava pousado cansadíssimo, com 110km voados. Poderia ter voado muito mais, ainda havia no mínimo três horas de voo, o que significa que naquele dia eu poderia ter voado mais de 200km... mas onde estava a disposição para fazer isto sozinho? (Pausa para rir do Sivuca dizendo que quase fez um voo de 200km quando fez só 110..).

No voo que fiz na companhia do Grandão e do Fabrício em Quixadá a dois anos, fizemos 300km. No quilômetro 200 eu não aguentava mais, não estava mais com saco de procurar térmica, queria pousar... Grandão achou uma termal e lá fomos nós para a base novamente. Esse cenário se repete com frequência, não é fácil ficar horas e horas pendurado no parapente e ainda tendo que decidir e administrar um monte de coisas simultaneamente. Quando podemos relaxar um pouco e deixar alguém decidir para qual nuvem iremos, ajuda bastante.

É nessa hora que o Joãozinho me pergunta: É, mas e se o cara decidir a nuvem errada? E eu respondo: Joãozinho, você nunca decidiu ir para nuvem errada? Quem disse que suas decisões são sempre certas? Esta é a questão que provavelmente impede algumas pessoas de aceitar o voo em equipe, temos uma opinião muito alta a respeito de nós mesmos, custa-nos a crer que outra pessoa poderia ser capaz de tomar decisões tão acertadas quanto as nossas e daí somos levados a não confiar nos outros pilotos e terminamos voando sozinhos. Triste não é? Até que ponto isso é uma verdade para muitos de nós?

Veja só, existe uma regra essencial para o funcionamento do voo em equipe que é: Quando se aproxima o momento de sair de uma térmica (porque está ficando fraca, ou porque o grupo tem pressa), quem sai primeiro é quem está mais baixo. E Joãozinho desesperado levanta a mão: Mais baixo tio? Então estou me fodendo pra subir, todos estão 100m mais alto que eu e eu é quem tem que sair procurando térmica? Isso mesmo, Joãozinho, você sai e todos saem atrás (e mais alto) que você para te ajudar. Se não for assim, ou seja, se todos esperam quem está mais alto sair, o grupo se fragmenta. Imagine o grupo como um ser alado, uma Quimera voadora onde cada parapente é um membro do corpo da Quimera. Se a Quimera perde um braço, pode morrer... a Quimera precisa manter sua forma para poder voar. Inteira, ela é muito mais eficiente simplesmente porque ela é muito maior e muito mais capaz de encontrar o melhor núcleo da termal, além de ter uma capacidade maior de encontrar a próxima termal, simplesmente devido ao seu tamanho. 

Se voarmos pensando que não podemos nos distanciar do colega, conseguiremos manter a forma da Quimera e ela conseguirá voar mais longe, durante mais tempo. A Quimera abre suas asas ao máximo para fazer a tirada e isso significa que os pilotos voam lado a lado, sempre evitando alinhar em fila com o companheiro da frente. É preciso abrir as asas para cobrir mais espaço, isso facilita muito encontrar a próxima térmica. Ora, se um parapente tem 11m de envergadura, dois parapentes conseguem cobrir no mínimo 30 metros facilmente... o que três parapentes podem fazer, chega a ser covardia.

Enquanto você não pode estar em dois ou três lugares ao mesmo tempo, dois ou três parapentes na mesma térmica conseguem triangular o melhor núcleo com uma eficiência muito superior. Noutro dia, um colega que tentamos trazer para a equipe e não conseguiu passar da primeira térmica alegou que voamos muito baixo. Achei aquilo muito divertido de escutar e até brinquei com ele comparando com o adolescente que fez uma campanha enorme para que seus pais permitissem que ele fosse a uma festa com os colegas à noite e na última hora ele desistiu porque sua calça preferida estava lavando.
Então o voo em equipe é uma verdadeira entrega, em muitos momentos você deixa de fazer aquilo que acreditava para fazer aquilo que o outro acreditou. Isso é uma coisa muito dura para muita gente e volto a afirmar, especialmente aquelas que não são capazes de acreditar que existe alguém na face da terra capaz de tomar decisões tão acertadas quanto elas mesmas. O André Wolf me disse que se para nós parapentelhos, voar em equipe é uma coisa difícil de fazer, para os voadores de asa é ainda mais complicado, pois eles são muito mais antigos no voo e consequentemente carregam uma carga cultural de voo individual muito mais poderosa que nós... vamos então aproveitar nossa posição de vantagem e fazer algo mais bacana, galera?

Voo em equipe não requer parapentes de altíssimo desempenho, nem instrumentos tecnológicos de ponta, a única coisa é que o grupo tenha mais ou menos o mesmo nível técnico e voe parapentes mais ou menos parecidos. Então é perfeitamente possível você ter um ano e meio de voo e juntar-se com dois ou três de seus amigos voando parapente B e conseguirem fazer um voo espetacularmente melhor do que você seria capaz de fazer sozinho.

Ah, Sivuca, você está sendo irônico, pois basicamente você afirma que o voo em equipe não acontece porque as pessoas são arrogantes, não é bem assim.

É mesmo, Joãozinho? Então me explique por que o voo em equipe não acontece.

E Joãozinho me olhou em silêncio...


Sivuca

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Chamaram-me de arrogante, e agora?


Chamaram-me de arrogante, e agora?

Análise e síntese de um mal que atrapalha a vida de alguns professores, instrutores, coaches e afins.

Metido a besta, filha da puta, imbecil... e outros adjetivos podem também ter sido utilizados, ou simplesmente um “depois falamos sobre isso”... mas tudo significa a mesma coisa. Se de alguma forma isto teve alguma importância para você, então já pode ficar tranquilo, você ainda pode ser salvo! Não por Shiva, Buda ou Jesus, mas por suas próprias ações e atenções.

Análise


A arrogância é um mal que assola uma parcela bastante expressiva de pessoas, especialmente aquelas que de alguma forma aprenderam ou estão em processo de aprendizado de alguma faculdade física ou mental. Estas últimas são as maiores vítimas, pois aquelas que realmente já se tornaram verdadeiros mestres, normalmente já passaram pelo estágio de ajustes dos níveis de arrogância pessoal, embora isso não seja uma regra, afinal é possível se encaixar no ditado que meu velho pai nunca deixava de mencionar entre seus ensinamentos “Quanto mais cresce, mais burro fica...”
Percebo que o ápice dos sintomas acontece durante a fase básica ou intermediária, quando o arrogante clássico já conseguiu sua carteirinha nível 1 ou “aprendiz-de-coach” ou algo parecido. Não se espante com eventuais pontuações de ironia, isso faz parte do “processo educacional”.
Nessa fase, o Joãozinho (vamos dar um nome pra ele, né? Fica mais fácil assim) já sabe um monte, já ganhou seus trofeuzinhos, já tem sua carteirinha e já pode tomar conta de um grupinho de alunos. Nessa hora Joãozinho olha em volta e identifica os alunos que se encaixam no seu perfil. Estes são o solo mais fértil para seu progresso, afinal toda a sua dedicação lhe rendeu benefícios justamente por ele ter vivido uma vida assim: dedicado, esforçado, apaixonado e por que não dizer, fanático de carteirinha pela sua atividade. Então os alunos escolhidos são a chance mais visível de deixar claro o quanto Joãozinho domina seus conhecimentos e é a eles que Joãozinho dedica-se com amor e com todos os ingredientes que fizeram dele, o que ele é hoje. Os mesmos ingredientes que trouxeram Joãozinho, até o pedestal que hoje ele ocupa.

Mas... existem os outros... e agora olhando com “olhos de Joãozinho”, os displicentes, os pegadores de bonde-andando, os curiosos, os desinteressados. Todos aqueles outros alunos que “claramente” não demonstram o mesmo amor pela atividade. Alguns desses inclusive, parece que estão na verdade, invejosos das conquistas de Joãozinho e preparados para fazer o que for possível, para derrubá-los de sua merecida e arduamente conquistada posição.

Esta análise é bastante peculiar porque ela pode parecer uma visão muito equivocada da realidade, não é mesmo? Mas é justamente por isto que ela existe. Cada indivíduo tem uma visão diferente da realidade. Cada pessoa tem suas prioridades e constrói sua forma de ver e vivenciar cada experiência. É claro que existe um mínimo, não se pode contar com um aluno de voo livre, por exemplo, que compareça às aulas uma vez por mês, ou com um iniciante de Crossfit que acredite que em duas semanas conseguirá levantar um peso maior que o dele. A verdade é que Joãozinho, tem bastante experiência na atividade. Conhece os meandros técnicos e teóricos como poucos, além de contar com uma habilidade muito diferenciada, fruto evidente de toda sua suada dedicação.
 Na mente de Joãozinho, aqueles alunos “ruins” representam um perigo, um risco de colocar todo um longo processo a perder, pior que isso, um questionamento da possível fragilidade de algo que foi construído no mais sólido dos alicerces. Afinal quem estes alunicos acham que são?
 
Mas, o que é difícil para o Joãozinho enxergar e aceitar, é que sua pouca experiência com seres humanos ainda é flagrante se comparada à de um “mestre de mil almas”, aquele mestre capaz de desentortar galhos, polir pedaços de carvão até que brilhem, fazer concreto nadar borboleta, lançar arames retorcidos para o voo. Joãozinho está então diante de um momento complicado, pois chegou no momento exato em que aparentemente ele poderia relaxar um pouco mais diante do término de um longo processo; e de um momento para outro ele se vê em um terreno inóspito onde tudo aquilo que ele aprendeu, tem pouca ou nenhuma relevância... Sim, acabei de dizer pouca ou nenhuma relevância, porque esta é a dura realidade. A atividade em si não é a chave da compreensão dos meandros das motivações humanas, mas pode sim tornar-se um elemento essencialíssimo no sentido de que é através da atividade, que Joãozinho torna-se capaz de agregar os indivíduos que serão ingredientes inadiáveis para que seu processo interno de estudo e compreensão destas motivações possa ser gerenciado com sucesso.
Síntese

Diante da irrevogabilidade do convívio com estes “seres”, Joãozinho precisa então urgentemente, assumir uma forma de intermediador de universos. De um lado, o universo da atividade, com todas suas complexidades, segredos, manhas, tempos e métodos. De outro, o universo do aluno aprendiz com sua sede, sua pressa, sua volubilidade, seu interesse discutível, sua desconfiança e até mesmo, sua arrogância inerente. Joãozinho está a um passo de se tornar um verdadeiro instrutor, um verdadeiro coach, um mestre de verdade. Joãozinho conseguirá isto quando incorporar a função de veículo facilitador, capaz de interpretar a complexidade da atividade, traduzindo-a no idioma do leigo e sendo capaz de através de um processo coerente de aprendizado de tarefas intermediárias, conduzir seu aprendiz até as profundidades do core da atividade.

A linguagem é a chave, a empatia é essencial. Aproximar-se da língua do aluno significa que é preciso eliminar qualquer possibilidade que paire no horizonte e signifique que o aluno precisa subir em algum degrau para conseguir fechar um canal de comunicação com o instrutor, ou seja, o instrutor deve literalmente descer das tamancas... vestir a sandaliazinha da humildade do Vesgo e traduzir em as complexidades do vernáculo da atividade em língua de aluno. Isto começa com o bom dia, o aperto de mãos, o sorriso, o carinho, a impressão (mesmo que seja só isso) que Joãozinho demonstra algum tipo de interesse pela vida de seu aluno. Pode parecer impressionante, mas Joãozinho as vezes não consegue esconder sua falta de interesse nas vidinhas terrenas de seus alunos e isto é um problema grave, pois esse desinteresse flagrante se transforma em um muro eventualmente intransponível entre o aluno e o instrutor.

Joãozinho perde o aluno, este posta críticas ácidas nas redes sociais e as vezes dá até briga no estacionamento. Que feio, não é mesmo?

É duro pensar que cabe ao instrutor a tarefa de garantir esta aproximação e que Joãozinho é na maior parte das vezes, o único responsável pela dissidência de alunos em sua academia, sua escola, seu meio social. É claro que haverá seres irremediáveis nos meandros do processo, afinal nada na vida é 100%, mas todos devemos estar preparados para frustrações e principalmente, para utiliza-las como degraus de aprendizado para evitar repetições no futuro.


terça-feira, 11 de julho de 2017

Laerte-se, uma aula de humanidade



Sempre curti as tirinhas do Laerte e quando ouvi a notícia de que ele tinha decidido se vestir de mulher, achei que fosse mais uma dessas coisas "modernas"... rápida e bovinamente a gente trata de imaginar um rótulo que encaixe no conteudo; crossdresser? curioso? polêmico? palhaço?

Ontem assisti o documentário protagonizado por ele no Netflix e várias coisas me impressionaram. A confirmação que ele agora é mulher mesmo, no sentido mais humano da palavra é apenas uma informação a mais.

O que mais me chamou a atenção é que o documentário desmistifica e ensina a respeitar algo que nossa cultura nos ensinou a ridicularizar. Laerte, com sua simplicidade, sua doçura, sua inteligência social implícita em um certo desconforto diante da câmera, mostra que ele é tão humano quando eu e você e que uma decisão tomada depois de 60 anos de vida, não deprecia a vida que ele viveu até então, muito pelo contrário, mostra que sempre há tempo para celebrar e viver com muito mais intensidade.

Assista sem medo, aproxime-se desse mundo que ainda é tão complicado quanto assustador para tanta gente. Seu trabalho é um ato de respeito e abertura e principalmente de amor pela vida e por tudo o que ela pode proporcionar, sem censura, sem repressão, sem preconceito. Assim meio sem jeito, ele se revela, se abre, se entrega à opinião que qualquer um quiser dar, sem que qualquer opinião seja necessária, apenas carinho e sem dúvida, respeito e admiração.

Obrigado Laerte, por essa aula de humanidade.


Sivuca

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Muito mais que 13 motivos

Ontem terminei de assistir a série que está no Netflix chamada "13 Reasons Why".

A série, me causou um misto de sensações contraditórias, um passeio ziguezagueante que ia de indignação, passando por raiva, desprezo, decepção, compaixão, e chegando em preocupação real.

É engraçado quando uma simples série de TV consegue ir muito além de apenas entreter e divertir, aliás, de divertido essa série teve muito pouco ou quase nada. Desta vez, uma série de TV cumpriu, ao menos na minha forma de entender as coisas, um papel didático de alerta.

Para quem ainda não assistiu, uma garota de 17 anos, incapaz de administrar as complexidades emocionais de sua adolescência termina tomando a atitude mais drástica possível, dando cabo de sua própria vida.

Em vários momentos eu tentei traçar um paralelo entre tudo aquilo que eu via em minha vida durante a adolescência, na escola. A verdade é que me descobri aliviado, pois aquilo não aconteceu comigo, ao menos não daquela forma e muito menos naquele nível. Para ser sincero, fui um cara privilegiado, tanto que por incrível que pareça, constatar isso em alguns momentos, até me causa certo embaraço.

Fui privilegiado porque eu não posso afirmar que fui vítima séria de bullying, embora tenham havido vários momentos em que as coisas caminharam nessa direção. Houveram sim meninos e até meninas que me olharam como um possível alvo para suas “maldades”, mas acho que terminei me protegendo em um escudo de situação inversa. Não que eu tenha revertido a situação me transformando em um "bully" no sentido verdadeiro da palavra e fazendo o que eu tinha medo que fizessem comigo, escolhendo alvos frágeis para maltrata-los sistematicamente como é infelizmente comum acontecer. Não, não cheguei a agir assim.

Acho sim que meu privilégio foi ter recebido uma educação que, por mais que os métodos não tenham sido exatamente um exemplo de retidão política, me ensinou a me proteger. Eu então, tomei as rédeas da auto confiança e parti para uma jornada segura que consistia em resolver os problemas de forma rápida e ágil. Talvez quem olhasse de fora dissesse: “onde vai esse doido?”, mas dentro de mim, eu era indestrutível. Essa auto opinião, é claro, me causou alguns problemas e entre eles, uma certa dificuldade em manter relacionamentos ou estabilidade no trabalho, coisas que só fui aprender a administrar bem mais tarde. A vida então, se encarregou de me maltratar de outras formas, já que os colegas do colegial não conseguiam dar conta do “Super-Silvio”.

Mas então volto à 13 Reasons Why, onde Hanna, com seus 17 anos, não consegue lidar com o mundo louco ao seu redor. Temos bullying, amores frustrados e até estupro e é claro, suicídio. A entrevista com os produtores ao final da temporada explica que os adolescentes ainda não possuem seu ‘lobo frontal’ plenamente desenvolvido e por isto, encontram uma dificuldade especial em lidar com suas emoções – a “aborrescência” que tanto dizem, é um problema fisiológico e não apenas social. Diante da sensação de que seus problemas perdurassem "para sempre", sua decisão é uma atitude drástica que termina destruindo a si e é claro, atingindo de forma contundente, muita gente ao seu redor.

Eu como pai, apavoro-me. Se em vários momentos da série eu pensava “como pode Hanna ser tão boba, tão ingênua, tão cheia de auto piedade, tão fraca?” Em outros eu pensava que provavelmente aquilo tudo era só um retrato exagerado, uma crítica caricatural de uma sociedade norte-americana que está longe de ter um paralelo com os mano e as mina brasileira. Será que eu me enganei? Não sei, mas não quero testar essa possibilidade em casa. A série é pesada, mas necessária como alerta da necessidade de nos prevenirmos contra a mais remota destas possibilidades, afinal suponho que uma tragédia como essa, acontece de forma mais ou menos imprevisível por parte da maioria dos pais, parentes e amigos dos adolescentes. A sensação de segurança, evidenciada pelas boas notas na escola, pelo crédito nas habilidades emocionais e até mesmo pela nossa própria arrogância que pode nos julgar como pais protegidos contra “esse tipo de bobagem”, pode terminar nos pegando de surpresa diante da fragilidade emocional, social e fisiológica de nossos filhos vagando pelos meandros da fase pré-adulta.

Na série, Hanna é uma moça linda, inteligente. Seus pais são presentes, são compreensivos, são boa gente. Como é possível acontecer isso então? A sensação de que seus problemas durarão para sempre, que pode ser entendida como uma persistência imediatista povoa os pensamentos de Hanna. Ela perde sua identidade e sua humanidade numa mescla de autocrítica e autocomiseração. Uma permanente sensação de "estar sobrando". Tudo isso em meio a um ambiente com uma aparência (apenas isso) saudável. Esse é o paradoxo dos filhos.

Comigo deu certo, meus pais me ensinaram a revidar qualquer porrada direto na orelha de quem pensasse em dar a primeira, e embora seja grato, hoje não concordo com essa abordagem, porque aquilo que funcionou comigo, não irá necessariamente funcionar com meus filhos como um simples manual de instruções. Eu tive a sorte de me encaixar num perfil psicológico capaz de me proporcionar proteção, mas não posso tomar isso como certo para todos. É preciso ir além, oferecendo apoio verdadeiro e compreensão, respeitando o tempo e as diferenças entre meu eu-adulto e nossos filhos adolescentes, seres completamente diferentes, vivendo em tempos diferentes, com meios sociais diferentes, com posições subjetivas completamente diferentes diante dos problemas, das dificuldades e dos imprevistos que a vida nos apresenta.


Sivuca

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Aparelho auditivo, um ABC com dicas para a adaptação.

Conselhos para ajudar na adaptação ao aparelho auditivo

Esta é a última parte da série "A Saga dos Aparelhos Auditivos" que começou neste post.

Imagine que você é um cozinheiro preparando uma receita complexa, com um detalhe importante, você não pode experimentar nada, nem se está bom de sal. A única orientação é as quantidades da receita e o duvidoso auxílio de seu estagiário-assistente-de-cozinha. Então você coloca a quantidade de páprica que acha suficiente e pergunta ao estagiário o que ele acha e ele diz: "ahn.. não sei, sabe? talvez.. meio... não sei direito.. parece que está meio salgado, ou meio azedo, ou meio doce.. não
sei..."

Terrível, não? Como é que alguém vai cozinhar sem experimentar a comida? É assim que se sente a fonoaudióloga quando o paciente está na fase de encontrar a regulagem ideal do aparelho. Ela - ou ele - não pode escutar com seus ouvidos e só tem a tela do computador com o resultado de sua audiometria e os parâmetros de sensatez para atingir uma boa regulagem. Isso pode ficar tão complicado que pode motivar a uma desistência, coisa muito comum, especialmente com pessoas de maior idade.

Se decidir por usar e encontrar um bom aparelho auditivo já é tarefa complicada, desistir dele pode ser muito mais frustrante. Afinal, para chegar onde chegamos, tivemos de passar por muitas etapas e ninguém quer o quadro abaixo:
  • Um investimento bastante alto 
  • Um aparelho caro largado na gaveta 
  • Um velho surdo
  • Uma filha frustrada gritando em sua orelha. 
Esse é um quadro bem desagradável para qualquer pessoa, mas acontece com certa frequência. Não que eu tenha feito pesquisas específicas no assunto, afinal sou apenas um usuário experimentado que ao conversar com muitos amigos cujas vovós, vovôs, mamães e papais terminaram guardando o caríssimo aparelho na caixinha pra sempre.

A justificativa: Ela não aguentava mais aquelas idas e vindas até a fonoaudióloga, o aparelho não ficava bom nunca, ora tinha muito barulho, ora não dava pra escutar nada...

Pensando nisso e baseado no que eu aprendi em cerca de vinte anos usando aparelho auditivo, tenho algumas dicas para quem está cansado de dizer hã? e está a fim de experimentar como fica a vida de quem usa aparelho auditivo e principalmente está a fim entrar em uma aventura de verdadeiro sucesso.

Se você tiver paciência e persistência, sua vida pode ficar uma maravilha e você pode passar a escutar até mesmo melhor que a maioria das pessoas, lembra da Jammie Sommers? A mulher biônica namorada do Steve Austin, o Homem de Seis Milhões de Dólares? Ela conseguia escutar coisas que ninguém escutava... isso não está tão longe da realidade de hoje em dia não.

Comunicação

A primeira coisa a ser compreendida é que a comunicação eficiente entre o paciente com perda auditiva e o fonoaudiólogo é absolutamente essencial para que seu investimento gere resultados satisfatórios. Para que isso aconteça, sugiro que você procure se esforçar para compreender o mínimo essencial sobre como funciona o som, para que você possa ajudar seu fono a regular seu aparelho direitinho.

O som

O som é feito de ondas. Imagine um barquinho amarrado em um pier sob efeito das ondas do mar. As ondas são o som, elas foram geradas em algum lugar longe dali, mas propagaram-se pela superfície do mar até atingir o barquinho que balança subindo e descendo.
Agora imagine a corda de um piano. Ao apertar a tecla, um martelinho bate na corda e ela começa a vibrar. Essa vibração impressiona o ar ao seu redor que vibra de forma idêntica e assim como as ondas do mar que viajam pela superfície do oceano, as vibrações do som viajam pelo ar até atingir seus ouvidos.

O ouvido é uma máquina maravilhosa, ele funciona transformando as vibrações das ondas sonoras em impulsos elétricos que são interpretados pelo cérebro.

Dentro do ouvido, existe um órgão que parece com um tamborzinho, ele chama-se Tímpano.
Quando o tímpano percebe uma vibração no ar, ele também vibra e conduz esta vibração para dentro do ouvido interno através de um grupo de ossinhos simpáticos até uma espécie de concha que recebe o nome de cóclea ou labirinto. O labirinto está cheio de líquido e ele tem cabelinhos.. quando a vibração chega, o líquido se mexe e sensibiliza os cabelinhos que por sua vez transformam as vibrações em impulsos elétricos que irão para o cérebro através dos nervos auditivos, para finalmente serem compreendidos como um verdadeiro som do piano.

O labirinto tem também a função de ajudar você a perceber se está deitado ou em pé ou de cabeça pra baixo. É por isso que quem tem labirintite, sente-se tonto... o labirinto inflamado não está cumprindo sua tarefa direitinho, mas isso é outro assunto.

Tipos de sons

Existem diferentes tipos de sons, uma tuba ou um contrabaixo, por exemplo, produzem sons graves.

  • Já um píccolo ou mesmo os pratos de uma bateria, ou o violino, produzem sons agudos.
  • O som de um caminhão passando na rua é mais grave que o som de uma motocicleta.
  • O som de um garfo batendo em uma taça de cristal é mais agudo que o som de alguém batendo na porta.
  • O som de uma zabumba é mais grave que o som de um sininho. A zabumba tem um som abafado. O sininho tem um som metálico.


Imagine um restaurante cheio de gente, temos sons de todos os tipos:

  • Sons graves como passos, pancadas nas mesas ou as vozes dos homens, coisas raspando, sons abafados.
  • Sons médios com as vozes das pessoas em geral, sons metálicos.
  • Sons agudos como garfos e pratos se chocando ou a voz de crianças e algumas mulheres (só algumas...).

O "som de restaurante" é feito de graves, médios e agudos. Essas diferenças entre os tipos de sons recebem o nome de frequência sonora e intensidade. Sendo assim, sons graves são sons de baixa frequência enquanto sons agudos são sons de alta frequência e é lógico dizer o mesmo sobre sons médios, ou seja, sons de frequências médias. Todos os sons podem ser de maior ou menor intensidade, isto é, mais fracos ou mais fortes.

Se prestarmos atenção em uma pessoa falando, perceberemos que a voz humana é feita de diferentes sons também, sons mais graves e sons mais agudos. Imagine a palavra SOM. Ela é feita do som do "S" e também do som o "OM". O "S" é um som agudo, como um chiado ou o prato de uma bateria. Já o "OM" é um som mais grave, como notas da esquerda do teclado de um piano.

Então, se você não consegue escutar sons agudos, terá muita dificuldade em entender a diferença entre escutar as palavras "TOM", "SOM", "DOM" ou simplesmente "OM", afinal, se lhe faltam os agudos, como você conseguirá entender o "S" do som que é feito somente de sons agudos?

O mesmo acontecerá se for o contrário, ou seja, se você não escuta sons graves, entenderá a palavra "SOM" como apenas um curto e estranho "S"...

Entenda sua deficiência

O primeiro passo é consultar um médico e fazer um exame de audiometria. Ali será a porta de entrada para entender que tipo de deficiência auditiva você tem e se ela pode ser tratada, amenizada ou até corrigida com o uso de um aparelho auditivo.

Você entrará em uma sala a prova de som, o médico colocará um fone de ouvido especial em você e do lado de fora, irá utilizar uma máquina para produzir apitos de todos os tipos. O procedimento é simples, se você consegue escutar um apito, você avisa. Se não consegue escutar, faz aquela cara que é só sua. A máquina faz um apito e ele vai baixando o volume até o momento em que não é mais possível escutar. Nessa hora ele faz uma anotação que significa que aquele determinado apito que fica naquela determinada frequência sonora, só pode ser escutado se ele tiver o volume x.

Veja a imagem de meu audiograma. As bolinhas são o ouvido direito, as cruzinhas são o ouvido esquerdo. A coluna do gráfico é a intensidade sonora e a linha é a frequência sonora. Então quanto mais para baixo, pior... Perceba que eu escuto relativamente bem os sons mais graves que ficam à esquerda do gráfico, porém os agudos são mais problemáticos, com uma perda maior.

O próximo passo será procurar o aparelho, para ajudar, escrevi os outros artigos aqui sobre a Saga dos Aparelhos Auditivos, afinal você precisa de um aparelho adequado para seu estilo de vida.

Acuidade sonora

Sabemos a diferença entre "PATA" e "FACA" porque cada fonema "P", "T", "F" e "C", é feito de determinados sons.. nosso cérebro foi educado para decodificar isto. Se hoje não conseguimos escutar o som do "F" e amanhã voltamos a escutar, imediatamente nosso cérebro se lembra que aquele é o som do F.
O fonoaudiólogo faz também, um teste onde ele recita várias palavras para verificar sua acuidade sonora. As vezes apesar de escutarmos as palavras (porque o som dos fones está alto), não somos capazes de compreendê-las corretamente (lembra da velha surda da Praça da Alegria?) confundindo as palavras e uma "cuca turca" vira "puta surda", que horror!

Existem alguns casos, onde a pessoa passou tanto tempo sem escutar direito, que o cérebro não se "lembra" mais como são os sons.
Nesses casos, mesmo que o aparelho amplifique os sons que faltam, ainda a pessoa terá de passar por um processo de reeducação sonora, para que seu cérebro reaprenda que o "F", por exemplo, tem aquele determinado som. Isso significa que você precisará de muuuuuito mais calma e paciência, mas pode ser feito.

Adaptação

Os testes medem sua capacidade de escutar os diferentes tipos de som, sejam eles de alta, média ou baixa frequência. Lembra o que comentei logo acima sobre a palavra "SOM"?

Vamos então imaginar que por exemplo, você tenha perda auditiva na região dos sons agudos. Um aparelho auditivo poderá aumentar o volume dos sons agudos possibilitando que você os escute.

É aqui que começa o primeiro passo.

Imagine que fazem muitos anos que você escuta mal. No exame deu que você tem perda auditiva na região dos agudos. Isso quer dizer que há anos você quase não sabe o que são sons agudos. No instante em que você colocar um aparelho auditivo, um novo tipo de som passará a fazer parte de sua vida e é bem possível que isso seja uma surpresa bastante grande para você, especialmente se fazem muitos e muitos anos que você escuta mal.

É por isso que o aparelho precisará passar por uma muitas vezes longa fase de adaptação. Não será possível que no mesmo instante que você o colocar na orelha, saia escutando tudo como por milagre. O aparelho irá lhe incomodar, pois você não está acostumado a escutar todos aqueles sons. Seu mundo sonoro era mais restrito. Lembra como foi surpreendente quando as televisões passaram a exibir imagens coloridas ao invés de apenas em preto e branco? Hoje você escuta em preto e branco, amanhã poderá escutar colorido, mas para isso é preciso tempo de adaptação.

O fonoaudiólogo sabe disso e irá regular seu aparelho de forma progressiva e suave para que você vá aos poucos se acostumando com os novos sons até que só depois de completamente adaptado, você realmente esteja escutando todos os sons que lhe faltam sem que isso se torne um tormento em sua vida. Isso invariavelmente significará idas e vindas ao consultório para que de ajuste em ajuste, você chegue ao melhor resultado.

Agora que você está começando e entender a situação, também ficará mais fácil entender que quando mais eficientemente você informar ao seu fonoaudiólogo sobre o que é que efetivamente você está escutando, mais fácil será para ele ou ela, regular seu aparelho. O que quero dizer é que apesar do fonoaudiólogo saber que deve ir devagar com a regulagem dos sons, ele não tem como escutar com seus ouvidos e só suas informações poderão ajuda-lo a tornar sua vida com aparelhos o menos tormentosa possível.

O sonho dos fonoaudiólogos é ter uma pessoa como este que vos escreve como cliente, pois eu sou capaz de dizer a ela que preciso de uma amplificação de cerca de 6dB na faixa de 2khz. Claro que isso soará grego para o leigo, mas como eu procurei aprender o máximo possível sobre o assunto, minha vida torna-se mais fácil nessa hora. Você não precisa ir tão longe, mas se você for capaz de dizer que "faltam graves", ou "sobram agudos", ou "está muito metálico", ou "está muito abafado" e assim por diante, já será de grande ajuda. Se você anotar as coisas relativas aos tipos de ambientes que você frequenta, também poderá ajudar, veja um exemplo de uma coleta de informações sobre alguns dias de uso de um aparelho auditivo pela primeira vez:


  • "assistir novela - muito confortável"
  • "conversar com a família na cozinha - muito barulho de talheres e pratos"
  • "ir até a quitanda - um inferno de carros e buzinas"
  • "conversar com uma pessoa em lugar silencioso - perfeito"
  • "festa de aniversário de meu neto - quase fiquei louca, mas consegui conversar com minha nora finalmente..."
  • "consegui escutar o padre falando na igreja"


Estas informações são essenciais para ajudar o fonoaudiólogo a conseguir regular seu aparelho de maneira mais eficiente.

Lembre-se que você só poderá atingir o máximo de eficiência depois que tiver passado pela fase de adaptação e isso poderá levar várias semanas. Antes disso, o aparelho estará agindo de forma mais discreta e é claro, menos eficiente. Tenha paciência, isso é essencial.


Dicas de ouro


  • Acalme-se, mergulhe na aventura quando estiver sob menos stress, pois é preciso estar preparado para um certo tempo até que você esteja 100% sintonizado com seu novo aparelho.
  • Vá ao médico, entenda sua deficiência
  • Aprenda o que são sons graves e agudos
  • Tenha paciência para se adaptar aos aparelhos
  • Anote o que percebeu nos mais diferentes ambientes
  • Volte ao fonoaudiólogo regularmente para novos ajustes
  • Cuide muito bem de seus aparelhos, não deixe o cachorro mastiga-los

Muito importante

Nunca tenha vergonha de sua condição e muito menos de seus aparelhos. Sinta-se orgulhoso de levar toda aquela tecnologia nas orelhas, conte para as pessoas, mostre os aparelhos para elas, conte como você aprendeu todas essas coisas e como agora você consegue escutar melhor.

Você é um vencedor! Agora e sempre!

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Por que a fé alega ser hermética?

É interessante observar que as pessoas do mundo ocidental procuram sempre se certificar de que a liberdade de expressão não está sendo cerceada de alguma forma. Assim, todos tem o direito de criticar, tirar sarro ou até ridicularizar, por exemplo, o pessoal do Funk, ou os camelôs, ou os ciclistas, ou os que caminham digitando no celular e caem em buracos na rua, ou talvez as donas de casa ou os nerds, os palmeirenses, os coritianos ou os gremistas e os colorados também. Os gays também podem ser alvo de críticas e brincadeiras, os negros, os pobres, os judeus... até os políticos podem (e  estes devem) ser criticados, ridicularizados e etc..

Tudo bem, o politicamente correto intercede, mais por sua hipocrisia contemporânea do que por convicção real, mas sempre sobra uma farpa amiga ou um muxoxo de desprezo que pode ter lugar nas conversas do dia a dia... porém, quando se fala de fé.. pode parar por aí!

Se alguém criticar a fé do outro, então a ofensa está feita! Não estou falando só de fé em deus ou deuses e deusas, pode ser a homeopatia ou as superstições.

Parece que os detentores das "verdades" de sua fé, julgam-se herméticos. Dize-se mal de ateus, mas ouse criticar alguém que acredita que existe um deus deliberando entre as nuvens... Fala-se mal de remédios e vacinas, mas ouse alegar que homeopatia é inócua.

Pessoalmente acho que a liberdade de expressão deveria valer para todos. A fé não é mais nobre do que o time de futebol ou o partido político, embora muita gente vai achar essa frase um absurdo.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Morte na fila




No caixa eletrônico, uma longa fila. Tomo meu lugar calmamente, afinal apesar de ser mundialmente, intergalacticamente famoso, eu também pego fila, não é mesmo?

Faltavam apenas duas pessoas para chegar minha vez, quando surge um cidadão pela lateral esquerda armado com seu cartão e posiciona-se criando uma fila "caixa dois"...

Com o canto do olho fiquei observando e como previsto, libera o caixa e ele corre para a máquina para iniciar seu relacionamento com a tela.

Indignado, não me aguento e caminho até ele: "Senhor, senhor, tem uma fila lá atrás, o senhor não viu?". Enfezado, ele responde que quando ele chegara ao banco, não havia ninguém na fila e que ia ficar lá mesmo.
Achei um absurdo, "O senhor está furando a fila, isto está errado, o senhor deve voltar lá para o final, todas essas pessoas estão aqui esperando."
E ele mais enfezado ainda, dizendo que não ia pra fila "coisa nenhuma".

Então eu tinha que escolher entre resignar-me, subir em cima do muro, tomar um posicionamento neutro em um momento de crise e terminar no mais negro buraco do inferno de Dante ou agir. Claro que eu não ia bater no homem, então decidi usar minha ferramenta verborrágica:
"Vejam todos!! Vejam! este cidadão furou a fila, todos os senhores e senhoras estão aqui esperando sua vez e ele ultrapassou a todos. Todos estão aí calados e nada vai ser feito? Que absurdo! Que descalábrio! Provavelmente o senhor deve ser um político, não é mesmo? Onde é que estamos? Quem este homem pensa que é? Ele se acha melhor que todos? Furar a fila é um desrespeito!, uma falta de consideração por todas as pessoas que estão aí esperando a vez. Nada será dito? Nada será feito? Senhorita, senhorita, este homem furou a fila, faça alguma coisa!!"

A tal senhorita de jaqueta laranja lhe passou um pito, mas ele permaneceu incólume virado de costas fazendo suas transações enquanto eu me esvaía no meu texto.

Então, ele foi embora e ninguém mais disse nada, eu também parei de falar e assim terminou mais um momento de ligeira quebra de rotina na vida daquelas pessoas que jaziam mortas fazendo fila ao meu redor.

Eu, em compensação saí do banco vivo, pulsando, com o sangue correndo pelas minhas veias em alta temperatura e pronto para mais um dia não sem antes dividir isto com vocês, que espero profundamente que não estejam mortos como aquelas pessoas da fila.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Prometheus mas não cumprius

Fui ao cinema cheio de expectativas, afinal a nova obra de Ridley Scott chegou as telas, e ainda em IMAX 3D. Fui um dos primeiros a entrar na sala, sentei na poltrona enquanto lia o final de "A rainha do castelo de ar" do Stieg Larsson e observava as pessoas que iam se instalando em suas poltronas.
Um casal sentou-se exatamente na minha frente e se mostraram desconfortáveis, pois éramos praticamente os únicos no cinema ainda. "Quem reserva os melhores lugares costuma chegar primeiro também...", disse eu e eles sorriram como que autorizados.

Ridley Scott me impressiona pela sua obra máxima "Blade Runner" e também por "Alien", obras primas perenes. O androide de Blade Runner quer a vida eterna, ou ao menos evitar morrer tão cedo. O monstro de Alien quer perpetuar sua espécie. Os astronautas de Prometheus querem a explicação divina, querem as respostas as velhas perguntas "de onde eu vim?, qual meu propósito? quem me criou?". Apesar de estarmos em 2093 e os personagens serem pessoas pretensamente cultas, cientistas afinal... com uma visão científica das coisas, não é mesmo? Apesar disso essas perguntas literalmente torturam e motivam os personagens a seguir em frente. É de se estranhar que um grupo seleto de cientistas esteja nessa situação de busca desesperada pelo sentido da vida e ainda mais, pela vida eterna. É de se estranhar que Ridley Scott faça questão de nos empurrar seu teísmo goela abaixo nos atos de seus personagens, o que aconteceu? Chegou a senilidade? Só jesus salva?

Não gostei do filme, esperava mais de um monumento cinematográfico, senti tédio ao ver gente inteligente alegando que a busca pelas respostas é o sentido de suas vidas, cientistas fanáticos por símbolos religiosos, por mensagens divinas implícitas em desenhos dos homens das cavernas.
Não sei se por ser ateu, esteja eu manifestando fanaticamente meu desapego pelos "mistérios divinos", ou se apenas me desagradou o fanatismo religioso de Ridley Scott escorrer pela tela. Isso sem falar em clichês como o do geólogo que fica histérico no meio da missão e arma um barraco após 15 minutos de tensão no início do filme... o que ele esperava ao viajar até uma galáxia distante em busca de ETs? Dar um abraço no próprio ET Spielberguiano? A "dona" da espaçonave literalmente incinera um dos astronautas que ficou doente e começou a tossir, no máximo ela é chamada de malvada... será que estou ficando chato demais ou o filme é mesmo uma palhaçada?

Claro, a cena da cesariana é simplesmente fantástica, apesar da recém-operada sair correndo pelos corredores nos minutos seguinte, assim como outros gadgets que o pessoal tem a seu dispor. O sacana robô David também está ótimo, alguém disse que ele é parecido com Hal9000 no físico do androide malvado de Blade Runner, mas tudo termina por aí. Tá bom, a fotografia é bacaninha, os subwoffers balançam os brincos das orelhas das mina, o 3D não serve de nada.

Oh, perdoa-me por ser chato, muita gente está elogiando o filme...

domingo, 17 de junho de 2012

Totalmente semi-marceneiro (ou como construir um escorregador infantil))

Após algum tempo sem postar, publico algo que se encaixa no título do blog como... bem, encaixa bem encaixado.


Deve correr sangue de meu avô nas veias, é claro, afinal Francisco Guerreiro Candeias era um artista da madeira. Claro que seu neto não lhe faz jus nem ao rodapé das calças furadas, afinal meu finado avô chegou a ser premiado na primeira Bienal de São Paulo por seus fantásticos entalhes.

Bem, nada de entalhes, estou aprendendo a mexer com madeiras e já me diverti produzindo algumas bobagens como este galinheiro, uma estante para a dispensa, minha bancada de trabalho.. tudo feito com lixo, madeira de obra jogada fora.

Mas o grande desafio estava por vir, claro.. ainda virão outros, mas eu queria porque queria construir um escorregador para minha filha Sol.

Fiz o projeto com o software do Google, o Sketch-up que faz miséria com projeto em 3D.

Cheguei a orçar um desses em algumas empresas.. Ninguém pediu menos de R$2.000,00.

Comprei as madeiras, para o escorregador escolhi o angico que é uma madeira nobre - atenção à direção das fibras, passe a mão para sentir o lado que vai escorregar -, e para a estrutura é caibro comum além do eucalipto bruto tratado para os postes.
Gastei R$500,00 e coloquei mãos a obra:
Estrutura da plataforma

Repare que no detalhe, a junção das peças da plataforma. Descobri que é quase impossível recortar as peças de forma que realmente se encaixem perfeitamente... divertidíssimo.
Estrutura que quase se encaixa, repare nos pedacinhos de madeira para completar os espaços.

Em seguida parti para a construção do escorregador propriamente dito. Duas tábuas juntas com cavilhas e as laterais parafusadas.

O escorregador será a parte que ficará em contato com a bunda dos escorregandos (escorregandos são aquelas pessoas que escorregam no escorregador, para quem não sabe), por isso tem que lixar muito, mas muito mesmo.. e para isso vale a pena comprar um suporte para lixa que custa 30 reais, pois a lixa se desmancha e não tem apoio se fizer direto na mão.

Orçamento subindo...

Encaixe que deverá manter o escorregador preso a plataforma.

Para manter a estabilidade do escorregador, três sarrafos transversais. Repare que deixei  uma pequena folga para encaixar os sarrafos perfeitamente. Olhando de lado, eles ficam invisíveis.


O grande desafio era construir a escada. São nove degraus que deveriam ter exatamente o mesmo tamanho.. alguns precisaram ser trimados. Minha ideia (estúpida) inicial era usar cavilhas, mas em conversa com um marceneiro de verdade, ele condenou totalmente, sugerindo que eu fizesse um rebaixo para que os degraus encaixassem.. fiquei apavorado, passei horas medindo e alinhando até que finalmente criei coragem e mandei braza na serra circular.
Para ganhar estabilidade, coloquei dois prisioneiros embaixo dos degraus. Na verdade só fiz isso na segunda vez, na primeira eu furei acima dos degraus, só percebi mais tarde, cretino...
Detalhe do encaixe dos degraus.
Repare que fiz um escareado para embutir os parafusos dos prisioneiros.
A próxima etapa infernal foi preparar os troncos de sustentação principais para receber o peso da plataforma.

Cada tronco foi escavado transversalmente com vários cortes e profundidade de 4cm. Muita calma nessa hora, os dentes da serra circular já estão sofrendo e alguns já cairam... sabe que uma maldita serra nova custa quase R$100,00? Meu orçamento já subiu mais um pouco.

Depois de feitos os cortes, basta dar umas marteladas e os pedacinhos de madeira se quebram facilmente.






Depois, com o formão você vai cortando os pedacinhos que sobraram até ficar mais ou menos liso.

Muito cuidado com a serra circular, vale a pena usar um óculos de proteção, pois os pedacinhos de madeira voam magneticamente para dentro de seu zóio, sua besta.

O saldo final de escoriações foram um pequeno esfolado na falange, uma queimadura de leve no dedo, dores nas costas que foram corrigidos com banho de imersão, sais caríssimos da L'Occitanne, um comprimido de Lisador, um comprimido de Neosaldina, creme anti-dores para o cotovelo e um leve aditivo nada ilícito, sabe?

Aí está o corte após o trabalho de formão, veja os pedacinhos que bonitinhos.
Agora começam os ensaios estruturais. Fiz os furos  para colocar os prisioneiros que precisam encaixar perfeitamente. Não adianta medir, nunca vai encaixar se você não fizer isto. 
Detalhe da plataforma graciosamente encaixada no tronco estrutural. Claro que tirei a foto do lado mais bonito.
Agora temos de fazer o chão da plataforma. Apesar do martelo na foto, todas as tábuas foram parafusadas.
Foi o cão chupando manga carregar toda a tralha para o local onde o escorregador ficará montado, e ainda tive de carregar tudo sozinho. 

Agora temos um novo cenário, já bem mais definitivo.

Para quem não sabe o que é, estes são os prisioneiros, um parafuso que vende por metro e você corta no tamanho desejado com o arco de serra (use o torno de bancada pra segurar, senão escapa e arranca pedaço do seu dedo, Lula), esmerilha as pontas pra poder botar as porcas e tchanãn.
Não morra de ódio, marque sempre a posição das peças para não misturar.
Não consegui colocar a estrutura de pé sozinho, tive de pedir ajuda pros pedreiros da obra ao lado, mas agora o brinquedo já começa a tomar forma. 

Ainda falta fazer os buracos no chão.

Paguei R$20,00 pro pedreiro fazer os buracos, dá licença que não matei meu pai né? Cavar buraco ia me deixar as mãos cheias de calos e provavelmente eu teria de tomar algo mais forte pra dormir sem dor e sofrimento.









Estrutura já posicionada nos buracos de 30 cm de profundidade.
Buracos fechados, escada posicionada
Brinquedo quase pronto, já com o escorregador e a escada. Repare minha bancadinha móvel, presente de minha santa Mãe.
E é claro, o resultado final compensa qualquer corte, dor nas costas, queimadura, etc.
Ah, sim. As madeiras aparelhadas são Angico enquanto que os postes são eucalipto tratado. Já fiz algumas outras coisas, como prateleiras, e até mesmo a casinha de bonecas, você viu?

domingo, 20 de maio de 2012

Guerra dos Tronos, brincadeira de adultos

Terminei de ler o terceiro livro da saga de George R.R. Martin, foram 1180 páginas que me mantiveram grudado na leitura até o índice.

E mais, li a íntegra em formato digital no meu Tablet Coby Kyros. Quando comprei a versão digital, imaginei que não fosse conseguir, afinal livros são feitos de papel. Engano! A leitura do livro digital é muito mais agradável do que eu imaginava. O livro não pesa, é muito mais fácil mudar páginas, não existem problemas de iluminação, tem busca, marcador de quantas páginas você quiser, enfim... estamos modernos.

Tecnologia a parte, a estória se passa em um reino medieval e imaginário, no equivalente a idade média. Intriga, inveja, violência, sexo, morte, sangue, porra, vômito, e todos os outros fluidos que você imaginar, derramam-se sem timidez nas intensas páginas da obra, isso sem falar na ironia que torna história deliciosamente apimentada. Ah, aproveitando, aí vai uma estorinha que é contada no primeiro livro:
Conta-se que o Aço Valiriano é de um poder de corte inigualável, normalmente utilizado para a confecção de espadas capazes de partir um homem ao meio. Um dia, um homem ganhou uma navalha feita de aço valiriano e na primeira barba, descuidou-se e terminou degolado... sua cabeça rolou pelo chão com olhos arregalados e foi parar ao lado da porta até que sua esposa ao entrar no banheiro deu com a cabeça do marido olhando para ela...

São vários personagens, interligados das mais variadas formas, um vilão torna-se mocinho e o mocinho vira vilão de uma maneira imprevisível, o que torna sua cumplicidade ora com o bem, ora com o mal, um fato inevitável.
O real convive com o fantástico desmistificando-o. Há monstros "Além-da-Muralha" de verdade, os dragões já morreram a milhares de anos, porém três deles acabam de nascer e estão prontos para surpreender a todos. Os Stark de Winterfell possuem Lobos Gigantes e os bichos são absurdamente grandes mesmo.

A inteligência da obra divide cada capítulo dedicado a um personagem específico, desta forma, a trama corre em vários locais e tempos incertos simultaneamente. Personagens pouco expressivos em um livro, tornam-se pessoas interessantíssimas no próximo, num jogo de traição e desespero pela sobrevivência só comparável as obras de maior qualidade que conhecemos.
Nada de ficar com raiva de decisões estúpidas dos personagens, como estamos acostumados a ver acontecer o tempo todo, aqui os caras decidem com sobriedade e sensatez, cada um na sua medida, mas ninguém o faz querendo agradar o público, os personagens estão realmente vivendo a trama em sua totalidade. Adoro o Tyrion Lannister.

A coisa é tão boa que a HBO criou uma série imperdível que precisa também ser acompanhada paralelamente, mas de forma alguma isso deve servir de desculpa para você não ler os livros.

Estou desesperado, o quarto livro só chega em formato digital no segundo semestre, preciso saber o que vai acontecer! Corra, corra!! Compre o primeiro livro e começe a ler imediatamente, é uma ordem!!

Adeus a Roberto Simon

  Cemitério Israelita do Butantã - um lindo lugar. Fui até o cemitério hoje me despedir de meu amigo Roberto Simon. Fazia um bom tempo que e...